Bentinho revisitado

Se conheceram na vila onde moravam. Ele tinha 10 anos, Helena tinha 9, mas sempre o alcançava pois fazia aniversário em setembro. Brincavam juntos na rua com outras crianças: pega-pega, esconde-esconde, gato mia, estátua. Vez ou outra montavam peças de teatro, das mais variadas, desde o nascimento de Jesus, papel sempre reservado ao Zé Bento por causa do jeito sério, até a Turma da Mônica, com coreografia ensaiada. Quando chegaram na adolescência ainda viviam juntos, e agora até estudavam na mesma escola, pela primeira vez na mesma sala. Faziam as tarefas logo depois do almoço – para acabarem cedo e se juntarem ao resto da turma em tardes de conversas na casa do Tuco, um garoto que gostava de fazer graça e só podia tomar sol com uma camada grossa de protetor solar, de tão branco que era.

Helena nunca foi boa aluna e sempre recorria a aulas particulares com o Zé, que tinha as melhores notas da sala. Foram muitas tardes de revisões de Física, Química e Matemática. Helena gostava mesmo era de Literatura. Lia romances com final feliz, e adorava inventar histórias de amor onde ela era a protagonista. Já Zé Bento ouvia as histórias e desejava ser o par de Helena, um sonho que ele mantinha em segredo.

Chegando a época do vestibular, o Zé se inscreveu para o curso de Engenharia em meia dúzia de faculdades públicas do Estado. Helena ainda estava na dúvida entre Letras, Artes e Psicologia. Resolveu se inscrever em tudo, em várias universidades da cidade. O Tuco andava envolvido com teatro comunitário e namorava uma americana muito louca que tinha vindo num intercâmbio diretamente de Los Angeles, e decidiu estudar Artes Cênicas, para ser um comediante de stand up no estilo Seinfeld, seriado que assistia com o pai todos os dias. Depois das provas, muita tensão e ansiedade, e vieram as notas. Helena foi aprovada em Psicologia numa faculdade no centro e em Artes na mesma faculdade em que o Tuco ia cursar Teatro. O Zé passou em todas que prestou.

Organizaram uma festa na vila para comemorar a nova fase, e nem se deram conta de que dali pra frente era cada um por si, tendo que tomar decisões importantes sem contar com os amigos que conheciam uma vida toda. Bebidas e risadas, e entre umas e outras o beijo de Zé Bento e Helena finalmente aconteceu, depois de tantos anos juntos, e outro, e mais outro. E assim desabrochou a história de amor entre os dois.

As aulas começaram. O Zé foi morar numa república no interior, onde era a faculdade de Engenharia. Passava a semana fora de São Paulo e ansiava pelas sextas-feiras, quando tomava o ônibus e depois de três horas de viagem estava nos braços de Helena, que acabou escolhendo a faculdade de Artes e pegava carona com o Tuco todos os dias. Nos finais de semana ainda faziam programas com a mesma turma da vila, todos juntos, como antigamente. Nem sempre concordavam sobre o programa escolhido, o Zé queria mais tempo a sós com Helena, mas o sentimento bom de estarem todos juntos, em geral rindo de alguma coisa dita pelo Tuco, aliviava um pouco a pressão de serem agora cobrados por atitudes mais maduras.

Os tempos leves foram passando. Após dois anos o namoro do Zé e Helena engrenou, e eles se sentiam felizes, faziam planos. Ele arrumou um estágio numa estatal no Rio de Janeiro e ia passar os dois meses das férias de final de ano numa plataforma de petróleo. Antes de partir, pediu Helena em casamento. Anel de brilhantes, promessas de amor eterno, de uma família, de uma vida linda. Ela disse sim. Ele foi para o Rio, ela para Porto Seguro com os amigos da vila: a Robertinha, o Salga, a Martina e o Tuco. Foram passar o mês de janeiro sob o sol da Bahia. A viagem foi divertida, Helena disfarçou a saudade de Zé Bento deixando as coisas rolarem, fazendo uma espécie de despedida de solteira à base de muita caipirinha e axé. Tuco era companhia constante, e a fazia dar muitas risadas…

Era uma terça-feira, começo de março. O Zé acabara de chegar em casa quando o telefone tocou. Atendeu. Era Helena. Como era bom ouvir sua voz, que dessa vez estava trêmula. Ouviu atentamente. Ficou uns segundos paralisado, num misto de sentimentos. “Não, meu amor, é uma ótima notícia! Tão feliz por nós! Seremos uma família linda! Estaremos juntos, e esse bebê vem para deixar a gente mais próximo!”

Casaram-se às pressas, numa cerimônia simples, com um almoço na vila oferecido pelos amigos. Estavam todos lá, menos o Tuco, que tinha uma apresentação do grupo de teatro lá no Sul, marcada de última hora. Logo o bebê nasceu, um pouco antes do previsto. Era um menininho lindo, gorducho, bem rosadinho. Não se parecia muito com nenhum dos dois, mas os bebês às vezes são assim. O importante é que o Joca era saudável! Um nenezinho encantador e muito tranquilo.

