Autobiografia autorizada

Fazia frio em São Paulo. Julho de 2014. No predinho em Pinheiros as cadeiras estão dispostas em “U”, e o mestre, professor, animador, em pé, preparando os poucos equipamentos de suporte. Era um jovem senhor elegante em suas roupas de inverno.

Já estavam lá uns poucos apressados, que haviam chegado com muita antecedência. Duas mulheres conversavam animadamente. Seriam amigas? Logo a sala lotou e começaram as apresentações. Quantos seriam egressos do curso de letras da USP? Apenas um se apresentou como tal. Depois foi a vez de um psiquiatra. Psiquiatra?! E uma jovem administradora, professora de yoga e fotógrafa, tudo ao mesmo tempo. Tinha também uma senhora de cabelos grisalhos que era matemática, administradora, tradutora e outras “oras mais”.

Aquelas duas que falavam sem parar se identificaram: uma era produtora editorial, e a outra, argentina de nascimento, era uma profissional de marketing e relações humanas. Descobriu-se depois que a grande simpatia entre elas havia começado ali mesmo, poucos minutos antes da aula. A seguir uma jornalista e profissional de relações públicas. Ainda havia gente contando sobre sua vida quando adentrou o recinto, com cara de quem sabia estar muito atrasada, uma advogada de um importante tribunal de São Paulo.

Nós, esses estranhos elementos de um melting pot, de uma gelatina com vários pedaços coloridos, ao final do curso resolvemos nos encontrar em uma pizzaria, claro, paulistas que somos, na Vila Madalena. Veio então a proposta de escrever a várias mãos.

Posições iniciais diversas quanto ao modus operandi, ficou resolvido que iríamos experimentar um exercício em que cada um daria sequência ao texto do outro. Um grupo fechado numa rede social viabilizou as tarefas. Após alguns meses, deu-se nossa primeira reunião de grupo para produzirmos novas crônicas. Inventamos uma gincana: cada um deveria escrever um parágrafo e passar adiante, e assim sucessivamente, até o texto voltar a quem o iniciara… Que experiência! Que sensação incrível ler o texto final completamente diferente do imaginado. E a fluidez? Já não sabíamos mais onde terminava um e começava o outro.

Logo veio a ideia de um site, o Crônicas Coletivas. Com visual caprichado, mantivemos a publicação de um texto por semana, anunciado em nossa fanpage no Facebook. Outros encontros presenciais passaram a ser marcados a cada mês, regados a quitutes e boas ideias. E assim nasceram muitos textos a partir de músicas, de descrições, de biscoitos da sorte, palimpsestos, sempre coletivamente. Uma nova ideia acabou surgindo como consequência da nossa experiência: uma oficina em que replicaríamos a construção coletiva da escrita.

Quem apostaria que de um encontro casual de totais desconhecidos, numa sala pequena de paredes brancas, sem mais objetos que uma mesa de reuniões e cadeiras, numa oficina de escrita criativa voltada às crônicas, surgiria tanta parceria e um sonho, e do sonho este livro, e mais projetos, e mais sonhos?

O encontro de nossas seis almas, seis cabeças, seis corações e doze mãos foi assim. Éramos oito a princípio, mas dois companheiros, por impedimentos da vida, tiveram de deixar a empreitada.

Hoje, com protótipos bem sucedidos já realizados, temos a modelagem da nossa oficina para oferecermos ao público tudo que aprendemos sobre escrever juntos, sair um pouco de si e se misturar no outro, e sobre o exercício engrandecedor e permanente da alteridade. Como a fábrica de ideias não cessa nunca, chegamos à publicação deste livro, que reúne alguns de nossos textos, e à criação da nossa marca. E daqui para o infinito, juntos.

Ah, esquecemos de nos apresentar. Somos unoutro.

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