Valise parisiense

Todos os passageiros do metrô de Paris carregam uma valise. Operários, doutores, faxineiras, professores, estudantes, larápios e gatunos. O que tem dentro da valise do parisiense? Marmita, livros e, bien sûre, maquiagem. Roupa suja para lavar e roupa limpa para o operário passear depois do trabalho, comendo um crepe envolto em minipapel, que segura com as mãos não tão limpas, com manchas da poluição e da graxa das máquinas. Tem revistinha também, tem pedaço de baguete com uma fatia grande de camembert, tem embalagem pequena de vinho, tem os pensamentos de Sartre, os dizeres de Camus e as peças de Jean Genet no mesmo plástico em que guardam o croissant. Quem sabe levam também o discurso do General de Gaulle aos franceses, escrito em Londres durante a Segunda Guerra.

Também quero ter uma valise, de couro marrom igual àquela da Violette Le Duc, ou parecida com aquela já surrada pelo tempo de Simone de Beauvoir.

Levaria minhas memórias sempre comigo, registros recentes e antigos da minha passagem, fotos, cartões, agendinhas, uma para cada finalidade, telefones de médicos, amigas, lojas e restaurantes, um saquinho com meus santos comprimidos de cada dia, escovinha para cabelo e uma dobrável para os dentes, uma bisnaguinha de creme dental, dois absorventes e protetor solar. Um espaço garantido para a última edição de bolso de Mémoires d’une jeune fille rangée. E o estojinho básico de maquiagem, sempre ao alcance dos dedos – preciso morrer bela, qualquer hora é hora.

Talvez seja sensato deixar outra valise arrumada, no caso de a passagem ser repentina. O que será necessário levar comigo para o Juízo Final? Um saquinho de pistache e um Chablis branco bem gelado. Talvez um bom aperitivo deixe minha conversa com Ele mais leve. Minhas cartas de amor, o poema de Guillaume Apollinaire Le Pont Mirabeau, algumas fotografias de família e um CD do Vinícius. Seriam boas ilustrações de como me comportei sobre os assuntos do coração. Meus boletins escolares,  minha tese de mestrado, as declarações de imposto de renda, a escritura da minha casa, o carnê do carro, quitado, caso haja necessidade de comprovar que sempre honrei minhas dívidas e compromissos. Seria suficiente para ganhar os céus?

Talvez eu deixe preparada uma outra valise, au cas où.

© Crônica coletiva

 

Receita para perder um amigo

Foi o tempo de entrar no carro do meu amigo e a melodia se instalou na minha cabeça. Tratava-se de um carro de porte médio, preto, sem mistérios, mas com teto solar que ajudava a balançar a cabeleira e a trança vermelha. O tal amigo era um cinquentão que fazia o gênero pavão misterioso, mas que naquele dia falava, falava, falava. Os assuntos variavam desde o caminho certo para chegarmos ao destino, até o caminho certo para repousarmos na felicidade. E a melodia ia e voltava. O automóvel avançava, os sinais de trânsito se alternavam, e na minha cabeça a frase melódica. Então está tudo certo, eu pensava, é tudo uma questão de ritmo.

Ele nem percebeu, mas cantarolei uma letra a partir de seu discurso interminável. Uma palavra e eu lembrava um verso, e ia deixando vir uma torrente musical, sem censura nem bloqueios, só mantendo a atenção nas palavras que ele nem sabia que me inspiravam.

Na chegada ele me disse: “Então, o que você achou da minha ideia?”

Sabia que ele ia se assustar, por isso eu fiz. Comecei a cantar os versos que haviam brotado do som de suas palavras. Elevando as sobrancelhas até quase a raiz de seu ralo cabelo, seus olhos começaram a lacrimejar. No momento não sabia se o motivo era a abertura exagerada dos olhos ou a emoção. Mas, confiante, continuei.