Zé Bento transferiu a faculdade para São Paulo, alugaram uma casa no mesmo bairro que cresceram. Helena parou o curso de Artes e se dedicava exclusivamente ao papel de mãe. O tempo passava. O Zé trabalhava o dia todo, Helena deixava o Joca na escolinha e ia para a vila passar o dia ajudando sua mãe com uns artesanatos que ela vendia. A vizinhança da vila já não era mais a mesma. Cada um dos amigos seguiu um destino. A Robertinha casou-se com um húngaro e foi morar na Suíça. O Salga tinha tomado o caminho das drogas na época que cursava Medicina e estava internado numa clínica de reabilitação em Cotia. A Martina namorava há anos uma bióloga, a Carol, e estava sempre em algum canto do mundo fotografando bichos. O Tuco se mudara definitivamente para Los Angeles, onde havia sido introduzido numa vida muito louca de sexo, drogas e rock and roll. Mas tinha um relativo sucesso como comediante, aproveitando o sotaque esquisito que diziam que parecia italiano, espanhol ou libanês, ninguém conseguia decifrar. Ele ficava meio puto, porque achava que os americanos ignoravam o Brasil de propósito. Tinha até criado uma rotina em que entrava em cena vestido de Carmem Miranda.

No aniversário de 10 anos do Joca, organizaram uma viagem em família. Zé Bento tirou férias e foram passar uma semana num resort, em Porto Seguro. Helena nunca mais estivera no sul da Bahia, mas não havia um só dia em que não pensasse naquele lugar. O Joca era o queridinho da pousada, e divertia a todos com suas tiradas, a pele bem rosa, típica de paulistano, começando a ficar bronzeada do sol, pela primeira vez amorenada como a do pai.

Voltaram para São Paulo. Uma semana antes das aulas começarem o Joca acordou de madrugada com uma febre muito alta, gritando de dor ao fazer xixi. A mãe deu analgésico e voltaram para a cama. O menino seguiu com febre e dores pelo corpo. Foram ao pronto-socorro, fizeram vários exames e constataram uma infecção. Sete dias de antibiótico e o quadro só piorava. Voltaram ao hospital e o plantonista achou melhor internar o garoto para exames mais detalhados. Helena ficava o dia todo no hospital, enquanto o Zé trabalhava, e o Zé ficava a noite toda ao lado do menino, enquanto Helena ia para casa descansar. Passaram-se dias e nada do Joca melhorar. Não conseguiam saber o que causava a infecção que não cessava.

Era sexta-feira. O telefone tocou e o Zé pediu licença da reunião em que estava para atender. Era Helena. Os anos se passaram e ele ainda sentia felicidade ao ouvir a voz dela do outro lado da linha. Estava chorosa: “O médico tem o diagnóstico. Os rins do Joca pararam de funcionar e estão falando em transplante. Você pode vir agora pra cá?”.

Os trinta minutos até o hospital pareceram uma eternidade. Terríveis fantasias sobre a doença do filho – perdê-lo jamais –, daria a vida por ele. Pensava em como seria a cirurgia para tirar seu rim e transplantá-lo no filho. Será que poderia ser feita naquele dia mesmo? Será que um rim seria suficiente? Lembrou-se do dia do nascimento do menino. Estivera tão ansioso, foram tantos meses para ver a carinha dele, e o garoto crescia bonito e simpático como a mãe. O Zé era um cara sério, de poucos amigos, um pouco carrancudo até. O Joca era engraçado, sociável. Mas agora finalmente ele teria algo do pai. Algo mais importante que a aparência. Algo que salvaria sua vida.

Chegou no hospital e encontrou Helena sentada ao lado da cama do filho. O garoto seguia num coma induzido. Dormia profundamente. Helena contou do diagnóstico e sobre a importância do transplante imediato. “Os doadores mais compatíveis podem ser irmãos, pai e mãe”, disse Helena com um fio de voz, parecia que tinha um nó fechando a garganta. O Zé abraçou a amada: “Fique tranquila, meu amor. Eu tenho muita saúde, posso viver bem com um rim só, e logo nosso filho vai ficar bem, curado e feliz. Vou conversar com o médico, fazemos a cirurgia o quanto antes.”

Helena se levantou e foi até a janela. Pensou nos dias passados ao lado dos amigos, e em especial num dia de sol quente e distante que mudara para sempre a sua vida. Olhou para o marido e, com a voz mais uma vez trêmula, disse: “Me desculpe, meu amor, pelo que vou fazer agora, espero que um dia possa me perdoar. Nunca deixei que soubesse, mas agora não há mais o que fazer. Já liguei para Los Angeles. O Tuco chega pela manhã.”

