Do outro lado da linha

Nem sei há quanto tempo o telefone está tocando. Levanto da poltrona cambaleando e procuro apoio. – Alô… – Oi, vó, o que tá acontecendo? – Ouço uma voz de criança do outro lado. A pergunta me pega de surpresa. O que estaria acontecendo? E onde? Sobre o que aquela menininha estaria falando, se eu não tenho nenhuma neta? Dou trela à conversa. – Olá, minha pequena, acordada até agora? – Estou preocupada com você. Não consigo dormir. Já contei todos os carneirinhos, como me ensinou. – Que linda, quanto carinho! –… Ler mais

Irmã para quê?

Inacreditável, foi a única palavra que consegui dizer quando ganhei um urso de pelúcia da minha irmã Juliana. Sei que muita gente ganha bichinhos bonitos, enfeitados, bem vestidos, até com cheiro. Fica feliz, coloca sobre a cama, na estante de livros. Mas eu tenho 64 anos, e com certeza vivi plenamente a infância. Confesso que jamais pensei em retornar ao meu tempo de bonecas de pano, corda de pular ou minijogo de chá sobre a mesinha de fórmica. E olha que nem passei pelo desafinado piano com oito teclas. Trabalhei as possibilidades enquanto… Ler mais

Pulp fiction paulistana

As luzes foram acesas, mas Ana Beatriz ainda se sentia dentro do filme. Produção francesa é assim mesmo, nos deixa no meio do caminho: ficar sentada e pensar a respeito, ou correr para olhar o mundo e ver se tudo ainda permanece no mesmo lugar. Enquanto pensava, ia arrumando todas as tranqueiras que havia espalhado nas poltronas vazias ao lado da sua. Saquinho de pipoca, livro da Hilda Hilst, copo de Coca-Cola, programação do Belas Artes, a garrafinha prateada com seu uísque preferido. Esperou os créditos passarem na tentativa de ler alguma… Ler mais

O avião, a lancheira da mamãe e o lixo da memória

Tem gente que não gosta de viajar. Para mim, viagem tem a mesma importância que tomar banho, escovar os dentes e me formar na faculdade. Ou seja, me renova, me amplia, traz sentido à vida, acabo conhecendo mais daquilo que gosto e do que não gosto. E ainda abre espaço para eu mudar de opinião sobre esses mesmos gostos. Um mal necessário é o avião. Tem fila para tudo, a comida é praticamente de plástico, o ar sempre é polar para competir com a temperatura externa e os banheiros após 20 minutos… Ler mais

Escuto o outro em mim

A dor do outro dói em mim. Ouvir não é uma opção, pois uma vez que o ouvido funcione, ele ouve. É o barulho dos carros passando na Marginal, o avião às seis da manhã anunciando que o aeroporto de Congonhas está aberto, os pássaros piando em busca das frutas das árvores no parque perto daqui. Som, música, barulho, melodia… Ouvir é entender que não se está sozinho. Mesmo quando o som chega em uma linguagem que não se entende. O que me impressiona é que acabo compreendendo o que antes achava não… Ler mais

Oração ao Tempo

Quando aqueles que admiramos e amamos se vão, levam junto um pouco do que somos, como foi quando perdi meu pai. O Tempo passa e assistimos a nossos ídolos e mentores, seres iluminados, partirem levando sua energia, um jeito de ser, um talento. Aguardo com tranquilidade o microssegundo de sair do círculo da vida e já me imagino encontrando essas energias vibrando no espaço incógnito. Reconhecerei? Reconhecerão? Vou pedir ao Tempo que me permita pelo menos um abraço, e que eu possa lhes dizer que segui os mestres para mais uma vez… Ler mais

Quem nunca?

Tantas histórias de um grande amor perdido. Quem nunca teve? Daqueles que a gente investe, renuncia, se entrega, faz planos, desfaz, refaz. Daqueles que a gente espera uma vida pra ter e passa mais outra tentando entender o que deu errado. O amor na prática é sempre ao contrário. Sonhos, promessas, sacrifícios por um grande propósito. Quem nunca fez? A vida é cruel mesmo. Caminhamos e erramos. Erramos e paramos. Voltamos e indagamos. Ciclo viciante ou círculo em vício? Temos a resposta ou não sabemos a pergunta? Por que choramos? Ou, por… Ler mais

Conversa educada

No carro a caminho de casa, em meio a um trânsito infernal, decido ligar para minha mãe e avisar que estou chegando. Quero tirar proveito de tanta tecnologia ao meu dispor e digo: – Olá, Siri, ligar para Laura. Nenhuma resposta. Refaço o pedido caprichando na entonação sem sucesso. Mais uma vez, e mais uma. Nada. Emputecida, porque a essa altura já estou na garagem do prédio, mando minha assistente digital tomar no c… – Vou fazer de conta que não entendi. Envergonhada pela resposta polida, me pego pensando quão viva está ela dentro daquela… Ler mais

Valise parisiense

Todos os passageiros do metrô de Paris carregam uma valise. Operários, doutores, faxineiras, professores, estudantes, larápios e gatunos. O que tem dentro da valise do parisiense? Marmita, livros e, bien sûre, maquiagem. Roupa suja para lavar e roupa limpa para o operário passear depois do trabalho, comendo um crepe envolto em minipapel, que segura com as mãos não tão limpas, com manchas da poluição e da graxa das máquinas. Tem revistinha também, tem pedaço de baguete com uma fatia grande de camembert, tem embalagem pequena de vinho, tem os pensamentos de Sartre,… Ler mais

Receita para perder um amigo

Foi o tempo de entrar no carro do meu amigo e a melodia se instalou na minha cabeça. Tratava-se de um carro de porte médio, preto, sem mistérios, mas com teto solar que ajudava a balançar a cabeleira e a trança vermelha. O tal amigo era um cinquentão que fazia o gênero pavão misterioso, mas que naquele dia falava, falava, falava. Os assuntos variavam desde o caminho certo para chegarmos ao destino, até o caminho certo para repousarmos na felicidade. E a melodia ia e voltava. O automóvel avançava, os sinais de… Ler mais