Desautomatização

Há meses vinha percebendo que gastava cada vez mais tempo conversando consigo mesma. Fazia paradas ao longo do dia para organizar as ideias, traçar planos, buscar lembranças, pensar no futuro. E fazia desse jeito atrapalhado, passado e futuro indo e vindo sem que conseguisse, ou mesmo quisesse, achar um ponto em comum entre ambos.

A primeira vez que teve consciência disso estava no banho, com a água quente caindo nos ombros e provocando um relaxamento a que não estava acostumada, já que vivia apreensiva, preocupada, sempre atrasada. Tentava afastar a culpa pela água desperdiçada, substância tão rara naqueles dias, e prolongava aquele tempo só seu.

Um dia, sentada à mesa, teve vontade de ficar ali parada, esquecida de que precisava voltar ao trabalho. Do nada lhe veio à cabeça a lembrança boa da torta de maçã da mãe… nada era mais como antes, para ela o mundo havia mudado rápido demais. Trabalhava em casa, não ia à rua para quase nada, sentia-se cobrada para fazer mais em menos tempo. Das muitas profissões que haviam desaparecido, a sua ainda tinha serventia, mas nunca era valorizada, pelo contrário, tinha apenas que agradecer o fato de ter clientes mais ou menos fiéis, fazendo o máximo para mantê-los.

Preocupada com seu viver tão solitário, havia adquirido um cachorro puig modelo Delta 3, mas a experiência com aquele robô que pedia carinho tinha sido um fiasco. Apesar de todos os esforços que imaginava terem sido empregados pelos programadores na construção de uma personalidade adorável para o bichinho, não acreditava em dar sua atenção e seu amor a uma máquina.

O final de semana se aproximava, e ignorando o trabalho atrasado decidiu ir ver com seus próprios olhos o que andava acontecendo de novo na capital. Descartou a ideia do transporte coletivo e preferiu alugar um carro, mesmo a um preço proibitivo. No site de reservas não quis escolher um modelo muito arrojado, voar não era seu estilo, preferia as estradas velhas e as quatro rodas bem assentadas no chão. Já se imaginava andando pelas ruas largas e cheias de gente.

Chegou sem problemas ao seu destino com a ajuda do mapa integrado ao volante, guardou o carro num edifício garagem e alcançou a rua. Uma sensação boa de pertencimento fez seu corpo vibrar, a cidade grande a fazia mais feliz. Andou sem um destino certo por muito tempo, até decidir-se por uma visita ao museu. Entrou sem saber o que esperar, na verdade nem quis ler a programação no totem interativo colocado bem à entrada, apenas registrou sua entrada pelo aplicativo no colar.

A mostra no primeiro andar tinha um nome instigante: Desautomatização. A ideia de conhecer uma obra que parecia querer discutir minimamente o excesso de tarefas, coisas e pensamentos automatizados já seria um alento. No centro da sala pouco iluminada duas pessoas dançavam com graça ao som de uma música muito suave. Os movimentos lentos e graciosos, muitas vezes sincronizados, a cativou. Observou por um bom tempo aquela dança, invejando a resistência dos bailarinos, e só então resolveu ler a apresentação projetada discretamente numa das paredes próximas à entrada.

“A dupla de bailarinos executam uma coreografia especialmente criada para a obra. O humano e o quase humano dançam em perfeita sincronia, um ensinando ao outro novas sequências, ambos professor e aluno. O ser robótico foi desenvolvido pelo artista plástico e engenheiro mecatrônico…”

Surpresa, não conseguiu prosseguir com a leitura. Seus olhos estavam agora no centro da sala. Como não havia percebido que um deles não era humano? Ficou ainda por vários minutos observando para confirmar que os movimentos da dupla permaneciam harmonizados e belos. Aos poucos a surpresa transformou-se em estranhamento, para terminar em verdadeira agonia ao pensar no realismo daquela figura, que poderia estar condenada a bailar eternamente.

Sentindo-se desafiada a transpor os seus próprios limites para participar dessa definição, aproximou-se dos bailarinos e também começou a dançar. Seus passos a princípio seguiram a sequência da dupla, mas a cada desacerto seu, natural em um exercício tão novo e espontâneo, a dupla assimilava o movimento e incorporava na coreografia.

Estava fascinada, e nem de perto conseguia distinguir as naturezas de um e de outro ser. Ousou tocá-los, num gesto impulsivo, e um pequeno triângulo se formou, ombro a ombro, braço a braço, dançando juntos; o tato com cada uma das figuras não era diferente. Os olhares se cruzaram, ambos calorosos e acolhedores. O fascínio a levou a um arrepio de medo. Quem era quem ali?

Lembrou-se de um artigo lido há alguns meses, um princípio da robótica tão importante quantos as três leis escritas por Asimov* e que recebia o poético nome de Vale da Estranheza**. Ele descreve o momento em que a representação extremamente realista de um humano deixava de ser surpreendente para alguém até tornar-se repugnante.

De fato a beleza e a estranheza se alternavam nela. Desejou profundamente que o mundo pudesse ter um mínimo de sabedoria para conviver com a Inteligência Artificial, pois estava se aproximando o momento de definir os limites do humano. Mas aquele instante passou a ser aterrador. Pensou que estava desatualizada.

Com aquele nível de perfeição, imaginou que para além da inteligência, também a consciência artificial era então uma realidade. E isso implicaria a existência de seres artificiais com memória afetiva tal qual a humana, com todo tipo de registro de sensações e com um passado inserido em suas programações. Tinha lido sobre um projeto assim, mas seu isolamento, o trabalho rotineiro e automatizado…

Saiu da pista de dança e correu para o banheiro, fixando o olhar na figura que vislumbrava no espelho. Um insight a atingiu feito raio. Seria tudo que sabia e lembrava apenas produto de uma formidável engenharia cibernética?  E se até o tédio tivesse sido previsto, na experiência de humanizar ao extremo a máquina? Havia ela alcançado o requinte da consciência artificial, suspeitando da própria natureza? Não poderia suportar a dúvida, e num átimo percebeu que também não suportaria a certeza. Hesitou, paralisou. Ficou a olhar para dentro de seus olhos, e lá permaneceu sem tempo para acabar. 

 

*Três Leis da Robótica: 1) um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; 2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e 3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

 **Princípio criado em 1970 pelo engenheiro de robôs Masahiro Mori.

Meu amigo Zé

Adoro histórias, principalmente aquelas regadas a doses de cachaça que rendem boa prosa e embriaguez. Nessa hora o contador de causos é sempre uma figura muito especial. O Zé é um desses caras. É daqueles amigos que a gente visita quando estamos a fim de birita e de alimentar os ouvidos.

O Zé tem sempre histórias frescas pra contar. Algumas totalmente inventadas, outras da própria vida – muito bem vivida, por sinal. E se for inventada melhor ainda, porque o momento chega a ser hilário. O danado conta histórias como ninguém. Mora numa casa construída nos anos quarenta, cheia de estilo e simplicidade. Faz questão de dizer que ela não tem varanda, tem alpendre. É a cara dele. A sala tem duas lareiras, uma ao lado da outra, “única extravagância e um arroubo de decoração”, me confessou. Piso de madeira, móveis também, e uma delícia de estar. A cozinha é toda vermelha e imensa, com uma mesa de doze lugares e um grande bar com balcão. É famosa por propiciar encontros incríveis com tipos interessantes, como aqueles com a Tina, atriz de teatro já na curva da fama, casada com o Cuco, um artista que esculpe em madeira, espanhol, que faz um ravióli melhor que qualquer italiano. Moram no campo, têm um cachorro de três patas e uma árvore que canta, mas essa é outra história.

Por falar em animal, o Zé tem um papagaio que imita peru o ano todo, mas, na época de Natal, se disfarça e começa a relinchar. Jura que não foi ele que ensinou, mas contou que o bicho relincha tanto, tanto, que passou a aterrorizar as crianças do bairro. Os vizinhos aproveitaram a chance para dizer que agora o Papai Noel chega numa carruagem de éguas brancas, porque as renas se aposentaram. Cada um se defende como pode.