© Crônica coletiva

A peça

Depois de almoçar, Zeca Bastos resolveu ler sua correspondência na caixa de entrada. Estranhou o nome do remetente em uma mensagem e por precaução passou o antivírus. Nenhum problema encontrado. Leu cuidadosamente, linha por linha, pois se tratava de um convite irrecusável, sedutor, exclusivo para um seleto grupo de escolhidos. Bem característico dele, coçou os cabelos, agora já grisalhos, fez um muxoxo, franziu as sobrancelhas e concluiu que valia pena. Fazia tempo que não ia ao teatro, embora no convite não houvesse nenhuma informação sobre a direção, o elenco e o enredo, só havia a menção sobre a estreia. Mas, quem resistiria a um convite para uma peça encenada no teatro mais caro e mais badalado da cidade? Deu de ombros e intuiu que seria uma viagem surpresa.

No dia agendado, escolheu com parcimônia a roupa que vestiria e levou um choque ao chegar ao local e perceber que já estava lotado. Transitou entre os convidados e reconheceu celebridades, o que o fez inflar mais o peito. Percebeu os comentários murmurados daqueles que discutiam se seria um drama, uma comédia ou mesmo um musical. Alguns, arrogantes, diziam em voz alta que reconheceriam a obra mal iniciasse o primeiro ato, outros, em seus celulares, estavam ávidos por alguma informação. Zeca imprimiu em sua face aquele ar de “eu sei, mas não vou contar” e entrou na sala de espetáculos. Não gostou muito de suas companhias de poltrona porque não reconheceu ninguém do mainstream.

Três toques, apagaram-se as luzes, cortinas abertas. Silêncio na plateia.

No palco um cenário simples: uma poltrona ao fundo, um pufe e o personagem acomodado preguiçosamente, com os pés no apoio, olhos fechados, imóvel.
O primeiro minuto passou devagar, aumentando a expectativa, e nada se moveu, ninguém entrou, nenhum pio. O segundo minuto de ausência total de sinal de vida começou a inquietar, pessoas se mexendo nas cadeiras, cochichos em crescendo, vozes, risadas, palmas e pés batendo no chão. Zeca fazia bicos e bocas, e girava a cabeça para cá e para lá para simular indiferença.

Ao final do sofrido terceiro minuto já havia um grupo exaltado – “aqui ninguém é palhaço”, “onde já se viu” – até que entra todo o elenco de uma vez só, em bloco, correndo, assustados, com maquiagem inacabada e com figurinos incompletos em desalinho.

O ator mais veterano se dirigiu ao público e disse, sem fôlego: “Pessoal, ocorreu um imprevisto trágico, fomos assaltados e ficamos reféns de um bando que exigiu que o diretor fosse ao banco sacar o dinheiro da produção do espetáculo. Disseram que era vingança, não se sabe o porquê, ficamos presos nos camarins e o nosso diretor não voltou”.

Olhares aterrorizados da plateia. Bastos respirava fundo para manter a calma. Alguém desmaiou na fila “J” e algumas pessoas sentadas na “T” correram para ajudar. Só naquele momento uma atriz do elenco estranhou a pessoa recostada na poltrona ao fundo do palco. Caminhou lentamente em direção a ela e deu um berro agudo de terror, daqueles de filme, quando alguém encontra um cadáver. Todos os atores se voltaram e começaram a gritar ao mesmo tempo – “mataram o diretor”, “ele levou um tiro”, “meu Deus, quanto sangue” –, e o pânico entre eles fez a festa da plateia. Zeca Bastos estava pálido, e limpava nervosamente o canto dos olhos.

O ator veterano pediu calma, mas ninguém ouviu, o pandemônio dominava, ocorreram desmaios, a brigada de incêndio do teatro foi acionada. De repente a porta do teatro se abriu e entraram vinte policiais uniformizados, brutamontes, e o chefe deles, à paisana, com sua capa de detetive e uma insígnia na mão. Zeca pensou com seus botões: “onde foi que já vi essa cena? ”. O chefe gritou com voz de barítono: “Todo mundo calado. Ninguém entra, ninguém sai”.

Foi um tal de “você sabe com quem está falando? ”, “isso é um absurdo”, todo mundo em pé, abobado. A vontade de Bastos era de sumir dali, pois tudo no ar indicava perigo.

Enquanto isso, parte do elenco retirava o corpo do diretor e o levava para a coxia. “Não pode, é cena de crime, qualquer um sabe disso”, berrou bem alto o detetive, mas àquela altura tudo era desordem e irracionalidade.

Embaixo, entre os convidados, choro, risos histéricos, protestos e gritos, e em cima não era diferente. O veterano desistiu de conter a onda, atrizes se abraçavam com medo, atores andavam a esmo em monólogos tremidos. Um vizinho de poltrona do Zeca, além de pisar no pé dele, pegou sua echarpe para conter as lágrimas e limpar o nariz.

