Viagem adiada

Aquele chapéu panamá estava bem empoeirado. Era uma lembrança do tempo em que andava pelas ruas centrais de São Paulo, na Praça da República, pela avenida São João. Se mostrasse esta peça para meus netos, tenho certeza que se espantariam e ficariam curiosos em saber um pouco mais sobre a vida do vovô.

Junto com o chapéu, estavam também algumas fotos antigas das reuniões em família – mal era possível saber quem eram as pessoas naquelas imagens amareladas e desgastadas. Talvez a tia Teresa, a prima Francisca, o tio José…todos já tinha atravessado o portal da morte, seja para o céu ou para o inferno.

Será que esse lugar teria algo em comum com a descrição diabólica realizada por Dante na Divina Comédia? Prefiro mesmo é encontrar a minha Beatriz, para que ela possa me guiar pelo paraíso. Mas, sou teimoso. Ainda não quero fazer essa tal viagem. Deixa eu tomar meus remédios para pressão alta e colesterol.

Minha saúde é teimosa. Oscila, balança, mas não cai. Eu me cuido, lógico, mas ultimamente minha atenção tem migrado para intuições inéditas, uma discreta e incipiente aceitação dos limites de minha condição física. Percebo-me mais pensativo, mais introvertido, mais aquietado. Já não valorizo mais tantas pequenas bobagens quanto antes, estou cada vez mais seletivo e, uma coisa chata, um pouco mais isolado.

Meu chapéu e as fotos são avisos permanentes, como um sinal amarelo enguiçado; você não sabe mais se vai dar tempo…E, sendo o tempo o único espaço entre eu e o fim da estrada, escolho percorrer cada dia como se fosse o último, viver cada emoção como se fosse nova, dizer cada palavra como se fosse profunda.

Não quero o encontro marcado com os parentes mortos. Prefiro
estar só, mesmo que seja nesta sala ampla e iluminada com o resto do grupo, homens e mulheres esquecidos pela família e convenientemente esquecidos de si. Eu ainda me lembro da cidade de outrora, da juventude, de outras viagens adiadas. Não quero partir agora, estou apegado à vida como uma criança que não quer deixar o parquinho.

Semanas atrás, Gertrudes fez a dela. Adiou, atrasou, perdeu a última chamada, mas esse trem zarpa com frequência. Quem quer que seja deixado para trás, será pego pelo próximo. Sua viagem foi bem aceita pelos vizinhos.

Gertrudes, que já era bisavó na ditadura, não levou muito ao seu destino incerto, como muitos de nós que vão e jamais voltam. É o tipo de passeio para o qual se vai sem bagagem, apenas com a roupa do corpo. Um colar, um anel, uma gravata borboleta, nossa âncora neste mundo, algo para lembrar dos velhos tempos. Ela levou um anel de brilhantes, dado a ela em seu quinto ou sexto casamento.

À menção do adorno, pus-me a pensar em qual seria a minha âncora. Imagino que deva ser algo pesado, de peso físico e emocional. Mas não quero acabar um peso morto, de modo a descer ao inferno simplesmente pelos anjos terem dificuldade em me carregar. Que o tio José fique lá embaixo com prima Francisca na companhia do capeta. Quero mesmo é garantir o trajeto à minha doce e amada Beatriz, sem empecilhos.

Talvez eu possa deixar por escrito que eu quero levar comigo o meu chapéu panamá, para ficar elegante como sempre fui. Mas, sinceramente, será um estorvo na hora da tampa do caixão se fechar sobre mim, não acham?

De repente, saí dos devaneios e olhei para os companheiros da casa de repouso. Escutei risadas e passos apressados no corredor. Eram meus netos e minha filha que chegavam. Já sabia qual a programação para este sábado com a família. Coloquei meu chapéu na cabeça, sorri e defini: era dia de ir à Praça da República comer um pastel e ver artesanato. Como sabem, sou velho, mas estou bem vivo ainda!