Como disse, a vida do Zé foi muito bem vivida. Durante treze anos morou num veleiro no mar e fez diversas travessias. Conheceu bem os sete mares e namorou Iemanjá. Bem, na verdade, essa parte do namoro não lembro bem como foi, mas lembro que está em alguma das histórias que o Zé me contou. Encontrou Netuno no mar Egeu e teve um namoro demorado com uma sereia durante o tempo que navegou pelo Caribe jamaicano. Essa história foi ano passado que ele me contou, quando tomávamos cerveja na marina de Ilhabela e a birita rolou solta até o pôr do sol. Gosto tanto de suas histórias… Sei também a da baleia que passou dias colada ao lado do veleiro. É, tem essa aí também… Contou que passou por mares revoltos, tempestades terríveis, com ondas de dez metros, e que esteve à deriva próximo a uma ilha do Mar Báltico cercada de tubarões famintos e governada por uma amazona. “Um espetáculo de moça! Um pitel”, disse. Mas quem usaria palavras tão démodé? O Zé usa. E confesso que eu também, sometimes.

Sim, o Zé é demodé. E também o seu sobretudo xadrez em tons de azul marinho e marrom que tem até cinto e capuz. Sente muito frio, ébrio ou sóbrio, é só fazer um ventinho e está ele lá com o seu sobretudo cafona. Basta um sereno pro homem se cobrir. E quando chove ainda usa galochas. Também coleciona guarda-chuvas, diz que nunca se sabe quando vai perder algum. Apesar do mau gosto, já foi menino rico, e bem rico, quando moço, mas os pais perderam tudo no plano Collor. “Trabalhar é chato” é o seu lema. “Os meus maiores prazeres são a vagabundagem e whisky on the rocks”, isso a qualquer hora e sem ordem de prioridade.

Estudou Filosofia, mas, trabalhar, o Zé não trabalha e nem nunca trabalhou. Aliás “filósofo não trabalha, filósofo filosofa”. Diz que só estudou para aprender sobre a tragédia dos Gregos e se entregar à vida com a paixão dos Deuses. Daí deve vir também, acho eu, essa mania de ver novela. O Zé não perde uma. Lê antes o final e mesmo assim chora quando acaba. Tudo que for enredo o atrai. Mas confessa sempre ser a sua vida muito mais interessante.

Sempre se declarou um herói de mil amores – a modelo, a bailarina, as irmãs gêmeas, as primas das irmãs, as suas primas, e talvez até as minhas. Como a filha do general que tinha uma espingarda, que foi pra Europa a trabalho e voltou antes da hora, fazendo o Zé parar no armário, pelado. Mas essa também é outra história.

Lembrando assim tanto do Zé, percebo que ele anda meio sumido de minha vida ultimamente, e eu, meio à toa, precisando de uma nova história, e birita of course.

Adoro histórias. Adoro o Zé!

Casualidade

Foi tudo uma questão de casualidade. Como acontece quando se está pronto para sair e ao beber um copo de suco de laranja derrubar tudo na roupa. Ou se atrasar para a reunião e esbaforido no elevador encontrar o presidente da empresa que o convida para um almoço. Ou ainda puxar uma conversa com um desconhecido na rua e isso mudar a vida. Imagine.

Ernesto é um jovem calvo, com pernas longas e finas, que etiqueta suas coisas para manter a organização e não perder muito tempo nas funções diárias. Gosta de usar samba-canção e tem uma para cada dia da semana e outras para ocasiões especiais. É empreendedor de tecnologia e descobriu essa paixão fazendo jogos quando tinha apenas 4 anos. O seu futuro era promissor. Nerd, estudioso, seu hobby sempre foi ler e desenvolver pequenos aparelhos que facilitassem o dia a dia. Ganhou seu primeiro prêmio na feira de ciências na 5ª série do colégio. Na 8ª foi chamado para ser um consultor de uma grande empresa de videogames – o sonho de toda criança na época. Se tornou o orgulho e a preocupação dos pais.

No final da tarde daquele verão seco em Florianópolis, no auge dos seus 17 anos, recebeu uma ligação:

– Alô, por favor, o Ernesto Caldas Bastos está?

– Ernesto Caldas Bastos sou eu. Falo com quem?

– Olá, boa tarde, meu nome é Ernesto Caldas Bastos.

– Poxa, um xará? Que coincidência.

– Não sou bem o seu xará, eu sou você em outra dimensão.

– Quê? É trote bobo, vou desligar.

– Não, não, não desliga. Eu também não acreditei quando me falaram isso, mas é verdade.

– Como assim?

– Vou explicar: existem muitas dimensões, todas convivendo muito próximas, em frequências vibratórias ligeiramente diferentes. Cada vez que uma pessoa, diante de uma situação qualquer, toma uma determinada decisão surge outra pessoa numa dimensão complementar que tomou a decisão oposta, e a vida segue de outro jeito.

– Como é que é? Isso é loucura. Como é que pode?

– É simples, lembra quando você teve que escolher qual plataforma adotaria para criar aquele jogo novo que te deu o emprego de consultor?

– Claro, mas, pera aí, como você sabe disso?

– Eu sou você também, lembra?

– Tá, mas e daí, o que tem a minha escolha a ver com essa história?

– No momento em que você escolheu aquele caminho, você foi desdobrado para outro Ernesto, que escolheu a outra plataforma, que não ganhou a vaga de consultor e foi por outro rumo. Hoje ele é vendedor de games numa loja do Shopping, em outra dimensão.

– Tô ficando um pouco tonto. Isso contraria tudo o que eu sei.

– E você acha que sabe tudo, né? Tem mais, sabe aquele cara gordão, que você encontrou no elevador da empresa que ia te contratar? Aquele com olhar de peixe morto, fala mole, boca aberta?

– Lembro.

– Pois é, ele puxou papo e você esnobou, só pensando na entrevista que ia começar.

– Sim, e daí?

– Então, existe um Ernesto por aí, em alguma dimensão, que papeou com o cara, afinou, ficaram sócios e hoje estão para vender a empresa de games que montaram para o Google por uma fortuna.

– Não é possível, como eu ia saber? E então são infinitos eus, ou nós, sei lá!

– Quase infinitos, porque a gente morre um dia e para de escolher.

– E como eu vou saber qual é a melhor escolha, como posso saber, para controlar meu futuro? E, pera aí, como é que você está falando comigo?

– É que os universos, em um dado momento, por acaso, se tocam, e aí é possível a comunicação. Foi assim que fiquei sabendo, me ligaram também, mas nem sei como essa ligação começou. De repente eu estava com você na linha.

– Que horror, então não se tem controle de nada?

– Você nunca sabe direito os outros caminhos. Mas podemos reconhecer as janelas de oportunidade.

– O que é isso?

– Toda situação na vida abre uma janela de escolhas, de oportunidades. E para cada opção há uma série de outras alternativas que os outros eus escolheram e seguiram adiante.

– Mas isso dá um número infinito de possibilidades!

– Dá mesmo! Por que você acha que o universo se expande? Pra caber tudo, todas as possibilidades.

– Tô me sentido meio perdido.

– Eu também me senti assim, mas depois você vê que é mesmo e relaxa. Cada caminho tem seu valor, e não há como prever ou controlar. Você vai ter que passar essas informações quando estiver na linha com outro Ernesto. É nosso trato, não pode quebrar a corrente.

– E onde isso vai dar?

– Poxa, cara, não sacou o valor dessa visão de mundo? Saber que cada momento carrega uma decisão, que cada instante concentra um destino é fantástico!

– Mas se eu não posso controlar, de que vale?

– Deus do céu, se eu pudesse atravessar a fronteira dos universos eu ia aí desenhar para você! É exatamente o não controle da vida que a faz bela e valer a pena. Quanto mais nosso rastro for helicoidal, mais sabedoria e usufruto da vida. Pobres dos que deixam um rastro retilíneo, que nunca arriscaram escolhas novas, nesses o espírito não cresceu, desperdiçaram a alma em garantias de segurança e se apequenaram. Você não vai trair a categoria, vai?