O delegado então deu um berro: “silêncio!”. E a galera calou, medrosa.

Foi quando todo o elenco começou a gargalhar, e também os policiais, o delegado, até o diretor, que voltou andando ao palco.

As pessoas se dividiram, parte começou a rir, parte ficou irada e xingava: “filhos de uma puta”. “Era uma experiência cênica, uma pegadona”, pensou Bastos, indignado. Foram convincentes, muito. Não era drama nem comédia, era uma farsa. Logo eu que domino a dramaturgia, como fui cair nessa?

Desconsolado, pegou no bolso interno do capote o convite. Devia ter desconfiado, nele estava o nome do grupo: Circo e Patifaria. Deu de ombros, vestiu o casaco, largou a echarpe surrada no chão, arrumou o cabelo desalinhado e sorriu abertamente, para pensarem que ele sabia de tudo desde sempre. Resignadamente, aceitou que fora assistir a uma peça e lhe pregaram outra.

© crônica coletiva

Palimpsesto

Este é um texto experimental.

Cada pessoa vai completar os espaços em branco, com sua própria criatividade, desde que obedeça aos espaçamentosdeterminados.

É um exercício que chamamos de palimpsesto, que originalmente significa papiro raspado para outra escrita se sobrepor.

Coisas de antigamente.


Este é um procedimento padrão.

Cada concorrente vai preencher os documentos em branco, com sua proposta finalizada, desde que devidamente conferidos e já carimbados. É um trabalho que chamamos de mal necessário, que originalmente obedecia a um ritual muito mais burocrático.

Coisas de antigamente.


Este é um desafio tragicômico.

Cada pessoa precisa preservar os espaços construídos com sua criatividade, e sem que obedeça a planos pessoais já determinados.

Este exercício raro e dolorido de vagar às cegas originalmente significa uma punição por pensamentos enlatados e premeditados.

Coisas de antigamente.


Este é um mural de vários artistas.

Cada grafiteiro vai desenhando os traços na tela em branco, com sua criatividade e técnica, desde que obedeça a todas as regras já regulamentadas.

É um campeonato que chamamos de rodada maluca, que originalmente, em Lesbos, ficou conhecido como pré-miscelânea artística.

Coisas de antigamente.


Este é um espaço sem preconceito.

Cada escritor vai articulando os pensamentos em branco, com sua ordem de perversidade, desde que descreva as famílias já regulamentadas.

É um campeonato que chamamos de “fuja da louca”, que revive mistérios de mulheres aristocratas paulistanas.

Coisas de antigamente.


Este é o começo do fim, acho eu.

Cada pessoa pede um tempo, sem os espaços para reinventar, com criatividade, pra que se indexem as fixas regras já determinadas.

Fazer exercício de paciência de esperar o outro originalmente significa tolerância e convívio social. Ai que saudade do por favor!

Coisas de antigamente.


Este é um portal para o passado.

Cada pessoa terá no pensamento os espaços por onde viveu a vida com criatividade, sem precisar que obedeça a alguns dos caminhos já determinados.

Fazer o exercício com visão e jeito de criança traz o que originalmente significa resgatar com leveza alguns momentos. Coisas que tiveram seu valor.

Coisas de antigamente.

© Crônicas coletivas 

Adocicando a reunião

Segundo o Houaiss, adocicar é tornar levemente doce, atenuar, abrandar. Era exatamente disso que o grupo reunido no quinto andar do edifício Margarida precisava. A anfitriã, uma senhora grisalha muito discreta em seus quase 65 anos tentava fazer sua parte. Como todos na sua idade que acreditam que sua experiência de vida serve para distrair um público tenso, ela passou a narrar histórias vividas sabe-se lá quando e com desfechos pretensamente hilários. Tudo fazia sentido, desde que a névoa do embate pairando no ar se dissipasse.

Um grupo de solenes desconhecidos, depois de alguns poucos encontros, topa um projeto de escrita coletiva e o mantém há dois anos. Um sexteto contradizendo a lógica, um bando de gente doida mansa, às vezes um time voluptuoso, outras vezes preguiçoso. Mas a química era generosa, acolhendo combinações imprevistas, saídas tangenciais, instabilidades de humor, tudo vivido com açúcar e com afeto (opa, lugar comum não pode).

Comportavam-se como toda família, um caos, um não deixando o outro terminar de falar. Não por intolerância, mas por amor. E onde tem amor todo mundo tem voz. Até que decidir a pizza foi fácil. Mas logo voltaram à pergunta de todos os encontros: – Quanto estamos comprometidos com este projeto?

Já fazia mais de três horas que a discussão seguia animada, as vozes podiam ser ouvidas em todos os andares. No apartamento acima, um famoso cantor não conseguia entender sobre o que falavam. Pensou em dar uma chegadinha para ver se era uma festa.

Beto, como era conhecido, desceu as escadas e durante alguns segundos ficou segurando uma xícara vazia nas mãos, pensando que, na falta de uma ideia melhor, ia pedir um pouco de açúcar.