E não havia limites para mim. Ia de MPB a Axé, passando pelos clássicos sertanejos, samba, até funk. Tudo era inspiração, o ritmo era consequência. Lembrava a palavra, vinha o refrão. Felicidade: “Sou feliz, por isso estou aqui, também quero viajar nesse balão”… Tristeza: “Vai minha tristeza e diz pra ela que sem ela não pode ser”… Amor: “Amor, meu grande amor, não chegue na hora marcada”… Solidão: “Solidão, palavra que dói no fundo”… Tranquilo: “Tá tranquilo, tá favorável, um brinde pros recalcados”…

E foi ao som de MC Bin Laden que percebi que tinha ido longe demais.

Furioso com a minha (segundo ele) desconsideração com sua pessoa, disse que já não era de hoje que vinha desconfiando do meu desequilíbrio. Sem gastar muito tempo pensando naquela reação explosiva, cantei bem alto: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta!”.

© Crônica coletiva

Ideologia

E agora o quê? Que sombra ideológica é essa em que nos metemos? Choro com o grito de Cazuza: As ilusões estão todas perdidas…

Tomei partido da possibilidade de mudança nas ruas das Diretas Já. Jovem, me embriaguei demais. Mergulhei no sonho coletivo. Acreditei em promessas de heróis de cara pintada que proclamavam caçar bandidos. Me deixei levar alucinada pelo mundo imaginário das histórias em quadrinhos.

Fazer o que agora?

Assistir de pé aos meus heróis se suicidarem pela vaidade. Assistir a minha ideologia ser enterrada na vala comum do cemitério da propina. Nem em mais uma década seremos capazes de solidificar essa faxina. Até o novo grito das ruas de julho de 2013 também foi maquiavelizado. As forças da Praça dos Três Poderes são ardilosas e resistentes. Bloqueiam, filtram e ajustam sempre tudo. O lava-a-jato da corrupção tem mangueira fina, curta e alvo previsto.

É assim hoje. E depois como será?

Não tenho resposta. Resta para mim o tempo. Tempo implacável, que não me permite simplesmente recomeçar. Chego a pensar em me dopar até que tudo isso passe. Usar drogas tarja preta para dar um alívio na minha consciência, que não me deixa em paz. Fico o tempo todo me perguntando: “E agora, de que lado você está? Decida!”. O grito urge dentro de mim, mas não saio do lugar. Queria mudar o mundo, mas o mundo muda quem não sabe o que quer mudar.

Por sorte nasci mulher, estou acostumada a lidar com a luta, o “não”, o possível dentro do impossível. E a isso me agarro nas horas em que me perco. Leio, ouço e dialogo, procurando resgatar a ponderação e confiando na experiência adquirida para concluir: nem tudo é (foi) ficção, nem tudo é (foi) realidade.

Nem todos são só mocinhos, nem todos são só bandidos. O tempo pede urgência, a emboscada pede calma. O que mesmo eu queria mudar? Outra época, outro fôlego, outro ideal. Olho e já não enxergo os sonhos perdidos nos caminhos que escolhi, que deixei que escolhessem por mim. Preciso achar nas prateleiras da minha alma um livro em branco, sem ao menos um “era uma vez” e com um “foram muitas vezes”.

O ciclo, a rotina, a repetição, e o nada muda. Esqueço posicionamentos, manifestos, bravatas, manifestações, insinuações, teorias, guerras e debates.

E agora o quê?

Fica o dito pelo não dito. Mudo de compositor, e aproveito e mudo o ritmo, o colorido tonal, e solto a voz nas estradas. Não, não paro mais por nenhuma ideologia.

© Crônica coletiva


Este texto foi inspirado na canção “Ideologia”, escrita por Cazuza em 1988. Ele faz parte de um conjunto de 12 crônicas escritas coletivamente, sendo seis a partir de canções de Cazuza e seis a partir de canções de Caetano Veloso. Vamos publicá-las ao longo dos próximos meses.

Hóspedes

Primeiro a vassoura, que faz o pó subir, depois o pano umedecido com um produto cheiroso para recolher o que os pelos não conseguiram agarrar, e para finalizar o pano de pó. Detesto e adoro essa rotina. A casa é uma maldição eterna, mal acaba de ser limpa e já se entrega novamente a cabelos, células, migalhas, marcas de pé. Mas a casa também é uma benção, refúgio, porto seguro.