– Como assim?

– Saco! Só desenhando mesmo. A ligação vai cair, olha, cara, pensa no que conversamos, valoriza cada segundo, tudo está em tudo, o controle é uma ilusão e o mundo dá voltas sim.

– Acho que estou começando a entender… Alô, você ainda está aí?

– Alô, quem fala?

– Eu estava falando com o Ernesto Caldas Bastos…

– Pois não, sou eu, o que deseja?

O verão de Vivaldi

Uma composição, cinco versões

Dança das estrelas

Ele se matou no final. Mas, calma, não esqueça que todo mundo morre no final. E mesmo assim valeu a pena. Aos 4 anos, Thomas enxergava a beleza de tudo. Do carrinho de três rodas, devido a um acidente, o urso com um olho remendado, a ausência dos pais, o excesso dos avós e a mesma comida a cada dois dias. Pegava os sapatos do pai escondido e dançava pela sala uma música imaginária. Escorregava de meias pelo chão de madeira até cair, bater a cabeça e chorar de rir. Era feliz. Divertia-se com o que tinha, achava graça na repetição, nas pausas, nos espaços.

Cresceu. Ficou alto, magro, desengonçado e vivia cheio de roxos pelo corpo. Não se dava conta de que não cabia mais nos mesmos espaços de antes. Mas insistia. Aos 15 anos, entendeu que era diferente. Sentia demais! Tudo era muito intenso. Tudo era para sempre, até que deixava de ser. Foi o caso dos seus avós, Lúcia e Maurício. Se foram com o cometa, se transformaram em estrelas e sobrou o universo dessa nova ausência. Isso lhe roubou a graça de tudo. Começou a chorar seco, só ele sabia o que sentia. E era demais.

No dia da sua emancipação, quando resolveu fugir de casa, indo para a escada de incêndio do prédio até acabar o suco de caixinha e o saco de batatas fritas, a vida foi generosa. Arrastando os pés e limpando o corrimão com a manga do casaco, deu de cara com a menina mais linda do mundo. Pelo menos era assim que a via. Os olhos grandes, puxando um pouco para baixo, nariz afilado e 30 pintinhas nas bochechas, sorriso pequeno com dentes grandes e um espaço para o ar passar. Um filme passou por sua cabeça: os dois se casando na igreja do bairro, ele com os sapatos do pai, que não cabiam mais. Ela com o vestido de sua mãe. Eram tão felizes que as pessoas se perguntavam como conseguiam. Corte. Os filhos correndo de meia pela sala de casa. O casal dançando e dividindo um pacote de bolacha. Corte. Foram felizes para sempre.

Foi interrompido quando ouviu a voz da menina dizendo para a mãe:

– Eu, hein? Que menino esquisito. Fica com a boca aberta, mas não sai uma palavra.

Aos 30 anos, passava seus sábados lendo e escrevendo. Dizia que não era da sua geração, ninguém o entendia. Por isso, resolveu escrever a própria historia. Foi viver. Saiu por aí. Andou pelas ruas, comprou passagens só de ida, passou noites em claro, teve romances com desconhecidas e com algumas conhecidas, ficou doente. Achou que ia morrer, mas se enganou. Deixou de falar com os pais. Voltou a ver o belo em tudo. Se casou na igreja do bairro com a segunda menina mais linda do mundo. Comprou seus próprios sapatos e dançou até cair de rir. Bateu a cabeça. Desta vez foi fatal. Morreu. Ele sabia que isso ia acontecer. Virou estrela, na constelação ao lado dos avós.

Ele não fará falta e será lembrado. Coisas da vida.


Vivaldi no verão

Empurrou a porta da varanda e sentiu a explosão de calor lá fora. Devia ter chegado manso, como acordes suaves de violino, trazendo de volta os pequenos passarinhos. Mas não foi o que encontrou no quintal. O sol quente trazia a promessa de um dia colorido e pegajoso. Aos primeiros passos já pode sentir o chão de ladrilhos mornos sob seus pés nus.

Vivaldi passou correndo por entre suas pernas e rolou no gramado daquele jeito desengonçado e festivo que tem todo vira-lata – parecia saber que o verão tinha voltado. Depois foi correr atrás dos passarinhos. Assim como ela, não ligava para as outras estações, tinha pressa de viver.


Memórias fervidas

Hoje é mais um desses dias em que a cortina da sala nem se mexe. Nem as folhas do vaso de lírios ao lado da janela. Nem a copa da figueira do jardim do prédio. O calor do verão explodiu em partículas de fogo que resolveram se espalharam pelo ar dentro e fora da sala. Calor de usurpar o ar e o fôlego.

Dario recusou o convite para o almoço que recebeu de amigos com a velha desculpa dos trabalhos aos finais de semana. Ainda tinha muita vida por organizar com a saída do namorado, apesar de tudo previsto. Dia, data e hora marcada. Estava mimetizado com o tempo. Aquele ar parado dentro e fora. Era impossível não contaminar o seu humor nesse inferno. Mas o que o deixava assim tão paralisado, ele sabia, era a ausência de Pedro na casa.

Na cozinha só se ouvia o silêncio da louça. Na geladeira ainda restavam o iogurte e a torta de limão de Pedro. Os amigos íntimos não ligaram para saber como andavam as coisas. Medo bem íntimo esse. E o clima lá fora só ajudando. Os dias se revezavam entre o forno e uma fogueira de assar miolos de elefante. Serviu-se de água fresca e aumentou a temperatura do ar condicionado, tentando minimizar a pressão interna e externa. Os amigos não vão ligar? Na crise é assim, todos somem.

Seus pensamentos e a panela de água do macarrão do almoço em sintonia com o dia. As memórias iam e vinham aquecidas, misturando-se à água no fogo: os dias na casa de praia com Pedro e os cachorros, o coador lavado e colocado na pia para ser usado, as carícias na cama antes de dormirem de conchinha, o sal na água, saber que já não o tinha, o pano de prato que Pedro havia bordado, o azeite na água, e as noites que se tornarão imensas com a sua saída. As memórias caiam como facas na alma. Os dois pegadores, a água fervendo, o sol quente lá fora, a louça branca comprada em Pedreira ao montarem juntos o apartamento, o espaguete de grano duro retirado do pacote e jogado em pequena quantidade na panela, a toalha de mesa que haviam comprado numa barraca indiana em Londres, e o molho no micro-ondas avisando que já estava aquecido. O macarrão está pronto.

A mesa para um só está à espera. Decidiu esquecer a toalha, devolvê-la para o fundo da gaveta, e comer no sofá. Preferia que todas essas memórias tivessem evaporado junto com a água na panela. Desaparecessem pelo fundo de alumínio com a imagem de Pedro saindo de casa. Mas o calor do ambiente insistia em lhe trazer a lembrança também do calor dos lábios de Pedro. E essas imagens lhe diziam que o amor vale a pena, e as próprias penas também. Mesmo que tenha sido a última dor que ele lhe causou. As gotas de suor escorriam pela testa como lágrimas.

Toca o telefone. Era Pedro, para lhe dizer que passaria na quarta para pegar a cadeira da avó, que deixara no quarto. O prato de macarrão esfriava no braço do sofá. Dario aproveitou para perguntar se estava bem, e conseguindo suportar o calor. Ele respondeu que estava na piscina de um amigo, aproveitando o dia de sol para se bronzear um pouco.

Outro, ele já é de outro, pensou Dario. E se lembrou da panela fervendo com a água para o macarrão, e de como as memórias são capazes de se evaporar num suspiro para uns, e se impregnar feito Superbonder para outros.

Um amor que partiu valendo a pena. Evaporando com a toalha de Londres, o pano de prato bordado e a louça das bodas, e deixando tão somente uma única relíquia, junto com o calor do sol sufocante de verão que lhe doura a pele em novos braços.