Lá dentro três garrafas de vinho haviam sido esvaziadas pelos seis escritores, que já discutiam um novo projeto, quando a campainha foi acionada com um toque longo.

Quem estava na cadeira mais próxima da porta foi abrir. A surpresa foi geral quando aquela figura, em seu modelito “deixo tudo solto” e segurando uma xícara azul, disse: – Beto. Ao seu serviço. – E estendeu a mão desocupada para alguém apertar.

Entrou sem cerimônia e sem nem reparar na cara de espanto da anfitriã com tamanha intimidade. Mas invadir a festa daquela vizinha que nunca sequer olhara para ele no sobe e desce do elevador foi sua mais pura vingança.

Então ela, atrevida e provocativa, providenciou um fundo musical, e ao som do Rei da Lambada a pizza desceu dançando.

© Crônica coletiva

Do outro lado da linha

Nem sei há quanto tempo o telefone está tocando. Levanto da poltrona cambaleando e procuro apoio.

– Alô…

– Oi, vó, o que tá acontecendo? – Ouço uma voz de criança do outro lado.

A pergunta me pega de surpresa. O que estaria acontecendo? E onde? Sobre o que aquela menininha estaria falando, se eu não tenho nenhuma neta? Dou trela à conversa.

– Olá, minha pequena, acordada até agora?

– Estou preocupada com você. Não consigo dormir. Já contei todos os carneirinhos, como me ensinou.

– Que linda, quanto carinho!

– Sabe, vó, aqui em casa falam tudo pela metade…

– Eu sei como é.

– Eu não entendi direito, então não consigo dormir.

– Você sabe que é importante dormir na hora certa. Amanhã cedo tem escola. Fez as lições?

– Fiz, vó, mas eu quero saber como você está. Mamãe estava chorando e toda hora repetia seu nome. Papai andava de um lado pra outro e ficava chamando o Tio Sérgio sem parar. Nem pude assistir meu seriado favorito no celular dele. Vozinha…

– Diga, amada!

– Eu amo muito você… tô com saudade. A minha amiga, a Aninha, me disse assim: “Julia, você nunca mais vai ver sua vozinha e nem comer os bolinhos que ela faz”. Fiquei com muita raiva e puxei o cabelo dela, vó… e aí…

– Dona Brancaaa, dona Brancaaa… Com quem a senhora está ao telefone?

– Olha só, minha menina, agora vou ter que desligar, está bem? Chegou a… Ah, deixa pra lá! Venha me visitar, tá?

– Ô dona Branca, já disse várias vezes pra senhora não atender o telefone na minha ausência! Quem era? Com quem a senhora tava falando?

– Ai, Luzia, não me amole! Tô cansada dessa sua chatice. Não posso fazer nada sozinha, oras!

– E veja só isso, novamente a senhora nem tomou o seu chá com bolachinhas, Dona Branca.

Na mesinha ao lado da poltrona encontro o chá está gelado ao lado do pratinho com o lanche da noite. E no chão, cacos de vidro espalhados bem ao lado da bengala.

–  …e olhe só que dó, o retrato da sua família se quebrou todo no chão. Mas o que aconteceu?

– Eu não sei de que família você está falando, Luzia. Pare de me azucrinar, hein! Eu estava aqui sentada tão somente, daí me levantei porque… ah, nem sei, e o bastão… o bastão… Ai, você me cansa… o corpo até chega a doer. Chega de perguntas! E vê se traz o meu chá, que sempre esquece.

© Crônica coletiva

 

Irmã para quê?

Inacreditável, foi a única palavra que consegui dizer quando ganhei um urso de pelúcia da minha irmã Juliana. Sei que muita gente ganha bichinhos bonitos, enfeitados, bem vestidos, até com cheiro. Fica feliz, coloca sobre a cama, na estante de livros. Mas eu tenho 64 anos, e com certeza vivi plenamente a infância.

Confesso que jamais pensei em retornar ao meu tempo de bonecas de pano, corda de pular ou minijogo de chá sobre a mesinha de fórmica. E olha que nem passei pelo desafinado piano com oito teclas. Trabalhei as possibilidades enquanto olhava para o urso. Doar para a primeira criança que encontrasse na rua, fazer uma rifa, ou mesmo jogar no lixo bem escondido para nenhum vizinho do andar ver. Mas gosto muito da Juliana, o que pesou na hora de decidir.

Pensando sobre nossa relação, tentei encaixar o presente inusitado. Sei que bichinhos de pelúcia carregam um componente de afeto muito forte, que podem transcender a experiência da infância, mas Juliana nunca foi uma irmã amorosa. Mais velha, sempre foi independente demais e muito focada em seus assuntos, raramente trocávamos confidências.