Enquanto a casa vai ficando limpa e organizada, meu coração também se organiza. Eles devem chegar a qualquer momento e quero causar boa impressão desde o primeiro olhar. Não recebo hóspedes há muito tempo. Era uma coisa que fazíamos juntos, olhar a casa com os olhos de quem chega, preparar o quarto com lençóis claros, um vaso de flores na mesinha de cabeceira, vários cabides iguais pendurados no armário vazio, esperando roupas e jeitos dos visitantes. Oferecer a casa para estranhos… Nós, que sempre tivemos tanto cuidado com ela, lugar de expor nossas memórias mais queridas, preenchida com muitas conversas e risadas, nossa intimidade.

Ouvi um carro parar à porta. Chegaram. Difícil não ficar ansiosa, conheço esse frio na barriga: vou gostar deles? Mais importante: vão gostar de mim?

Abrindo a porta, me adiantei: – Fizeram boa viagem?

Um  sorriso radiante me trouxe todo o conforto que precisava no coração. Mas, intrigada, pensei: “Por que cinco malas? Será que entendi errado, não vieram apenas passar o feriado? Devia fazer alguma brincadeira e conseguir logo mais informações?”.

– Entrem! Espero que se sintam em casa. Preparei um bolo de fubá com erva doce, fresquinho, e o café que já sei que adoram.

Sempre uso a tática de ir para a cozinha quando percebo meus olhos indo de um lado para o outro, tentando acompanhar meus pensamentos. E enquanto servia o café me surpreendi animada com os convidados: “Como será a vida de cada um deles?”.

Se ficassem tempo suficiente para usar tudo que trouxeram, faríamos jantares animados, conversaríamos amenidades, seriedades, curiosidades. Íamos rir de tudo, regados a vinho branco. Descobriríamos juntos novas receitas. Dividiríamos nossos gostos musicais, dançando animados no meio da sala num sábado qualquer…

Seria bom, preencheria esse vazio que você deixou. Haveria mais cabelos espalhados pelo chão, células, de novo marcas de pés. E novamente porta-retratos pela casa.

© Crônica coletiva

A derrota das mulheres ou as vítimas propícias

Serão 366 dias. Ano bissexto. Surge uma ponta de esperança que me deixa intrigada. Qual o real motivo para tal? O que fazer com um dia a mais? Será um dia para celebrar nas férias ou para trabalhar?

Os dias são sempre especiais. Lembro-me bem do dia em que tirei meu segundo passaporte. O primeiro, era muito nova, fui só de acompanhante. Na época, não podia sorrir na foto, saí com cara de indigestão e com um corte de cabelo de gosto duvidoso.
O terceiro passaporte foi muito especial. Foi lá que carimbei minha primeira viagem sozinha. Frio na barriga e o mundo inteiro para explorar. Descobri que mulher sozinha quando viaja atrai olhares, curiosidade e incômodo. Deve ser a cultura diferente, pensei.

Mas não.

Meu último passaporte, em que já podia sorrir, me trouxe histórias, amadurecimento, muitos amigos, liberdade e a difícil realidade: mulher sozinha é sinal de que tem algo errado, e me remete a outra foto, que estampa os sorrisos de Maria José Coni e de Marina Menegazzo, as turistas argentinas violentadas e assassinadas no Equador, em fevereiro de 2016.

Como assim? Duas mulheres viajando sozinhas? Claro que são vítimas propícias, como argumentou o psiquiatra Hugo Narietán, que as definiu como mulheres que assumem “um alto risco e, de alguma maneira, formam parte do que movimenta o crime”.

Não se discutem os algozes. Discutem-se as impropriedades das mochileiras, limitando as mulheres a ficarem confinadas em espaços privados por segurança. Mas há segurança? Enquanto houver machismo e misoginia não haverá lugares seguros.

Nem a história nos permite segurança. Sister Rosetta Thaper, mulher negra e uma das pioneiras do rock, foi banida dos grupo de grandes nomes que construíram esse ritmo. 

O feminismo foi um filho indesejado até mesmo pela Revolução Francesa: igualdade, fraternidade e liberdade para todos, desde que não se incluam as mulheres. A verdadeira fundadora do movimento feminista, a escritora Mary Wollstonecraft, em resposta à “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, lançou o primeiro grande questionamento sobre os gêneros no livro “Reivindicação dos Direitos das Mulheres”. Somente agora será editado no Brasil. 