Richardson em uma estação

Esquina Rebouças com Avenida Brasil. Calor, trinta e cinco graus. Richardson, ou Rixa, serpenteia pelos carros parados no sinal para distribuir papéis que estampam o lançamento de um imóvel nas redondezas. Veste camisa e gravata. O nó aperta. O calor aumenta. Um vento forte levanta poeira. Os automóveis buzinam. Tem o vendedor de água, concorrente nas abordagens. Tem raio e trovão também. Os carros avançam e param. Rixa corre para distribuir o máximo possível de propaganda e assim atingir a meta do dia. Esbarra no equilibrista comedor de fogo.

– Bom dia, cavalheiro, posso lhe oferecer um convite? Esteja conosco… O sinal abre, e os carros aceleram e buzinam.

Treze horas. Afrouxa a gravata. Dobra as mangas da camisa. Parada necessária. Corre até a guarita de um segurança onde guarda a marmita. Feijão, arroz e torresmo, e a preguiça chegando. Uma esticadinha embaixo de uma árvore torta com sombra. Pelo menos dez minutos. E o sono chega e os carros passam. Em volta da árvore estudantes trocam ideias em voz alta. O vento bate forte e deixa o ar morrinhento. Quanta preguiça! Que calor! Rixa dorme profundamente. Afrouxa mais um pouco a gravata. O vento vem mais forte. Raios e trovões. Tem o cachorro que late sem parar. Rixa dorme. O vento quente e trovões. O cachorro late mais ainda. A turma de estudantes permanece em alto vozerio. Uma mulher para e olha para o Rixa dormindo. O vento bate quente melando a face. O gari passa com seu carrinho de mão assobiando uma música. Alto falante de um carro reverbera outro tipo de música. E o cachorro late e Rixa acorda. Sai em disparada para esconder os panfletos da chuva, que engrossa a cada pingo. Corre do raio, corre do trovão, corre da chuva e do vento. Rixa cobre a cabeça com os papéis molhados e senta na sarjeta.


Ninfas de verão

Sabia que ia sonhar. Já era de praxe, toda noite adormecia relaxadamente e se via em um tapete voador.

Sobrevoava paisagens medievais, lagos, florestas, planava por campos amarelos e pousava no jardim de um palácio. O sol sempre a pino, máxima luminosidade, o dourado refletido lhe doíam os olhos.

Da relva e do bosque saiam ninfas em louca carreira, como em um pega-pega, em ziguezague, esvoaçantes, dançando ao som do vento e do assobio das ramas.

Uma roda se formava e giravam, e cada uma rodopiava graciosamente, em ritmos crescentes e decrescentes, e o círculo se ampliava e retraia, em um carrossel alucinante, vivo, pulsante.

Uma ninfa se destacava do grupo e vinha ao centro, avolumava-se, volteava, deixando transparecer seus cabelos loiros.

Aí tudo se dissolvia no ar, e pairava um silêncio de depois. Era por pouco tempo, e o balé recomeçava e surgiam novamente das flores e das copas, e a coreografia se repetia.

Pareciam brincar de verão.

©unoutro

A menina, a bola e a possibilidade de ser um cachorro

Ganhei uma bola com muitas cores e bonita. Peguei a bola e dei uns chutes nela. Disseram que eu não posso chutar bola porque é coisa de menino. Então o que eu faço com a bola? Fico só olhando? Meninas ganham bolas só para ficar olhando? Meu pai prometeu me levar a um campo de futebol. Eu não quero ir. Eu quero chutar a bola e não quero ver os homens correndo no campo atrás da bola. Parece que meu pai é juiz de futebol. E se baterem no meu pai porque ele apitou o jogo de um jeito que a torcida não gostou? Vai ser muito ruim ver meu pai apanhar da galera. Acho que eu vou chorar por causa disso. Vou chorar bastante de pena do meu pai e de vergonha porque ele apitou o jogo errado.

Não gosto de sentir vergonha. Queria não ligar para nada que os outros dizem. Minha avó me deixa brincar com qualquer tipo de brinquedo. Ela diz: criança tem que ser criança. Meio estranho esse jeito de falar. O que mais eu poderia ser? Pensando bem ia gostar de ser um cachorro. Todo mundo ia ficar fazendo cosquinha e eu só de boa de barriga para cima. E as pessoas falando comigo com aquela vozinha de quem fala com uma bebezinha. O que eu não sou mais. Estou bem adulta agora que a minha irmã se mudou para o quarto que era do meu irmão. Ele só volta no ano quem vem. Vou ficar com saudade, mas ter um quarto só meu é demais. Não quero nunca mais ter um quarto com alguém, porque é bom ficar sozinha e ter tempo para pensar, e ler, e usar a minha imaginação. Isso é o que eu mais gosto de fazer. Eu não ligo para esportes, nem para roupas, nem para maquiagem. Do meu celular eu até gosto. Mas como sou muito esquecida, tenho que ficar preocupada com ele o tempo todo. Minha mãe é a única que me entende. Ela diz que eu posso ser o que quiser, quando chegar a hora de eu querer ser alguma coisa. Meu pai também é legal. Eu dei sorte.

Acho que consigo entender a minha avó e esse jeito dela de deixar soltas as crianças. Nós precisamos de liberdade, e depois a gente vai vendo no que dá… he, he. O quarto só meu, a bola só minha e do jeito que eu quiser usá-la. Os meus pais são muito bons, sim, mas no fundo não se entendem bem quando devem decidir o que posso e quando posso fazer. Não vejo a hora de levar a bola na casa da vovó. Estou pensando, acho que ela é a pessoa ideal para realizar o meu próximo desejo: quero um hamster.

Quase

Quase. Palavrinha safada, essa. Às vezes nos salva, por vezes nos derruba.
Quase foi um encontro. Ficou esperando. Espera até hoje.
Quase foi um gol. A bola bateu na trave. O time foi vice.
Quase foi um desenho. Continuou rabisco. Foi parar no lixo.
Quase foi pra final. Vacilou. Caiu fora.
Quase foi pega com o outro. Não soube de nada. Continuam casados.
Quase caiu. Perdeu o equilíbrio. Desistiu da travessia.
Quase bateu o carro. Brecou rápido e as compras do supermercado que estavam no banco caíram. Quase se quebraram os ovos. Ufa.
Quase foi famoso. Não deu muita sorte. Quando foi lançar a sua música, a Anitta publicou seu último hit. Continua tocando em churrascaria às quintas-feiras de noite.
Quase lançaram um livro. Escreveram por dois anos e meio. A gráfica entregou os livros na pior qualidade. Quase queimaram sua reputação. Cancelaram a tempo.
Quase ganhou na loteria. Dessa vez foi por apenas um número, milhões de jogadores perderam. Vão ter que vender panettones para pagar o IPTU.
Quase engravidou. Menstruou aliviada. Saiu com as amigas para celebrar.
Quase entrou na faculdade. Chegou para a prova com os portões fechados. Foi detido por tentar pular as grades.
Quase esqueceu o aniversário da esposa. Uma floricultura na conveniência de posto de gasolina salvou o casamento.
Quase conseguiu se segurar no corrimão: dois meses afastado e não saiu na foto do time campeão.
Quase perdeu o voo, sentou ao lado daquela pessoa desconhecida que seria o amor de sua vida.
Quase foi como o planejado. O primeiro passo deu errado. Mudou todo o resto. Viva a impermanência.
Quase não consigo completar essa lista. É infinita, cheia de incertezas, imprevistos, “quase” é primo irmão do “se”, coisas que desmancham no ar, sonhos que se diluem, sucessos inesperados. E da vida não sabemos metade.
A soma de todos os outros caminhos, caso os “quases” não ocorressem, daria um romance sem fim. E nem nos damos conta disso. Somos mesmo do tamainho de um grão de areia.
Quase filosofei.

©unoutro

Lúcia e o Riviera

Pela primeira vez na vida tinha um espaço só para ela. Havia passado do quarto que dividia com a irmã para outro que dividia com o marido. Agora, chegando aos 53, tinha um lugar só seu, com suas coisas, sua bagunça. Mas para que tentar se enganar? Nunca ia deixar nada bagunçado, não suportava coisas fora do lugar, armários abertos, cama desarrumada, chinelos virados para baixo – quando era pequena ouviu dizer que, se deixasse, a mãe morreria, e nunca mais pode evitar pensar nisso ao ver um chinelo jogado. Uma enorme lista de pequenas coisas que a perturbavam a ponto de não conseguir relaxar nunca. Como desculpa, dizia para si mesma que ser tão metódica havia lhe sido útil para reestruturar a vida depois de tudo que passara.