Na memória resgato o dia em que a vergonhei quando a diretora chamou porque eu tinha mordido o rosto de um garoto na sala de aula. E como era sempre ela quem me trazia do colégio, nesse dia foi só bronca na volta para casa. Pensando bem, tenho uma coleção de dias semelhantes que justificam nossa relação ter ficado estremecida. Mas era sempre ela quem estava por perto.

Ter consciência de tudo isso me deixou com raiva, porque não era um bom momento para analisar essa relação. O gostar, eu sei, ainda estava em seu devido lugar, irmã é irmã, mas admitir que sempre fomos muito diferentes em tantos sentidos, e que a distância foi cultivada por nós duas igualmente era mais difícil do que jogar sempre a culpa nela.

Então voltei a encarar o urso sentado em cima da mesa, já parecendo maior do que quando abrira o pacote entregue pelos Correios. Um grande incômodo que não ia desaparecer se eu ficasse apenas olhando para ele. Era preciso fazer a pergunta. E estar pronta para a resposta.

Com relutância peguei o telefone e liguei para Juliana.

– Tudo bem com você? Seu pacote chegou – disse logo que ela atendeu. Uma frase neutra, dita da forma mais neutra possível, na esperança de alguma explicação sem que eu tivesse que dar mais nenhum passo.

– Você gostou? – Ela perguntou com um ar meio sacana.

– É um lindo urso de pelúcia.

– Não é mesmo? Também achei.

Aquilo estava saindo do controle. Eu ia ter que perguntar, correndo o risco de parecer ingrata, ou fria, ou desinformada – podia ser um item muito popular e eu estar totalmente por fora.

– Tem certeza que era pra mim que você queria mandar?

– Sua filha esteve aqui. – Seu tão conhecido ar de censura fez parecer que eu tinha voltado no tempo. – Ela me disse que não se falam há meses. Isso não pode continuar assim, vocês precisam se entender.

– Nós nunca nos entendemos ­– eu retruquei. – Então não é agora que isso vai mudar. Eu fiz o que pude, mas parece que estou sempre errada. Até me lembra você e como ficava irritada com qualquer coisa que eu fazia.

Sem ligar para o ciúme que minha voz revelava ao saber do encontro entre as duas, e que aparecia toda vez que eu constatava a proximidade que mantinham, ela disse:

– Você vai ser avó. Precisa de brinquedos em casa para quando forem te visitar.

Juliana disse aquilo como se fosse uma ordem, como se eu não pudesse prover eu mesma alguma diversão para um neto que eu nem sabia que estava chegando. Pega de surpresa com a notícia, a raiva em um instante foi dando lugar a uma emoção nova, bem mais suave, embora inteiramente desconhecida.

E lá estava minha irmã, de novo por perto, quando eu ainda precisava dela.

© Crônica coletiva

Pulp fiction paulistana

As luzes foram acesas, mas Ana Beatriz ainda se sentia dentro do filme. Produção francesa é assim mesmo, nos deixa no meio do caminho: ficar sentada e pensar a respeito, ou correr para olhar o mundo e ver se tudo ainda permanece no mesmo lugar. Enquanto pensava, ia arrumando todas as tranqueiras que havia espalhado nas poltronas vazias ao lado da sua. Saquinho de pipoca, livro da Hilda Hilst, copo de Coca-Cola, programação do Belas Artes, a garrafinha prateada com seu uísque preferido. Esperou os créditos passarem na tentativa de ler alguma coisa surpreendente e ficou impregnada com a música que soava ainda forte no espaço. Levantou-se. Olhou para os lados. Frequência reduzida naquela quarta-feira seca de inverno. Estava aposentada, era uma pessoa livre, podia se dar ao luxo de uma sessão de cinema às duas, sem contar que pagava meia entrada. Privilégio para poucos.

Na saída, a dúvida de sempre. Tomar um café ou ir embora para não pegar o metrô lotado? Passou os olhos rapidamente nas pessoas sentadas no bistrô e viu alguns jovens ruidosos, um outsider desamparado folheando um livro, e nada mais. Optou por ir antes ao banheiro.

Enquanto lavava as mãos, sentiu a presença de uma outra pessoa. Não havia visto ninguém até então. Não a viu entrar. Fez um gesto para sair, enxugando-se na própria calça, quando percebeu o choro dolorido da desconhecida. Ana era tímida, não gostava de falar com estranhos, mas sentiu aquele apelo da civilidade e, um pouco encabulada, arriscou a pergunta:

– Posso fazer alguma coisa por você?

Não era a primeira vez que caia nessa tentação samaritana de se envolver. Se o elevador falasse… E dessa vez não ia mesmo conseguir se conter. Choro contagia, desperta sua dor também.

Repetiu a pergunta, agora em um tom de voz mais suave e baixo. Havia se aproximado o suficiente para perceber que um lenço encobria meia face da desconhecida. Ela se virou para Ana, e uma onda enregelante a paralisou. Nunca vira olhos tão vermelhos assim.