Há muitos nomes a serem citados, porque na história predomina o silêncio das mulheres e sobre elas. Não cabe relacioná-los aqui, então vou esquecer e escutar uma ópera, e me perguntar a quem interessava punir a cortesã saliente, a cigana libertária ou a gueixa que não ouve os conselhos do tio. Ópera ou a derrota das mulheres, como bem escreveu Catherine Clément. 

Ainda viveremos muito tempo sem respostas. É melhor dormir e sonhar com a foto do meu primeiro passaporte.

© Crônica coletiva

A viagem do Carnaval

Acho incrível como o brasileiro, e muitos gringos, são tomados por uma felicidade extrema na época do Carnaval. Festas pré, durante e pós-carnaval são frequentadas por frenéticos fantasiados, normalmente embalados por vodka, cerveja, beijo na boca e afins.

Antes era só Rio de Janeiro e Salvador. Agora São Paulo entrou com força total no circuito carnavalesco, e seus blocos de rua já são quase tão famosos como os cariocas.

Já passei por carnavais no Rio e em Olinda. Do Rio nunca vou esquecer, a onda de sensualidade da Banda de Ipanema, quase um ato cívico tal o fervor e o envolvimento de todo mundo pulando alegre. E dos gringos tentando sambar com um balanço quase patológico, sem graça e engraçado. Em Olinda eu não dancei, fui dançada, tal a densidade demográfica daquela noite. Uma atmosfera, digamos, perfumada.

Mas o melhor Carnaval eu ainda não contei.

Há uns dois anos estava me preparando para ficar em casa durante a festa de Momo e colocar em dia algumas tarefas domésticas. Foi quando uma amiga me chamou no celular com uma proposta nada carnavalesca: “Vamos pra minha cidade, é inauguração do bar de uns amigos. Só rock. Vai ser o oposto de Carnaval. Só música dançável, e nada de confete.”

Confesso que topei na hora, estava meio cansada dessa alegria forçada e Carnaval que dura uma semana. Quem aguenta tanta pulação e cerveja e beijo em bocas desconhecidas?

Mas logo em seguida bateu aquela desconfiança de gato escaldado de outros carnavais: e se for um estilo “toca Raul?”. Sabe como é cidade do interior. Bem, se for o caso, sugiro Rolling Stones, e duvido que alguém vá descartar a escolha.

Vamos nessa. A proposta de partir para “neverland” em épocas de Carnaval me fascinou mais que a preocupação de qualquer rock para quebrar meu encanto.

Cheguei na tal cidade com o coração aberto. Nenhuma crítica, nenhuma palavra. Apenas os olhos atentos para evitar uma surpresa desagradável. Esforço vão. Tudo conspirava contra mim. De cara alguns acordes dissonantes me congelaram, um cenário que parecia coisa saída dos filmes de Tim Burton. Lembro que não se avistava nenhum ser humano.

Minha amiga estava feliz no banco do motorista. Nem parecia estranhar a calmaria e a pouca iluminação das ruas. Onde estavam as pessoas àquela hora da noite?

De repente, escutei sinos a badalar. E fomos logo envolvidas por uma multidão em procissão em pleno Carnaval, trazendo velas nas mãos. O padre abria o séquito e tivemos que parar o carro. Que cena! Realmente, estava bem longe da pegação da folia.

– “Nossa senhora nos proteja”, cantavam os fiéis.

Ok! Estava disposta a ter um Carnaval diferente, então aquela festa religiosa já era um pouco demais. Minha amiga me olhava de canto de olho, com um sorriso nervoso, percebendo que minha cor estava mudando. Sim, estava ficando com raiva, muita raiva. Respirei fundo, tentei pegar por osmose um pouco da religiosidade que estava ao meu redor e soltei:

– Mas que merda é essa??!!

Ela, obviamente, não sabia, e corremos a procurar os amigos roqueiros para tentar salvar os próximos dias.