Terminou de guardar as roupas no armário e organizou os livros trazidos para ter a sensação de que estava num lugar realmente seu, e arrumou sobre a cômoda o porta-retratos com a foto dos pais no dia do casamento deles. Ouviu Mariana chamá-la.

– Estou indo – respondeu já no corredor em direção à sala, onde a patroa a esperava.

– Poderia me preparar alguma coisa quente? Este apartamento é gelado… e depois de velha parece que estou sempre com frio – disse com a voz firme, que não revelava sua idade.

– Apartamento é assim mesmo, parece que a temperatura está sempre acima ou abaixo do que a gente gostaria. Vou colocar água para ferver e trago uma manta para colocar nos pés. Vai se sentir bem melhor.

Mariana relutara para contratar uma cuidadora, se sentia bem e forte, no controle de sua vida. Sempre foi de resolver tudo sozinha, mais ainda depois de enviuvar, mas os limites a obrigaram a revisar sua vontade. Intuiu que seria melhor ter alguém para trocar ideias e seguir em frente sem perder o contato com o mundo. Nos últimos anos, depois que havia feito 70, tinha parado de se cobrar essa necessidade de acompanhar tão de perto os acontecimentos.

– Quer alguma coisa para comer também? – quis saber Lúcia, já preparando a bandeja na cozinha.

– Não, só quero que se sente aqui comigo e me conte mais sobre a sua história e o que te levou a aceitar o emprego. Afinal, você podia ter outro tipo de vida, basta dar uma olhada no seu currículo.

Sem muita vontade de falar do passado, Lúcia se limitou a comentar sobre a carreira.

– Acho que trabalhar numa biblioteca não é mais tão interessante como eu costumava achar… Agora tudo ficou muito chato, as pessoas leem menos, ou só têm vontade de ler no celular.

– Eu sei como é, tudo digital. Nosso bem e nosso mal…

Lúcia conhecia o trabalho de Mariana e sua carreira como fotógrafa, famosa na década de 80 no cenário da moda, e compreendia que também ela não gostasse de viver de suas memórias. Um conhecido em comum as tinha colocado em contato. A árvore genealógica de Mariana terminava com ela, não havia mais ninguém da família, mas ainda contava com alguns poucos amigos que se faziam presentes de quando em vez.

As duas sentaram-se no sofá que ficava próximo à grande janela da sala. Do oitavo andar do Edifício Anchieta via-se uma paisagem que fazia a cidade parecer mais bonita, com seus prédios altos, a torre retransmissora de aço bem à frente, as pistas repletas de carros, e mais ao longe as campas do Cemitério do Araçá.

Lúcia tinha uma enorme paciência com Mariana e seu temperamento difícil. Ela, por sua vez, retribuía sem demonstrações óbvias, às vezes algum dinheiro extra ou um bilhete com algum pedido, que assinava sempre com a palavra “Carinho”.

– Hoje à noite vamos descer e tomar uma cerveja no Riviera – decidiu Mariana, sem perguntar nem esperar por algum comentário.

Há tempos Lúcia planejava rever o lugar que ficava no térreo do mesmo edifício. Só temia encontrar com o garçom Juvenal, eternizado no fanzine do bar famoso. Tolice, não depois de tanto tempo. Essa, aliás, tinha sido uma das razões que a levou a aceitar o trabalho. Não exatamente o Riviera, mas tudo que ele a fazia lembrar, um tempo em que havia uma vida a ser vivida, sem nada definitivo ou que pudesse ameaçar a sua tão desejada liberdade. Uma liberdade que acabou por trair com os caminhos que seguiu em sua vida. Mas isso já não a afetava mais, não correria antigos riscos.

Gostava de sair pelo portão principal do edifício e em instantes encontrar a fachada restaurada do Cine Belas Artes, que agora tinha uma nova cor e um novo nome, mas que a fazia relembrar filmes e amigos que marcaram sua juventude. Dispensava sempre o pequeno túnel que atravessava a Avenida Consolação pelo subterrâneo – medos infantis. Logo lhe vinha à mente a figura de Luiz Noronha, grande companheiro de noitadas. Quantas histórias haviam acumulado. Como aquela do dia em que assistiam a um filme de Fellini – que esticava pela memória e não se lembrava qual era –, e um gato pulou no colo de um espectador. Um susto geral e gritos na plateia. Ela e Luiz, altos de tanto beber antes do cinema, entraram na gritaria até serem todos expulsos do prédio. Pena estar sozinha para recordar tudo isso, o Luiz partira cedo, deixando seu sorriso nas nuvens e uma melancolia que durara meses.

Mas algo lhe dizia que já era hora de ter parte da sua antiga vida de volta, mesmo que fosse uma pessoa totalmente diferente do que fora. Os drinks no Riviera lhe haviam rendido momentos inesquecíveis, e morar ali tão perto do passado a fazia reviver esses momentos. Se, por um lado, isso a atemorizava, por outro, a libertava. Chegava até a sentir calafrios quando lançava seu olhar para o antigo castelinho onde ficava a boate Nostromondo, no quarteirão à frente.

E lá se foram as duas ao Riviera naquela noite. O pai de Mariana já o frequentava em seus tempos de boêmia. Tinha sido arquiteto, influenciou sua inclinação pela estética, e amigo do grande Altafini, outro habitué em seus dias de glória no Palmeiras. Ela também havia sido figura assídua bem por uns dez anos, até finalmente se casar.

Sentaram-se à mesa próxima ao balcão, onde Mariana encostou sua bengala. Olhou o ambiente todo com os olhos do passado, como se nada da nova decoração pudesse impedi-la de revivê-lo. Como sempre se antecipou ao garçom:

– Dois Rabos de Galo, querido, por favor.

– Mas, Mariana, vai pedir essa bebida forte, não quer ficar na cerveja, como combinamos?

Assustada com a ousadia da patroa, Lúcia nem se dera conta de que havia subido o tom da voz, chamando a atenção de um grupo que ria e comemorava na mesa ao lado. Eles a encararam, atentos ao escutá-la repreender a senhora.

– Em homenagem aos bons tempos, e à sua digníssima amiga, faço questão de pagar o Rabo de Galo – disse o cara grisalho e bonitão, rondando os 60, sentado entre amigos e muitos copos vazios.

Lúcia o olhou por um instante e reconheceu, confirmando a suspeita ao perceber que no guardanapo que ele havia derrubado no chão estava o desenho de uma famosa personagem, que ela conhecia dos velhos tempos. “Meu Deus, será que o Luiz está me enviando mensagens do além?” – pensou, revivendo em segundos um passado que 30 anos haviam apagado.

Mariana, totalmente à vontade naquele ambiente, a trouxe de volta:

– Ah, Lúcia! Você não sabe de mim a metade! Por que acha que ainda moro aqui neste prédio? E por acaso reconheceu os artistas ao nosso lado, querida?

De olhos baixos, Lúcia disfarçava um sorriso, sem conseguir olhar em direção a Mariana e revelar algo mais sobre sua vida em outros tempos. Também evitava os olhos do vizinho de mesa. Ia do desenho no guardanapo que permanecia no chão para outros, amassados e espalhados entre os copos dos amigos, todos renomados ilustradores. Em vários deles, a figura feminina que vivia debruçada no balcão do Riviera, mergulhada em sua vida cruel e etílica.

Lúcia estava apavorada com a ideia de ser reconhecida. Só ela sabia que aquele desenho era como um espelho. Trinta e tantos anos haviam se passado, uma vida de ordem e regras, e agora estava ali, acompanhante de uma senhora de bengala que lhe abria as portas para o resgate de antigas memórias e, quem sabe, um novo começo, quando finalmente um equilíbrio se estabeleceria.

Chegou o Rabo de Galo, interrompendo seus pensamentos. E um brinde secreto selou aquele seu momento: “Que seja o que vier… Tim-tim, Rê Bordosa!”.

