Ideologia

E agora o quê? Que sombra ideológica é essa em que nos metemos? Choro com o grito de Cazuza: As ilusões estão todas perdidas… Tomei partido da possibilidade de mudança nas ruas das Diretas Já. Jovem, me embriaguei demais. Mergulhei no sonho coletivo. Acreditei em promessas de heróis de cara pintada que proclamavam caçar bandidos. Me deixei levar alucinada pelo mundo imaginário das histórias em quadrinhos. Fazer o que agora? Assistir de pé aos meus heróis se suicidarem pela vaidade. Assistir a minha ideologia ser enterrada na vala comum do cemitério da… Ler mais

Hóspedes

Primeiro a vassoura, que faz o pó subir, depois o pano umedecido com um produto cheiroso para recolher o que os pelos não conseguiram agarrar, e para finalizar o pano de pó. Detesto e adoro essa rotina. A casa é uma maldição eterna, mal acaba de ser limpa e já se entrega novamente a cabelos, células, migalhas, marcas de pé. Mas a casa também é uma benção, refúgio, porto seguro. Enquanto a casa vai ficando limpa e organizada, meu coração também se organiza. Eles devem chegar a qualquer momento e quero causar… Ler mais

A derrota das mulheres ou as vítimas propícias

Serão 366 dias. Ano bissexto. Surge uma ponta de esperança que me deixa intrigada. Qual o real motivo para tal? O que fazer com um dia a mais? Será um dia para celebrar nas férias ou para trabalhar? Os dias são sempre especiais. Lembro-me bem do dia em que tirei meu segundo passaporte. O primeiro, era muito nova, fui só de acompanhante. Na época, não podia sorrir na foto, saí com cara de indigestão e com um corte de cabelo de gosto duvidoso. O terceiro passaporte foi muito especial. Foi lá que… Ler mais

A viagem do Carnaval

Acho incrível como o brasileiro, e muitos gringos, são tomados por uma felicidade extrema na época do Carnaval. Festas pré, durante e pós-carnaval são frequentadas por frenéticos fantasiados, normalmente embalados por vodka, cerveja, beijo na boca e afins. Antes era só Rio de Janeiro e Salvador. Agora São Paulo entrou com força total no circuito carnavalesco, e seus blocos de rua já são quase tão famosos como os cariocas. Já passei por carnavais no Rio e em Olinda. Do Rio nunca vou esquecer, a onda de sensualidade da Banda de Ipanema, quase um… Ler mais

Nunca tive medo de nada

Nunca tive medo de nada. Quer dizer, de quase nada. O único que tenho sempre resolvi na base da evitação. É inadmissível que um sujeito como eu, com um metro e noventa de altura e cento e cinco quilos de músculos, possa ter esse ponto fraco. Faço academia, pratico surf, corro maratona, sou macho pacas, mas o tal medo me dá medo. De hoje não escapo. Só faltam uns centímetros, um mísero espaço para vencer a barreira e me livrar dessa fantasia absurda, que me acompanha desde criança. Ouço o chamado para romper… Ler mais

O crime do Houaiss

Um barulho no quarto ao lado me acordou de madrugada. Será que a crônica que tenho que entregar caiu da biblioteca e se estatelou no chão? Nada disso. Eram muitas as partes espalhadas, mas não eram letras. Eram cacos de um pequeno pote de cristal que escorregou da prateleira, empurrado pelo Houaiss. Muito estranho isso, porque esses dois assuntos têm me perturbado ao longo do dia. A crônica inacabada – de certo estava sonhando com ela – e um dos tantos objetos que parecem se multiplicar pela casa a cada dia que… Ler mais

O sonho do Natal branco

Todo final de ano temos a sensação de que o mundo vai acabar se não atravessarmos a chegada do 13º, compras no shopping, congestionamentos ou a rota de fuga preferida do turista adicto: o aeroporto. A sensação de que esse pacote de acontecimentos faz a diferença nos deixa mais plenos e reconfortados. Eu escolhi a rota de fuga, e pela primeira vez pisei no novo terminal do maior aeroporto do país: Terminal 3 – Guarulhos. Arquitetura moderna e estonteante, mas nada de assentos. Então relaxo e resolvo dar uma caminhada para conhecer o… Ler mais

Sou de opinião

Ter opinião já foi coisa proibida: “Cala a boca, não quero palpite”. Também já foi feia: “O que vão pensar de você?”. E, principalmente, perigosa: “Ame-o ou deixe-o”. Acho que isso explica a avalanche de opiniões de todos os tipos a nos soterrar hoje em dia. Tanto tempo silenciadas, as pessoas anseiam por se pronunciar, o que poderia ser motivo de comemoração, sinal de maturidade, possibilidade de evolução, diálogo, afinal. Só que não. Nunca se quis tanto ficar no preto e branco, tirando toda a cor da vida. Se você gosta de… Ler mais

Como uma droga

Feriado – dia do trabalho. Rumo ao interior do estado para visitar a família. Nunca havia visto um trânsito igual naquele ponto, antes e depois do posto de pedágio. Ligo o rádio e descubro o motivo do congestionamento. “Tomorrowland” em Itu. Como assim, do que estão falando? O entusiasmado locutor me esclarece. Estou nas proximidades do acesso ao maior festival de música dos últimos tempos. Quem diria! Como sou desavisada! Passam carros. Passou a estrada. De noite, zapeando na TV, novamente: “Tomorrowland”. Aquele povo chegou lá! As imagens mostram um mar de… Ler mais

Charlie e o Burle Marx

Saio de casa cedo pra aproveitar o sábado ensolarado. É dia de feira orgânica no Parque da Água Branca. Como preciso comprar frutas e verduras, aproveito e combino com minha amiga Marise de nos encontrarmos lá, por volta do meio dia, para lhe entregar um pacote que havia esquecido no meu carro em nosso último encontro. O parque destoa totalmente de seus arredores, na movimentada Avenida Francisco Matarazzo. Apresenta-se numa paisagem bucólica, com suas casinhas amarelas e árvores enormes, que fazem sombra para o conforto dos visitantes. Chego às onze da manhã… Ler mais