Na hora lembrou-se do filme “Convenção das Bruxas” e das pupilas vermelhas faiscantes. E não era só isso. O olhar sanguinolento da outra parecia dizer: “que te interessa?”.

Uma onda a percorreu da espinha à barriga, e continuou até atingir a bexiga. Mas já tinha começado o diálogo, então procurou controlar suas reações. Fez menção de afastar-se, tentando não demonstrar muito o medo crescente que sentia. Ao desculpar-se e virar o corpo para ir embora (precisava achar outro banheiro, urgente), sentiu em seu braço unhas longas e firmes, e ouviu a voz rouca da mulher:

– Espere.

Esperar o que, pensou Ana? Imediatamente lhe veio o lugar comum “esperar pelo pior”. Mas o que seria pior do que estar ali naquele banheiro com uma figura assustadora a impedir sua passagem para um outro espaço redentor? E procurou reagir ao medo do que aquela estranha tinha a dizer. Torceu para que o choro terminasse e a rouquidão da voz se dissipasse. Estava errada.

– Esta cidade não é muito acolhedora, mas você me surpreendeu com sua pergunta. Ninguém se importa, não é mesmo? A aparência, a idade, o vigor é tudo o que valorizam. Mas você me entende…

Ana estava disposta a concordar com ela. Mais do que disposta até, concordaria com tudo que a mulher dissesse, desde que pudesse abrir a porta. Mas o fato é que estava certo o que dizia, a cidade não era mesmo hospitaleira com todos, e por isso fazia questão de usar o maior número de vezes o transporte público gratuito, sentar-se no banco reservado no metrô, ir a todos os lugares em que a idade lhe permitia entrar sem pagar. Considerava o mínimo de retorno que merecia depois de contribuir anos para o crescimento daquela metrópole, agora desgovernada. Arriscou um comentário, mas foi interrompida.

– O meu choro não é de dor, não se preocupe. Só estou com muita raiva, e quando chego nesse ponto não consigo segurar as lágrimas. Se evito demais, meus olhos vão ficando vermelhos até o ponto de quase me cegar, e então preciso dar um tempo, recuperar a calma, de preferência longe dos outros.

– Mas o que a deixou com tanta raiva, afinal? – quis saber Ana, sem pensar que a cada pergunta uma resposta viria, prolongando aquele encontro.

Ouve a exótica criatura declamar, as palavras rompendo o lenço que cobria sua boca:

“A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.”*

Ana virou-se para abrir a bolsa sobre a pia e retirar de lá seu exemplar de Hilda Hilst, cujas palavras reconhecera de imediato, para mostrar à desconhecida de olhos vermelhos que sabia de sua angústia: “A vida é crua”, ela concordava. Mas quando levantou os olhos a outra já não estava mais à porta.

© Crônica coletiva


Trecho do poema “Alcoólicas” (http://www.releituras.com/hildahilst_alcoolicas.asp).

O avião, a lancheira da mamãe e o lixo da memória

Tem gente que não gosta de viajar. Para mim, viagem tem a mesma importância que tomar banho, escovar os dentes e me formar na faculdade. Ou seja, me renova, me amplia, traz sentido à vida, acabo conhecendo mais daquilo que gosto e do que não gosto. E ainda abre espaço para eu mudar de opinião sobre esses mesmos gostos.

Um mal necessário é o avião. Tem fila para tudo, a comida é praticamente de plástico, o ar sempre é polar para competir com a temperatura externa e os banheiros após 20 minutos de voo ficam inutilizáveis. Admito que acho um pouco engraçado a dinâmica das pessoas para entrar e sair da aeronave. Empurram-se para entrar, colocam as cinco sacolas que compraram no Duty Free no compartimento de bagagem, e quando se sentam pegam imediatamente a revista para ver as novidades do mesmo Duty Free que deixaram minutos antes.

E a saída? Mais hilária que a entrada. Assim que o aparelho pousa, sons de cintos de segurança se soltando e a agonia no ar para sair daquela lata de sardinha o mais rápido possível. Logo em seguida vem a voz dos comissários de bordo pedindo para conterem a ansiedade de forma educada: “Senhoras e senhores, por favor, mantenham os cintos afivelados até que a aeronave pare completamente. Para a sua própria segurança”. Quando o avião para, as pessoas se acotovelam para chegar primeiro à porta.

Também era assim no colégio. Saíamos sempre correndo para fazer fila e ir ao recreio. De nada adiantava dar cotoveladas nos colegas, eu era sempre a última da fila, formada por ordem de altura. Detestava ser daquele tamanho. Girafa era o apelido mais carinhoso que eu tinha. E lembro da lancheira que minha mãe preparava cuidadosamente todas as manhãs: frutas, suco natural e um lanchinho. Hoje vejo que aprendi mais com minha mãe do que com os professores. Não sei nada sobre fórmulas de matemática, nunca decorei a tabela periódica nem regras gramaticais. Em contrapartida, não como alimentos industrializados, frituras ou refrigerantes. O que me faz achar ainda mais difícil encarar a comida de avião.