Minha irmã: um conto em 3D

Cláudia, minha irmã, rompeu o noivado.

Foi uma surpresa para todos na família. Um casal tão bonito, tão feitos um para o outro. Não quis conversar a respeito. Fechou-se no quarto por dias, esgotou o estoque de lenços de papel. Emagreceu, ficou pálida e adoeceu. No hospital sussurrou para mim que nunca mais amaria ninguém, que a vida tinha se acabado, agora era só esperar; ela viria logo.

A sensação de impotência que venho sentindo é tremendamente insuportável, vou deprimir também. Meus olhos já secaram pela dor da minha irmã. As cores esvaeceram, os sabores diluíram e tudo ficou frio. Vontade de dormir, muito.

Não me parece justo o que está ocorrendo. Por que a gente reage assim com essa intensidade, fica vulnerável a ponto de cair enferma, desespera o futuro? Somos frágeis desde o nascimento, e a cada frustração encolhemos nosso ser a uma miniatura encistada e medrosa. Depressão é doença contagiosa.

 

… tão feitos um para o outro

– Posso ler pra você este conto?

Ela tinha vontade de dividir tudo com ele: um bom texto, uma receita, uma lembrança. Queriam tanto saber tudo um do outro que costumavam contar em detalhes as dezenas de pequenos acontecimentos do dia. Pensavam que a vida tinha planejado esse encontro feliz entre eles, um no caminho do outro de forma definitiva.

Ela falava muito e com todo mundo – no elevador, na festa, na loja de rosquinhas –, ia falando e sorrindo. E ele gostava de ver que os olhos dela sorriam quando falava. Ele achava estranho quando diziam que era bravo, mas no fundo gostava, porque assim não precisava se abrir com ninguém além daqueles poucos amigos que cultivava há anos. Mas com ela sempre fora diferente: quando se encontravam a conversa fluía, e ela nunca tinha achado que ele parecia bravo, para ela aquela cara séria era só uma certa falta de traquejo com a maioria das coisas consideradas normais no convívio social.

– Posso te dar um beijo?

Eles estavam dançando uma música lenta e ela não esperou a resposta, foi beijando. Ele ficou sem ação porque a mulher dele estava por ali, e porque, apesar de estarem todos meio altos na festa, não era uma coisa assim tão simples de explicar a uma esposa.

Um dia ela chegou no prédio e ele estava a sua espera. Ficou feliz de vê-lo ali e o convidou a subir. Ele queria aceitar o convite, mas não antes de falar o que tinha vindo falar. Estava se separando, e ela temeu que fosse consequência do beijo, mas já torcia para que esse fosse o desfecho, ainda mais porque há tempos tinha descoberto que a amizade havia se transformado em amor, tesão, paixão.

– Você acha que esse noivado vai dar certo?

Perguntava sempre, mas já não acreditava que ele quisesse de fato ficar com ela. Sentia tanta falta do amigo quanto do amante, ou até mais, a ponto de desejar com todas as forças que fosse possível dar um “undo” naquela parte da sua história.

Não se viam mais com tanta frequência. Ela ficava puta de esperar, enquanto ele não se preocupava mais em dizer onde estava.

– Você chegou a me amar?

Ao se despedirem ele não conseguia falar. Os olhos dela se encheram de lágrimas e mal enxergaram o momento em que ele virou a esquina e saiu para sempre de sua vida. Dali para frente apenas a tristeza e o vazio comandaram os seus dias.

 

A sensação de impotência

Fui educado para ser um homem forte, daqueles que não choram à toa e carregam nas costas o papel de provedor da família. Lugar comum de outras épocas. Mas de tanto em tanto me pego caindo em sentimentos confusos e constrangedores, que se chocam com esse papel. Basta alguma coisa não andar bem na vida de minhas filhas. Algo que as deixe vulneráveis ou correndo risco de vida. Lá vou eu novamente para aquele lugar onde as emoções delas se enrolam mais ainda em nossa cadeia de DNA, e me fragilizo.

Não foram fáceis as horas de espera no parto da Claudinha. Complicado demais. Nem sei como a mãe aguentou as vinte horas, a pressão oscilando, o hospital, a ausência do médico de confiança, que estava viajando. Nem tínhamos dinheiro na época para um atendimento privado. A Cláudia veio prematura, um quilo e pouco, e com algumas complicações respiratórias. Fiquei ao lado dela os quinze dias em que permaneceu no berçário, enquanto Letícia, a mãe, se recuperava das complicações do parto. Nunca entendi essa parte do “manual” de médicos e familiares, que trocam todo tipo de confidência com as mães, mas são incapazes de colocar os pais a par. Como se tivéssemos coração biônico e armadura na pele. Nunca me senti tão frágil. A sensação de impotência era tão grande naquele momento que ainda arrepio revivendo esses dias. A angústia de errar com aquela bebezinha tão frágil foi forte demais para mim. Pensei que iria enfartar. Passaram-se dias, meses, e Claudia virou a rainha da casa. Todos os leites experimentamos para conseguir que ela engordasse já que o leite da mãe secara. Enfim, creio que não há na vida motivo que me desestruture mais do que ver as minhas filhas sofrerem. E na fragilidade delas percebo a minha.

Hoje a vontade era passar o carro por cima desse canalha do noivo se o encontrasse na rua. Eu já pressentia alguma coisa estranha naquele rapaz… tentei alertá-la. Mas agora ela já não me escuta como antigamente. Minha filhinha, minha menina, eu vou cuidar de você. Respira!

 

Meus olhos já secaram pela dor da minha irmã

Brincavam de casinha no quintal da chácara. Estavam lá todas as panelinhas, o fogãozinho e a mesa miniatura em rosa com suas cadeiras de pernas finas. Ao lado, criaram uma escolinha com latas vazias de óleo de carro, que pediam ao seu Chico, lá do posto de combustível da esquina, onde começava o estradão. Cada latinha, um aluno. Cláudia e Julia se divertiam, imitando a mãe no fogão e a professora na escolinha. Em volta, o cão Tarzan brincava, as galinhas e o galo ciscavam, os coelhos saltitavam de um buraco a outro. Havia ainda um leitãozinho de nome Nestor, que Cláudia chamava de filho. Afeiçoara-se a ele desde quando chegou por aquelas bandas trazido pelo Tio Inácio. Ela preparava a comida dele, queria dar banho, pensou até em pedir para a mãe fazer uma roupinha bem bonita para levá-lo à missa do povoado aos domingos. Às vezes, pegava um banquinho e sentava ao lado do Nestor para contar a história dos três porquinhos. Fazia isso para deixar o leitão preparado para um futuro maligno. As duas meninas nasceram em épocas diferentes, mas sempre viveram entrelaçadas, na alegria e na tristeza. Um dia, sempre há um dia, chegou a Páscoa e o pai resolveu que era hora de comer um leitão assado. Cláudia chorou muito, ficou doente, foi internada. No quintal, sozinha, Julia disfarçava sua tristeza ao simular uma papinha no fogão. Olhava para o chiqueiro vazio e soluçava até mais não aguentar. Sentia a mesma coisa agora, já passados uns quinze anos, quando Cláudia mais uma vez ficou enferma ao romper o noivado.

Como uma criatura reduzida a uma miniatura encistada e triste, Júlia repete para si a todo instante: “Minha respiração ficou ofegante, meus cabelos tornaram-se neve em segundos, minhas mãos não transmitem mais luz, minhas pernas perderam a velocidade no caminhar e meus olhos já secaram pela dor minha irmã”.

 

Depressão é doença contagiosa

Nunca sei se estou deprimido ou só triste. Às vezes parece que carrego uma bolsa no ombro esquerdo cheio de melancolia, frustrações e xingamentos entalados. Pesa tanto que até arrasto o pé. Meu corpo estranha quando solto uma risada desavisada. Parece uma agressão sem fim para o meu sistema, que volta a relaxar quando fecho a cara, paro de comer e dou corda aos meus pensamentos mais sombrios. Sempre ouço das pessoas próximas que vou sair dessa, que é preciso força de vontade, pensar positivo… mal sabem eles que quanto mais usam a simpatia mais antipático fico. Nem tento disfarçar.