Chegamos ao sítio deles a poucos quilômetros do centro. Paramos o carro e, ao descer, não sei ao certo descrever o que senti. Vamos ver se me lembro: havia uma nave espacial construída com pedaços de metal no meio do gramado, doze pessoas a cercavam entoando mantras ininteligíveis, enquanto o líder do grupo tentava evocar extraterrestres. Os participantes estavam nus, cantando, cantando, enquanto o mentor tentava explicar para as forças do além que eles estavam ali de corpo aberto para fazer contato. Fumavam todos o mesmo cachimbo.

Fumavam, cantavam, conversavam com o além. Nada de extraterrestres. Pelo menos para mim. Resolvi encarar a parte do cachimbo. Fumei, cantei, fumei de novo, cantei mais alto. Acabei conhecendo um extraterrestre incrível. Ele vestiu a roupa, pegou na minha mão, e fomos curtir o Carnaval em Marte.

© Crônicas coletivas

Nunca tive medo de nada

Nunca tive medo de nada. Quer dizer, de quase nada. O único que tenho sempre resolvi na base da evitação. É inadmissível que um sujeito como eu, com um metro e noventa de altura e cento e cinco quilos de músculos, possa ter esse ponto fraco. Faço academia, pratico surf, corro maratona, sou macho pacas, mas o tal medo me dá medo.

De hoje não escapo. Só faltam uns centímetros, um mísero espaço para vencer a barreira e me livrar dessa fantasia absurda, que me acompanha desde criança. Ouço o chamado para romper o limite. Um misto de fascínio e pavor toma conta de mim. Começo a suar, tremer e temer pela minha sorte no futuro próximo.

A voz suave é substituída por outra estridente e severa. Gritam meu nome no alto-falante. Minha noiva já entrou e disse que, se eu não embarcar, joga a aliança no vaso da aeronave e desce livre em Paris. Chantagista.

Etapa vencida, nada muda dentro de mim. Lúcia puxa conversa. Respondo como sempre, lacônico. O jantar é servido. Encaro aquelas caixinhas na bandeja e meu estômago, companheiro do cérebro, se agita em movimentos peristálticos. O olho pisca como luz de farol no oceano. Não tenho mais controle sobre os movimentos das pernas e dos braços. Faço barulho com a boca, em um frenético vai e vem da mandíbula. Abro e fecho minhas mãos e estico todos os dedos. Depois, massageio-os um a um.

Quantas horas faltam? Vejo o filme, leio um livro, arrisco um sono. Charles de Gaulle à vista. Levanto e pego as bagagens. Arrumo o cabelo e as roupas amassadas. Suspiro lentamente. Minhas pernas começam a tremer, e me preparo para a segunda rodada. Haja força!

Depois de muitos anos enfrentando um pesadelo recorrente, vou me ver frente a frente com a Dama de Ferro! Adiei o máximo que pude. Evitei essa viagem durante o primeiro casamento, para frustração da Lívia, que queria tanto conhecer Paris. Já a Lúcia me pegou de jeito, aproveitando que estou perdidamente apaixonado.

Mas que medo é esse que uma torre causa em mim? Por que sempre me vejo saltando do último andar num voo desgovernado, sem chegar ao solo? Quando era criança, tio Alberto, eterno viajante, tinha na parede do escritório uma sequência de fotos da construção da “grande senhora”. Olhava e pensava em todos os homens que subiram corajosamente na estrutura gigantesca por alguns centavos. E ficava horrorizado, me lembrando dos miseráveis de livros como Oliver Twist, trabalhando de sol a sol.

Na mesma parede havia a foto de Santos Dumont no balão nº 5, contornando a torre. O retrato me tirava o fôlego. E meu tio, incansável, repetia a história das pessoas em Paris ovacionando e acompanhando o feito lá do alto.

Pensando bem, imaginar esse momento ainda me emociona. Talvez essa lembrança seja uma saída para que eu possa embarcar no sonho romântico da Lúcia. Que venha a imagem do próprio Santos Dumont dando voltas sobre a Dama e sobre mim!