O fato é que em viagens aéreas nenhuma ciência funciona. Nem a matemática das chamadas por assentos na entrada. Nem a fórmula plástica do catering, que só provoca um flanar pelo meu estômago e me faz desejar a saudável lancheira da minha mãe. Por isso, toda vez que estou no avião, a minha memória afetiva me remete à infância, e a essa felicidade ingênua da época. Sim, tem gente que detesta viajar. Mas nessa hora eu procuro manter o meu ânimo e foco na viagem planejada. Chacoalho a cascavel num uísque on the rocks durante o voo e apago. E entrego para o lixo da memória a lista renovada daquilo que definitivamente não gosto.

© Crônica coletiva

Escuto o outro em mim

A dor do outro dói em mim.

Ouvir não é uma opção, pois uma vez que o ouvido funcione, ele ouve. É o barulho dos carros passando na Marginal, o avião às seis da manhã anunciando que o aeroporto de Congonhas está aberto, os pássaros piando em busca das frutas das árvores no parque perto daqui. Som, música, barulho, melodia…

Ouvir é entender que não se está sozinho. Mesmo quando o som chega em uma linguagem que não se entende. O que me impressiona é que acabo compreendendo o que antes achava não entender.

A essa compreensão que parece vir do coração damos o nome de empatia, uma relação com o outro em que não são necessárias palavras ditas ou experiências vividas, basta saber ouvir sobre sua dor.

Estar presente, sintonizado, atento já provoca um turbilhão de trocas emocionais, todas as células se envolvendo e agradecendo essa aproximação, essa partilha. A grande questão é: como ouvir e não se envolver? Como conseguir extrair algo dessa oportuna dor sem se sentir insensível?

Estar já é complicado. Ser e estar só é diferente em português e em algumas outras línguas. O outro sou eu ou está eu? Aparecem, assim, o ouvir e o escutar em um intricado carrossel de sentimentos. Olhar e ver andam juntos? Falar e dizer são irmãos?

Não há dúvida: a dor do outro foi em mim. E dói em mim porque não estou sozinho, mas conectado com tudo, e sou conectado com meus sentimentos. A dor do outro dói em mim porque em seu olhar vejo meus fantasmas. A dor do outro foi em mim porque quando quero dizer que tudo vai dar certo, no fundo gostaria de admitir que muitas dúvidas também me perseguem.

© Crônica coletiva

Oração ao Tempo

Quando aqueles que admiramos e amamos se vão, levam junto um pouco do que somos, como foi quando perdi meu pai. O Tempo passa e assistimos a nossos ídolos e mentores, seres iluminados, partirem levando sua energia, um jeito de ser, um talento.

Aguardo com tranquilidade o microssegundo de sair do círculo da vida e já me imagino encontrando essas energias vibrando no espaço incógnito. Reconhecerei? Reconhecerão?

Vou pedir ao Tempo que me permita pelo menos um abraço, e que eu possa lhes dizer que segui os mestres para mais uma vez ser banhada pela luz da beleza e da sabedoria. E que ele seja justo e benévolo, não importando a duração, mas a intensidade da visão, do contato, da saudade. Como se nunca tivesse havido partida.

Tempo, tempo, tempo, nossos destinos em tuas mãos, dai-nos o instante mágico do reencontro, do colo macio, da palavra serena, do olhar acolhedor.

Ilumine nossas vidas para que teus fluidos incessantes sejam inspiradores. Que cada momento vivido, por ti sustentado, seja o bastante, pleno, sem lapsos e remorsos. Ensina-nos a manter a chama viva intacta.

Sendo o senhor da vida, Tempo, eu te peço, além da sabedoria, a visão do futuro no passado, para poder desfrutar como ídolo daquele que achava ser somente meu pai. Hoje sei que não é ele a controlar o destino.

Tempo, tempo, tempo, por conduzires meu destino, guia manso meu caminho. Que haja tempo nesse Tempo para durar o que precise.

© Crônica coletiva


Este texto é uma reflexão inspirada em música de Caetano Veloso, de 1979, em que o compositor faz uma homenagem ao orixá Iroko (ou Rôco), cultuado no candomblé do Brasil pela nação Ketu. Iroko é uma árvore que representa a longevidade, a durabilidade das coisas e o passar do tempo. Na mitologia, Iroko foi a primeira árvore plantada e pela qual todos os outros orixás desceram à Terra.

Oração ao Tempo faz parte de um conjunto de 12 crônicas escritas coletivamente, sendo seis a partir de canções de Cazuza e seis a partir de canções de Caetano Veloso. Vamos publicá-las ao longo dos próximos meses. Uma delas está aqui, a outra aqui, e mais outra aqui.

%d blogueiros gostam disto: