Valise parisiense

Todos os passageiros do metrô de Paris carregam uma valise. Operários, doutores, faxineiras, professores, estudantes, larápios e gatunos. O que tem dentro da valise do parisiense? Marmita, livros e, bien sûre, maquiagem. Roupa suja para lavar e roupa limpa para o operário passear depois do trabalho, comendo um crepe envolto em minipapel, que segura com as mãos não tão limpas, com manchas da poluição e da graxa das máquinas. Tem revistinha também, tem pedaço de baguete com uma fatia grande de camembert, tem embalagem pequena de vinho, tem os pensamentos de Sartre,… Ler mais

Receita para perder um amigo

Foi o tempo de entrar no carro do meu amigo e a melodia se instalou na minha cabeça. Tratava-se de um carro de porte médio, preto, sem mistérios, mas com teto solar que ajudava a balançar a cabeleira e a trança vermelha. O tal amigo era um cinquentão que fazia o gênero pavão misterioso, mas que naquele dia falava, falava, falava. Os assuntos variavam desde o caminho certo para chegarmos ao destino, até o caminho certo para repousarmos na felicidade. E a melodia ia e voltava. O automóvel avançava, os sinais de… Ler mais

Ideologia

E agora o quê? Que sombra ideológica é essa em que nos metemos? Choro com o grito de Cazuza: As ilusões estão todas perdidas… Tomei partido da possibilidade de mudança nas ruas das Diretas Já. Jovem, me embriaguei demais. Mergulhei no sonho coletivo. Acreditei em promessas de heróis de cara pintada que proclamavam caçar bandidos. Me deixei levar alucinada pelo mundo imaginário das histórias em quadrinhos. Fazer o que agora? Assistir de pé aos meus heróis se suicidarem pela vaidade. Assistir a minha ideologia ser enterrada na vala comum do cemitério da… Ler mais

Hóspedes

Primeiro a vassoura, que faz o pó subir, depois o pano umedecido com um produto cheiroso para recolher o que os pelos não conseguiram agarrar, e para finalizar o pano de pó. Detesto e adoro essa rotina. A casa é uma maldição eterna, mal acaba de ser limpa e já se entrega novamente a cabelos, células, migalhas, marcas de pé. Mas a casa também é uma benção, refúgio, porto seguro. Enquanto a casa vai ficando limpa e organizada, meu coração também se organiza. Eles devem chegar a qualquer momento e quero causar… Ler mais

A derrota das mulheres ou as vítimas propícias

Serão 366 dias. Ano bissexto. Surge uma ponta de esperança que me deixa intrigada. Qual o real motivo para tal? O que fazer com um dia a mais? Será um dia para celebrar nas férias ou para trabalhar? Os dias são sempre especiais. Lembro-me bem do dia em que tirei meu segundo passaporte. O primeiro, era muito nova, fui só de acompanhante. Na época, não podia sorrir na foto, saí com cara de indigestão e com um corte de cabelo de gosto duvidoso. O terceiro passaporte foi muito especial. Foi lá que… Ler mais

A viagem do Carnaval

Acho incrível como o brasileiro, e muitos gringos, são tomados por uma felicidade extrema na época do Carnaval. Festas pré, durante e pós-carnaval são frequentadas por frenéticos fantasiados, normalmente embalados por vodka, cerveja, beijo na boca e afins. Antes era só Rio de Janeiro e Salvador. Agora São Paulo entrou com força total no circuito carnavalesco, e seus blocos de rua já são quase tão famosos como os cariocas. Já passei por carnavais no Rio e em Olinda. Do Rio nunca vou esquecer, a onda de sensualidade da Banda de Ipanema, quase um… Ler mais

Nunca tive medo de nada

Nunca tive medo de nada. Quer dizer, de quase nada. O único que tenho sempre resolvi na base da evitação. É inadmissível que um sujeito como eu, com um metro e noventa de altura e cento e cinco quilos de músculos, possa ter esse ponto fraco. Faço academia, pratico surf, corro maratona, sou macho pacas, mas o tal medo me dá medo. De hoje não escapo. Só faltam uns centímetros, um mísero espaço para vencer a barreira e me livrar dessa fantasia absurda, que me acompanha desde criança. Ouço o chamado para romper… Ler mais

O crime do Houaiss

Um barulho no quarto ao lado me acordou de madrugada. Será que a crônica que tenho que entregar caiu da biblioteca e se estatelou no chão? Nada disso. Eram muitas as partes espalhadas, mas não eram letras. Eram cacos de um pequeno pote de cristal que escorregou da prateleira, empurrado pelo Houaiss. Muito estranho isso, porque esses dois assuntos têm me perturbado ao longo do dia. A crônica inacabada – de certo estava sonhando com ela – e um dos tantos objetos que parecem se multiplicar pela casa a cada dia que… Ler mais

Começo de ano

Começo de ano é brabo: junta preguiça acumulada das férias – curtas demais, caras demais, com gente demais – e as incertezas costumeiras. Por isso a cada virada tenho menos vontade de grandes comemorações e preferido a quietude, com gente que amo, usufruindo da maneira mais simples, e ainda assim profunda, de uma sensação de paz. E nada mais. Um amigo me disse que os anos vêm passando cada vez mais depressa porque depois dos 40 já temos uma grande experiência em contar 365 dias, daí que fazemos isso quase sem pensar… Ler mais

O sonho do Natal branco

Todo final de ano temos a sensação de que o mundo vai acabar se não atravessarmos a chegada do 13º, compras no shopping, congestionamentos ou a rota de fuga preferida do turista adicto: o aeroporto. A sensação de que esse pacote de acontecimentos faz a diferença nos deixa mais plenos e reconfortados. Eu escolhi a rota de fuga, e pela primeira vez pisei no novo terminal do maior aeroporto do país: Terminal 3 – Guarulhos. Arquitetura moderna e estonteante, mas nada de assentos. Então relaxo e resolvo dar uma caminhada para conhecer o… Ler mais