Antes da viagem, um amigo zen havia sugerido uma forma de me livrar do pavor incrustado: concentrar toda a energia negativa em um único objeto, e decretar seu fim de forma irrecuperável, com muita fé. Gostei da ideia. Seria uma alternativa para o caso de o devaneio me trair lá no alto.

E finalmente aqui estou, depois de subir, sabe-se lá como, de bermudas, camisa florida, óculos escuros e máquina fotográfica com teleobjetiva pendurada no pescoço. Como poderia um ser da minha envergadura passar despercebido? Lá do alto do mundo olho fixo para um ponto distante no céu, aponto com o braço esquerdo e digo, com um sotaque californiano: ”Flying saucers, flying saucers!”.

Enquanto a turma toda de turistas se vira para ver o que é, num átimo jogo o aviãozinho de papel que trouxe escondido. Meu 14 Bis particular, meu avatar, se distancia suavemente, a flanar sobre Paris. Nem dou bola para o beliscão da Lúcia. Só quero olhar para ele indo embora de forma lenta e elegante. Avisto até quanto minha acuidade permite.

Se alguém o encontrar e tiver a curiosidade de desdobrar o papel, lerá num francês improvisado: “Meu medo voou junto, estou curado.”

© Crônica coletiva

O crime do Houaiss

Um barulho no quarto ao lado me acordou de madrugada. Será que a crônica que tenho que entregar caiu da biblioteca e se estatelou no chão? Nada disso. Eram muitas as partes espalhadas, mas não eram letras. Eram cacos de um pequeno pote de cristal que escorregou da prateleira, empurrado pelo Houaiss.

Muito estranho isso, porque esses dois assuntos têm me perturbado ao longo do dia. A crônica inacabada – de certo estava sonhando com ela – e um dos tantos objetos que parecem se multiplicar pela casa a cada dia que passa. Só pode ser algum tipo de aviso das estranhas forças noturnas e do universo paralelo em que vivem os objetos quando não estamos olhando para eles. Será? “O nobre dicionário, fonte das palavras e seus significados, empurra da estante um pequeno pote de cristal inútil.” Parece chamada de página policial. Praticamente um duelo. Ou seria um assassinato? Sigo pensando nos motivos. Por que um dicionário teria assassinado um vaso de cristal inofensivo? Até entenderia se a vítima fosse o Google.

Não sou a favor de justiça com as próprias mãos, mas sempre me colocam no lugar do outro e, convenhamos, não gostaria de ser um Houaiss num mundo como o de hoje, onde basta um enter depois de uma ou duas palavras-chave digitadas num site de buscas e, como num passe de mágica, em um segundo aparecem na tela as descrições, em ordem de importância, com tantos megapixels quanto meu olhar necessita e deseja. Francamente, quem hoje procuraria o Houaiss na estante, folhearia suas páginas amareladas e, entre todas aquelas palavras escritas em letras minúsculas se contentaria em achar não mais do que três linhas com sinônimos e significados enxutos? Definitivamente nosso dicionário tem razões de sobra para estar chateado. Mas, descontar num pote de cristal?

Acendo a luz da cozinha chateada por acordar fora de hora e decido fazer um chá antes de arrumar a bagunça. Sento com a xícara entre as mãos e meus pensamentos me levam para o tempo gasto para se lapidar um cristal, o calor incandescente, as tantas etapas para se chegar a um formato que agrade ao artesão e o olhar impiedoso do pessoal do controle de qualidade, que pode levar uma peça com um defeitinho mínimo para o lixo em pedaços. Acabo achando parecido com escrever. Pelo menos para mim. Lá estou com a crônica inacabada se enfiando no meio dos meus pensamentos. Mas, pera aí, se tudo cabe nela, então já tenho o meu mote!

De volta à sala com uma vassoura, cato todos cacos, que me dão trabalho de tão miúdos. Vai que me corto pisando num desses vidrinhos se deixar a tarefa para mais tarde, estabanada do jeito que sou. Plaft! Ui, ai, ui! O Houaiss agora caiu no meu pé. Na calada da noite, este dicionário se transformou numa arma perigosa.