Depressão não é uma escolha. Pode surgir de uma causa, como no caso da minha filha Cláudia, tadinha. Ninguém imaginava. Pelo visto, nem ela. Não tocamos no assunto. Só seguro na mão dela, aperto os olhos em sinal de compreensão.

Depressão é doença contagiosa, como no meu caso. Peguei há anos, em uma sexta-feira chuvosa, quando Zeca, meu melhor amigo, de quatro patas, me deu sua última abanada de rabo, pulou o portão e saiu por aí para ser feliz. O mosquito frustração me mordeu. Nunca me recuperei.

Bentinho revisitado

Se conheceram na vila onde moravam. Ele tinha 10 anos, Helena tinha 9, mas sempre o alcançava pois fazia aniversário em setembro. Brincavam juntos na rua com outras crianças: pega-pega, esconde-esconde, gato mia, estátua. Vez ou outra montavam peças de teatro, das mais variadas, desde o nascimento de Jesus, papel sempre reservado ao Zé Bento por causa do jeito sério, até a Turma da Mônica, com coreografia ensaiada. Quando chegaram na adolescência ainda viviam juntos, e agora até estudavam na mesma escola, pela primeira vez na mesma sala. Faziam as tarefas logo depois do almoço – para acabarem cedo e se juntarem ao resto da turma em tardes de conversas na casa do Tuco, um garoto que gostava de fazer graça e só podia tomar sol com uma camada grossa de protetor solar, de tão branco que era.

Helena nunca foi boa aluna e sempre recorria a aulas particulares com o Zé, que tinha as melhores notas da sala. Foram muitas tardes de revisões de Física, Química e Matemática. Helena gostava mesmo era de Literatura. Lia romances com final feliz, e adorava inventar histórias de amor onde ela era a protagonista. Já Zé Bento ouvia as histórias e desejava ser o par de Helena, um sonho que ele mantinha em segredo.

Chegando a época do vestibular, o Zé se inscreveu para o curso de Engenharia em meia dúzia de faculdades públicas do Estado. Helena ainda estava na dúvida entre Letras, Artes e Psicologia. Resolveu se inscrever em tudo, em várias universidades da cidade. O Tuco andava envolvido com teatro comunitário e namorava uma americana muito louca que tinha vindo num intercâmbio diretamente de Los Angeles, e decidiu estudar Artes Cênicas, para ser um comediante de stand up no estilo Seinfeld, seriado que assistia com o pai todos os dias. Depois das provas, muita tensão e ansiedade, e vieram as notas. Helena foi aprovada em Psicologia numa faculdade no centro e em Artes na mesma faculdade em que o Tuco ia cursar Teatro. O Zé passou em todas que prestou.

Organizaram uma festa na vila para comemorar a nova fase, e nem se deram conta de que dali pra frente era cada um por si, tendo que tomar decisões importantes sem contar com os amigos que conheciam uma vida toda. Bebidas e risadas, e entre umas e outras o beijo de Zé Bento e Helena finalmente aconteceu, depois de tantos anos juntos, e outro, e mais outro. E assim desabrochou a história de amor entre os dois.

As aulas começaram. O Zé foi morar numa república no interior, onde era a faculdade de Engenharia. Passava a semana fora de São Paulo e ansiava pelas sextas-feiras, quando tomava o ônibus e depois de três horas de viagem estava nos braços de Helena, que acabou escolhendo a faculdade de Artes e pegava carona com o Tuco todos os dias. Nos finais de semana ainda faziam programas com a mesma turma da vila, todos juntos, como antigamente. Nem sempre concordavam sobre o programa escolhido, o Zé queria mais tempo a sós com Helena, mas o sentimento bom de estarem todos juntos, em geral rindo de alguma coisa dita pelo Tuco, aliviava um pouco a pressão de serem agora cobrados por atitudes mais maduras.

Os tempos leves foram passando. Após dois anos o namoro do Zé e Helena engrenou, e eles se sentiam felizes, faziam planos. Ele arrumou um estágio numa estatal no Rio de Janeiro e ia passar os dois meses das férias de final de ano numa plataforma de petróleo. Antes de partir, pediu Helena em casamento. Anel de brilhantes, promessas de amor eterno, de uma família, de uma vida linda. Ela disse sim. Ele foi para o Rio, ela para Porto Seguro com os amigos da vila: a Robertinha, o Salga, a Martina e o Tuco. Foram passar o mês de janeiro sob o sol da Bahia. A viagem foi divertida, Helena disfarçou a saudade de Zé Bento deixando as coisas rolarem, fazendo uma espécie de despedida de solteira à base de muita caipirinha e axé. Tuco era companhia constante, e a fazia dar muitas risadas…

Era uma terça-feira, começo de março. O Zé acabara de chegar em casa quando o telefone tocou. Atendeu. Era Helena. Como era bom ouvir sua voz, que dessa vez estava trêmula. Ouviu atentamente. Ficou uns segundos paralisado, num misto de sentimentos. “Não, meu amor, é uma ótima notícia! Tão feliz por nós! Seremos uma família linda! Estaremos juntos, e esse bebê vem para deixar a gente mais próximo!”

Casaram-se às pressas, numa cerimônia simples, com um almoço na vila oferecido pelos amigos. Estavam todos lá, menos o Tuco, que tinha uma apresentação do grupo de teatro lá no Sul, marcada de última hora. Logo o bebê nasceu, um pouco antes do previsto. Era um menininho lindo, gorducho, bem rosadinho. Não se parecia muito com nenhum dos dois, mas os bebês às vezes são assim. O importante é que o Joca era saudável! Um nenezinho encantador e muito tranquilo.

Zé Bento transferiu a faculdade para São Paulo, alugaram uma casa no mesmo bairro que cresceram. Helena parou o curso de Artes e se dedicava exclusivamente ao papel de mãe. O tempo passava. O Zé trabalhava o dia todo, Helena deixava o Joca na escolinha e ia para a vila passar o dia ajudando sua mãe com uns artesanatos que ela vendia. A vizinhança da vila já não era mais a mesma. Cada um dos amigos seguiu um destino. A Robertinha casou-se com um húngaro e foi morar na Suíça. O Salga tinha tomado o caminho das drogas na época que cursava Medicina e estava internado numa clínica de reabilitação em Cotia. A Martina namorava há anos uma bióloga, a Carol, e estava sempre em algum canto do mundo fotografando bichos. O Tuco se mudara definitivamente para Los Angeles, onde havia sido introduzido numa vida muito louca de sexo, drogas e rock and roll. Mas tinha um relativo sucesso como comediante, aproveitando o sotaque esquisito que diziam que parecia italiano, espanhol ou libanês, ninguém conseguia decifrar. Ele ficava meio puto, porque achava que os americanos ignoravam o Brasil de propósito. Tinha até criado uma rotina em que entrava em cena vestido de Carmem Miranda.

No aniversário de 10 anos do Joca, organizaram uma viagem em família. Zé Bento tirou férias e foram passar uma semana num resort, em Porto Seguro. Helena nunca mais estivera no sul da Bahia, mas não havia um só dia em que não pensasse naquele lugar. O Joca era o queridinho da pousada, e divertia a todos com suas tiradas, a pele bem rosa, típica de paulistano, começando a ficar bronzeada do sol, pela primeira vez amorenada como a do pai.

Voltaram para São Paulo. Uma semana antes das aulas começarem o Joca acordou de madrugada com uma febre muito alta, gritando de dor ao fazer xixi. A mãe deu analgésico e voltaram para a cama. O menino seguiu com febre e dores pelo corpo. Foram ao pronto-socorro, fizeram vários exames e constataram uma infecção. Sete dias de antibiótico e o quadro só piorava. Voltaram ao hospital e o plantonista achou melhor internar o garoto para exames mais detalhados. Helena ficava o dia todo no hospital, enquanto o Zé trabalhava, e o Zé ficava a noite toda ao lado do menino, enquanto Helena ia para casa descansar. Passaram-se dias e nada do Joca melhorar. Não conseguiam saber o que causava a infecção que não cessava.