© Crônica coletiva

Cidinha e a cartomante

Era 11 de Agosto, dia do advogado e da Pendura, em que tradicionalmente os acadêmicos de direito vão a restaurantes, bebem, comem e não pagam, deixando a conta pendurada. Tudo isso, claro, em clima de festa e, muitas vezes, de confusão. Outra tradição do dia 11 é a Peruada, que acontece na faculdade de direito no Largo São Francisco. Trata-se de uma festa onde as alunas e os alunos, em parte vestidos de mulher, bebem e pulam alegremente, numa espécie de micareta pelo centro de São Paulo.

Era sexta-feira. Era Peruada. O sol brilhava. O viaduto do chá estava tomado por uma multidão de pessoas alegres pela festa e pela bebida. Cidinha sentou-se no banco. Não resistiu ao chamado da cigana com sua veste colorida, seus brincos extravagantes. “Deixe-me ver sua mão”, disse a morena de unhas compridas, sorriso emoldurado por uma fila de dentes de ouro, ou seriam de algum outro metal? Tenho minhas dúvidas. “Sente-se aqui. Faço previsão do futuro”.

Ela, que já estava mais pra lá do que pra cá, ofereceu-lhe a mão achando graça. Lá vem lorota, pensou. E quem poderia culpá-la? Afinal de contas, a primeira reação de qualquer paulistano em sã consciência ao ver um cigano é esconder mãos e punhos nos bolsos das calças, apenas para o caso de alguma delas ter visão de raios-X e oferecer leituras através do jeans, requisitando a exata quantidade de moedas que tem ali.

Correu os olhos pelo viaduto, parando num grupo de colegas de classe com os saiotes levantados, mostrando as bundas peludas aos motoristas. Uma risada escapou dos seus lábios, provocada tanto pela cena cômica quanto pelo dedo frio da cigana percorrendo linhas na palma de sua mão, dando-lhe cócegas. Sua mãe lhe contara uma experiência que tivera um dia, quando jovem. Uma cigana tinha lido em sua mão que ficaria grávida quatro vezes. Como tinha só dois irmãos nunca deu crédito a essa brincadeira de ler as mãos, até que um dia sua mãe lhe revelou que tivera um aborto espontâneo antes de seu nascimento. Gelou, e a partir daí passou a temer. Como é que pode, só lendo uns risquinhos, saber tanta coisa? E saber o próprio futuro pode ser muito complicado.

A cigana não tirava os olhos negros e borrados da mão de Cidinha. Disse que na linha da vida tudo corria bem, sem preocupações; na linha do coração, que encontraria em breve seu grande amor, e na linha do destino, nada alarmante. Ainda assim Cidinha estava tensa, queria mesmo era puxar a mão e sair correndo. Aí a cigana se deteve, olhou firme para sua mão e disse que havia algo em seu monte de Vênus. Defendida, mais que depressa respondeu que tinha ido há quinze dias em sua ginecologista e que estava tudo em ordem.

A cigana a olhou com cara de avó. Disse, apontando, que era o monte de Vênus. “O que é que tem?”, perguntou, ansiosa. “Você está grávida”. Cidinha gelou. Entrou em choque. E a adrenalina a fez recuperar parte da consciência que a bebida havia lhe roubado. Começou a fazer o cálculo dos ciclos, dos homens, das noitadas e dos tragos. Não necessariamente tudo nessa ordem, mas o fato é que enquanto repassava as possibilidades, também lhe vinha à memória sua mãe e o provável déjà vu que essa charlatã do além, exploradora da credulidade pública, acabara de lhe dizer.

Então chega de lorota! A reflexão sobre a exploração alheia foi o suficiente para lembrá-la de seu curso de Direito e dos colegas que estavam logo ali no viaduto, à sua frente, se divertindo. Encerrou o assunto dizendo: “Minha senhora, foi muito bom, mas já vou indo, pois o grupo me espera”. Levantou-se deixando um trocado, sem sequer se atrever a olhar nos olhos negros da cigana. Não queria que a mulher a resgatasse por seu próprio medo. E saiu perguntando-se, apavorada: “Será verdade?”. Se juntou à multidão novamente, e dançou, e bebeu, inconsequente, inconsciente, como se fosse seu último dia de liberdade, de libertinagem. Seria mesmo.

© Crônica coletiva

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