Pensando bem, o Houaiss acaba de selar seu próprio destino, terá sua última chance. Assim aproveito para usar um dos tantos objetos esquecidos pela casa. Vou tirá-lo da estante e deixá-lo por perto… seu novo destino será a escrivaninha ao lado do computador. E tirando o pó das páginas, deixo-o pronto para experimentar um duelo direto com seu inimigo real, o Google. E lhe darei três balas. Na terceira, se morrer, rua.

© Crônica coletiva

Começo de ano

Começo de ano é brabo: junta preguiça acumulada das férias – curtas demais, caras demais, com gente demais – e as incertezas costumeiras. Por isso a cada virada tenho menos vontade de grandes comemorações e preferido a quietude, com gente que amo, usufruindo da maneira mais simples, e ainda assim profunda, de uma sensação de paz. E nada mais.

Um amigo me disse que os anos vêm passando cada vez mais depressa porque depois dos 40 já temos uma grande experiência em contar 365 dias, daí que fazemos isso quase sem pensar no que vamos vivendo, ou melhor, sem viver plenamente tudo que podemos.

Pensando nisso começo agora esta crônica alinhavando algumas formas eficazes de viver VIVENDO, e não apenas contando os dias no novo calendário que acabei de pregar na parede.

Vejamos, a primeira coisa que vou fazer é me exercitar. Eu devia ter ouvido quando minha mãe dizia que eu não teria o corpinho de vinte anos para sempre. Se bem… Se bem… Agora já estou assentada. Não preciso de cinturinha fina para seduzir mais ninguém. Vou apenas fazer uma caminhada todo dia. Isso mesmo. No parque. Onde tem árvores e o ar gostoso de respirar.

Vou me encontrar com os amigos, mostrar-lhes o quão importante são na minha vida. Na minha lista da vida vivida acrescentarei isso. Darei ao menos um jantar por mês em minha casa. Ou quem sabe um almoço? Certamente será bom ter a casa cheia novamente, ainda mais de pessoas queridas.

Rabisco todos os meus planos num post-it amarelo grande. Vou colá-lo à geladeira quando terminar. Pensando bem, vou mantê-lo comigo, sempre à mão. Assim posso ir riscando as coisas que fiz e, desta maneira, aproveitar a vida ao máximo. Parece uma boa ideia. Não muito original, é verdade – todos usam o começo do ano como desculpa para montar suas resoluções –, mas boa. Além do mais, serei diferente. Estou comprometida com respirar o ar mais puro, beber da água mais doce, gritar do monte mais alto… Tudo com moderação, obviamente. Quero viver. E para isso é preciso estar bem viva. Afinal de contas, não foi só a aparência que mudou com o passar dos anos.

Onde estava mesmo?…

Vou fazer um checkup! Vai ser bom ver que está tudo em ordem. Mas… e se não estiver? Acho que checkup não é boa ideia. Vou ao menos cuidar da gastrite que resolveu dar as caras. Sem molho de tomate, queijo, doces, frituras, chocolate, álcool. Se bem que acho que não dou conta de tirar o chocolate e o vinho. Ah, não, vou tomar os remédios para aliviar o desconforto por mais um tempo e depois penso na dieta.

Vou poupar dinheiro. Decididamente serei mais econômica e só comprarei o estritamente necessário. Preciso pensar no bolso, além do que as roupas são de materiais derivados do petróleo e fazem um mal danado ao meio ambiente. É isso, vou ser ecologicamente correta e não vou comprar mais nada. Vou usar o que já tenho, reciclar, remodelar. Apesar de que agora em janeiro tudo vai estar em liquidação… Hum, aquela bolsa azul, a calça de seda, o vestido longo, tudo pela metade do preço! Pensando bem, o meio ambiente não vai ficar tão pior se eu aproveitar só mais essa semaninha de preços baixos. Sim, vamos deixar essa resolução para depois do carnaval…

Serei mais pontual. Neste novo ano não vou chegar mais atrasada ao trabalho, à aula, aos encontros. Decidirei a roupa que vou usar no dia anterior, e não vou ficar trocando mil vezes até vestir aquela primeira que tinha escolhido logo ao sair do banho. Chega de indecisões.