Era sexta-feira. O telefone tocou e o Zé pediu licença da reunião em que estava para atender. Era Helena. Os anos se passaram e ele ainda sentia felicidade ao ouvir a voz dela do outro lado da linha. Estava chorosa: “O médico tem o diagnóstico. Os rins do Joca pararam de funcionar e estão falando em transplante. Você pode vir agora pra cá?”.

Os trinta minutos até o hospital pareceram uma eternidade. Terríveis fantasias sobre a doença do filho – perdê-lo jamais –, daria a vida por ele. Pensava em como seria a cirurgia para tirar seu rim e transplantá-lo no filho. Será que poderia ser feita naquele dia mesmo? Será que um rim seria suficiente? Lembrou-se do dia do nascimento do menino. Estivera tão ansioso, foram tantos meses para ver a carinha dele, e o garoto crescia bonito e simpático como a mãe. O Zé era um cara sério, de poucos amigos, um pouco carrancudo até. O Joca era engraçado, sociável. Mas agora finalmente ele teria algo do pai. Algo mais importante que a aparência. Algo que salvaria sua vida.

Chegou no hospital e encontrou Helena sentada ao lado da cama do filho. O garoto seguia num coma induzido. Dormia profundamente. Helena contou do diagnóstico e sobre a importância do transplante imediato. “Os doadores mais compatíveis podem ser irmãos, pai e mãe”, disse Helena com um fio de voz, parecia que tinha um nó fechando a garganta. O Zé abraçou a amada: “Fique tranquila, meu amor. Eu tenho muita saúde, posso viver bem com um rim só, e logo nosso filho vai ficar bem, curado e feliz. Vou conversar com o médico, fazemos a cirurgia o quanto antes.”

Helena se levantou e foi até a janela. Pensou nos dias passados ao lado dos amigos, e em especial num dia de sol quente e distante que mudara para sempre a sua vida. Olhou para o marido e, com a voz mais uma vez trêmula, disse: “Me desculpe, meu amor, pelo que vou fazer agora, espero que um dia possa me perdoar. Nunca deixei que soubesse, mas agora não há mais o que fazer. Já liguei para Los Angeles. O Tuco chega pela manhã.”

© Crônica coletiva

A peça

Depois de almoçar, Zeca Bastos resolveu ler sua correspondência na caixa de entrada. Estranhou o nome do remetente em uma mensagem e por precaução passou o antivírus. Nenhum problema encontrado. Leu cuidadosamente, linha por linha, pois se tratava de um convite irrecusável, sedutor, exclusivo para um seleto grupo de escolhidos. Bem característico dele, coçou os cabelos, agora já grisalhos, fez um muxoxo, franziu as sobrancelhas e concluiu que valia pena. Fazia tempo que não ia ao teatro, embora no convite não houvesse nenhuma informação sobre a direção, o elenco e o enredo, só havia a menção sobre a estreia. Mas, quem resistiria a um convite para uma peça encenada no teatro mais caro e mais badalado da cidade? Deu de ombros e intuiu que seria uma viagem surpresa.

No dia agendado, escolheu com parcimônia a roupa que vestiria e levou um choque ao chegar ao local e perceber que já estava lotado. Transitou entre os convidados e reconheceu celebridades, o que o fez inflar mais o peito. Percebeu os comentários murmurados daqueles que discutiam se seria um drama, uma comédia ou mesmo um musical. Alguns, arrogantes, diziam em voz alta que reconheceriam a obra mal iniciasse o primeiro ato, outros, em seus celulares, estavam ávidos por alguma informação. Zeca imprimiu em sua face aquele ar de “eu sei, mas não vou contar” e entrou na sala de espetáculos. Não gostou muito de suas companhias de poltrona porque não reconheceu ninguém do mainstream.

Três toques, apagaram-se as luzes, cortinas abertas. Silêncio na plateia.

No palco um cenário simples: uma poltrona ao fundo, um pufe e o personagem acomodado preguiçosamente, com os pés no apoio, olhos fechados, imóvel.
O primeiro minuto passou devagar, aumentando a expectativa, e nada se moveu, ninguém entrou, nenhum pio. O segundo minuto de ausência total de sinal de vida começou a inquietar, pessoas se mexendo nas cadeiras, cochichos em crescendo, vozes, risadas, palmas e pés batendo no chão. Zeca fazia bicos e bocas, e girava a cabeça para cá e para lá para simular indiferença.

Ao final do sofrido terceiro minuto já havia um grupo exaltado – “aqui ninguém é palhaço”, “onde já se viu” – até que entra todo o elenco de uma vez só, em bloco, correndo, assustados, com maquiagem inacabada e com figurinos incompletos em desalinho.

O ator mais veterano se dirigiu ao público e disse, sem fôlego: “Pessoal, ocorreu um imprevisto trágico, fomos assaltados e ficamos reféns de um bando que exigiu que o diretor fosse ao banco sacar o dinheiro da produção do espetáculo. Disseram que era vingança, não se sabe o porquê, ficamos presos nos camarins e o nosso diretor não voltou”.

Olhares aterrorizados da plateia. Bastos respirava fundo para manter a calma. Alguém desmaiou na fila “J” e algumas pessoas sentadas na “T” correram para ajudar. Só naquele momento uma atriz do elenco estranhou a pessoa recostada na poltrona ao fundo do palco. Caminhou lentamente em direção a ela e deu um berro agudo de terror, daqueles de filme, quando alguém encontra um cadáver. Todos os atores se voltaram e começaram a gritar ao mesmo tempo – “mataram o diretor”, “ele levou um tiro”, “meu Deus, quanto sangue” –, e o pânico entre eles fez a festa da plateia. Zeca Bastos estava pálido, e limpava nervosamente o canto dos olhos.

O ator veterano pediu calma, mas ninguém ouviu, o pandemônio dominava, ocorreram desmaios, a brigada de incêndio do teatro foi acionada. De repente a porta do teatro se abriu e entraram vinte policiais uniformizados, brutamontes, e o chefe deles, à paisana, com sua capa de detetive e uma insígnia na mão. Zeca pensou com seus botões: “onde foi que já vi essa cena? ”. O chefe gritou com voz de barítono: “Todo mundo calado. Ninguém entra, ninguém sai”.

Foi um tal de “você sabe com quem está falando? ”, “isso é um absurdo”, todo mundo em pé, abobado. A vontade de Bastos era de sumir dali, pois tudo no ar indicava perigo.

Enquanto isso, parte do elenco retirava o corpo do diretor e o levava para a coxia. “Não pode, é cena de crime, qualquer um sabe disso”, berrou bem alto o detetive, mas àquela altura tudo era desordem e irracionalidade.

Embaixo, entre os convidados, choro, risos histéricos, protestos e gritos, e em cima não era diferente. O veterano desistiu de conter a onda, atrizes se abraçavam com medo, atores andavam a esmo em monólogos tremidos. Um vizinho de poltrona do Zeca, além de pisar no pé dele, pegou sua echarpe para conter as lágrimas e limpar o nariz.

O delegado então deu um berro: “silêncio!”. E a galera calou, medrosa.

Foi quando todo o elenco começou a gargalhar, e também os policiais, o delegado, até o diretor, que voltou andando ao palco.

As pessoas se dividiram, parte começou a rir, parte ficou irada e xingava: “filhos de uma puta”. “Era uma experiência cênica, uma pegadona”, pensou Bastos, indignado. Foram convincentes, muito. Não era drama nem comédia, era uma farsa. Logo eu que domino a dramaturgia, como fui cair nessa?

Desconsolado, pegou no bolso interno do capote o convite. Devia ter desconfiado, nele estava o nome do grupo: Circo e Patifaria. Deu de ombros, vestiu o casaco, largou a echarpe surrada no chão, arrumou o cabelo desalinhado e sorriu abertamente, para pensarem que ele sabia de tudo desde sempre. Resignadamente, aceitou que fora assistir a uma peça e lhe pregaram outra.

© crônica coletiva

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