A faca

Minha mãe era cheia de histórias. Meu pai também. Ambos povoaram minha mente com elementos míticos que se incrustaram no meu inconsciente e de vez em sempre estão presentes nas minhas reflexões. Uma historinha que ela contou quando eu era criança era sobre o afiador de facas. Ao ouvir o inconfundível assobio, todas as notas de uma flautinha mágica de plástico, desfile de agudos, ela saiu para afiar suas facas de cozinha. Uma delas estava muito velha, com a lâmina toda denteada e sem corte. O moço propôs que trocasse a lâmina… Ler mais

Sonho de uma noite de verão

Foi perfeito, eu sei que foi perfeito. O anoitecer estava rosado, as duas estrelas apareceram juntas, uma leve brisa para aliviar o calor e a lua cheia despontando como um farol no céu. Férias sempre têm esse clima de que tudo pode, o novo é uma delícia e os imprevistos se tornam divertimento. É claro que quando se está na Grécia, no verão, com vista para o mar, tudo fica perfeito. Fechei os olhos e procurei sentir tudo o que aquele momento poderia me trazer. E trouxe… as estrelas que guiaram Jasão… Ler mais

Obra de Deus

Obra é uma das coisas mais chatas pelas quais quase todo mundo, um dia, vai ter que passar. Direta ou indiretamente. Quem quiser ter uma casa com a sua cara, ou o escritório dos sonhos, vai ter que colocar a mão na massa. Recentemente, passei por uma obra das duas formas. A direta e a indireta. Tudo começou com a doce ilusão de que seria rápido. Afinal de contas, era só colocar o piso, os armários, uma cor nas paredes e pronto. Mas você sabia que se o contrapiso não estiver nivelado… Ler mais

O contraventor

O dia estava divino, com a brisa peculiar de Agosto. A areia fresca e o mar, com seu imenso azul e verde, entoava intermitente a música das ondas e brilhava aquecido pelo encontro dos raios matinais. Estando ainda frio para me atirar num banho a essa hora, me instalei no Kaiamba como de praxe, pois, por um suco e um petisco, esse bar é o único que oferece wifi de graça, o que me mantém conectada e me acalma. Assim me entrego a mais um dia de praia. Enquanto me acomodava, observava… Ler mais

A propósito da ressignificação, ou a ridícula ideia de nunca mais nos vermos

Tinha tudo para ser um dia diferente. E foi. O condutor do táxi não sabia me informar, mas o rádio do carro ligado, a não sei quantos decibéis, não deixava dúvida. Acabara de ocorrer um desastre em Santos, cidade litorânea do estado de São Paulo. Ainda havia desencontro nas notícias, entretanto tudo levava a crer que se tratava de um helicóptero rompendo os telhados das casas localizadas num tal canal 3. Quando desci do táxi, uma garoa fina confundiu as lentes de meus óculos. Participava de um grupo em que oito pessoas… Ler mais

Segunda-feira

Já são 12:07 e nem vi a minha manhã passar. De um lado um copo d’água e do outro a lista, a interminável lista de coisas a serem feitas. Acho que esse é o dia mundial de começar algo, como um regime, exercícios, limpar o armário, marcar o dentista, retornar todas as ligações dos amigos… No meu caso, resolvi começar a colocar as pendências do ano em dia. Uma delas era beber mais água, por isso o copo d’água, apesar de só ter olhado para ele. Quanto mais paro para pensar e escrever sobre o que tenho a fazer,… Ler mais

Não há coalas em Gilbués

Há alguns anos, quando estava preparando a mudança de uma casa para um apartamento constatei que conviveria com menos espaço. Como solução decidi que coisas sem uso ou nunca tocadas ou vistas há mais de um ano, encontrariam o caminho direto para a lixeira. Tamanho desgaste, físico e emocional, que uma mudança exige parece ter sido suavizado com o reduzido número de objetos a serem acomodados. Tudo que carreguei comigo era essencial, dando início a uma nova maneira de viver a vida. Sair de uma casa grande para um espaço menor, além… Ler mais

Viagem adiada

Aquele chapéu panamá estava bem empoeirado. Era uma lembrança do tempo em que andava pelas ruas centrais de São Paulo, na Praça da República, pela avenida São João. Se mostrasse esta peça para meus netos, tenho certeza que se espantariam e ficariam curiosos em saber um pouco mais sobre a vida do vovô. Junto com o chapéu, estavam também algumas fotos antigas das reuniões em família – mal era possível saber quem eram as pessoas naquelas imagens amareladas e desgastadas. Talvez a tia Teresa, a prima Francisca, o tio José…todos já tinha… Ler mais

Cidinha e a cartomante

Era 11 de Agosto, dia do advogado e da Pendura, em que tradicionalmente os acadêmicos de direito vão a restaurantes, bebem, comem e não pagam, deixando a conta pendurada. Tudo isso, claro, em clima de festa e, muitas vezes, de confusão. Outra tradição do dia 11 é a Peruada, que acontece na faculdade de direito no Largo São Francisco. Trata-se de uma festa onde as alunas e os alunos, em parte vestidos de mulher, bebem e pulam alegremente, numa espécie de micareta pelo centro de São Paulo. Era sexta-feira. Era Peruada. O sol… Ler mais