Vou comer só produtos orgânicos, vou diminuir o consumo de sal. Vou tirar o glúten e a lactose, mesmo sem precisar. Tá na moda! Moda, moda, moda, ai, preciso ir ao shopping aproveitar as liquidações….

Opa, onde eu estava? Ah, sim…

Vou agarrar meu futuro, fazer do meu jeito, me aceitar como eu sou, jogar fora as folhas do calendário com os meses que ficarem para trás, parar de contar os dias e contar as conquistas, enfim, VIVER cada minuto, amém.

© Crônica coletiva

O sonho do Natal branco

Todo final de ano temos a sensação de que o mundo vai acabar se não atravessarmos a chegada do 13º, compras no shopping, congestionamentos ou a rota de fuga preferida do turista adicto: o aeroporto. A sensação de que esse pacote de acontecimentos faz a diferença nos deixa mais plenos e reconfortados.

Eu escolhi a rota de fuga, e pela primeira vez pisei no novo terminal do maior aeroporto do país: Terminal 3 – Guarulhos. Arquitetura moderna e estonteante, mas nada de assentos. Então relaxo e resolvo dar uma caminhada para conhecer o local, já que escolheram por mim que sentar-se é coisa para ser feita lá no avião.

Passo por alguns cafés de bandeiras conhecidas, guichês e mais guichês de companhias aéreas internacionais, e de repente ao fundo vejo um assento vazio, entre dois viajantes, e escondido por muitas malas.

Finalmente acomodada, pego a minha água com gás e vou direto à questão: “tudo novo, muito bonito, mas mal dá para sentar e relaxar”.

Digo isso para a senhora do meu lado esquerdo, que me pergunta: “Você também está em trânsito?”. E emenda: “Eu estou morta. Venho de Rio Branco, já passei por Brasília, e agora aqui em São Paulo espero o avião para Nova York. Vou visitar minha filha, mas nunca fui no Natal! Dizem que a decoração da cidade é um sonho”.

Rapidamente tento calcular as horas de vôo e aeroporto que essa cidadã levou atravessando o país, e as horas que ainda irá levar. Desacreditando, confirmo: “Rio Branco, Acre?”. “Sim, isso mesmo”. E eu preocupada com assento até então. Meu Deus!

Nesse momento a viajante sentada do meu lado direito entra no papo. “Nooosaaaaa, é longe, hein! Eu também estou em trânsito. Sou de Londrina e vou passar o Natal em Roma. Já tem neve por lá…”

Sempre gostei do frio. Casacos, tocas, botas, cachecóis. O frio sempre me remete a boas memórias, uma justamente da Itália: Natal na cidade da nona, Montalcino. Meus primos e tios também estavam lá, naquela cidadezinha bucólica e gelada, para um verdadeiro banquete: peixes de todo tipo, crustáceos, bacalhau, ravioli, tortelli di zucca, risotti e peru recheado. Sopas fantásticas, para a vigília, e doces como zuppainglese, marzipã, torta de amêndoas, e mais castanhas, nozes. Tudo regado a licores, vinhos, espumante e champagne. Um presépio suntuoso, a árvore de Natal repleta de presentes que só pudemos abrir depois da ceia.

Até hoje na família a comilança se repete, mas já sem presépio, sem primos correndo em volta da mesa, sem o encanto da espera pelo Papai Noel.

É possível viver de lembranças, mas hoje tenho verdadeiro fascínio pelo novo, pelo inesperado. Tradição familiar é muito bom, mas a vida me chamou para este lado mais forte em mim que é a aventura. As pessoas sonham com um Natal de neve enfeitando as árvores, fazem disso um roteiro de férias, uma viagem inesquecível… compreendo bem esse jeito de ver as coisas. Mas hoje sou comprometida com outra missão.

De certa forma, assim como eu, minhas companheiras de espera neste aeroporto também se dispõem a viver uma aventura: deixar para trás sua terra natal em busca de alguma coisa que as complete, seja reencontrar um membro da família, ou experimentar um inverno rigoroso que pede luvas e cachecóis quentinhos. Eu não viajo por alguém, mas por uma causa, pela quebra do paradigma de que um ciclo se acaba a cada final do ano, e eu possa sempre recomeçar.

© Crônica coletiva

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