Irmã para quê?

Inacreditável, foi a única palavra que consegui dizer quando ganhei um urso de pelúcia da minha irmã Juliana. Sei que muita gente ganha bichinhos bonitos, enfeitados, bem vestidos, até com cheiro. Fica feliz, coloca sobre a cama, na estante de livros. Mas eu tenho 64 anos, e com certeza vivi plenamente a infância. Confesso que jamais pensei em retornar ao meu tempo de bonecas de pano, corda de pular ou minijogo de chá sobre a mesinha de fórmica. E olha que nem passei pelo desafinado piano com oito teclas. Trabalhei as possibilidades enquanto… Ler mais

Pulp fiction paulistana

As luzes foram acesas, mas Ana Beatriz ainda se sentia dentro do filme. Produção francesa é assim mesmo, nos deixa no meio do caminho: ficar sentada e pensar a respeito, ou correr para olhar o mundo e ver se tudo ainda permanece no mesmo lugar. Enquanto pensava, ia arrumando todas as tranqueiras que havia espalhado nas poltronas vazias ao lado da sua. Saquinho de pipoca, livro da Hilda Hilst, copo de Coca-Cola, programação do Belas Artes, a garrafinha prateada com seu uísque preferido. Esperou os créditos passarem na tentativa de ler alguma… Ler mais

Conversa educada

No carro a caminho de casa, em meio a um trânsito infernal, decido ligar para minha mãe e avisar que estou chegando. Quero tirar proveito de tanta tecnologia ao meu dispor e digo: – Olá, Siri, ligar para Laura. Nenhuma resposta. Refaço o pedido caprichando na entonação sem sucesso. Mais uma vez, e mais uma. Nada. Emputecida, porque a essa altura já estou na garagem do prédio, mando minha assistente digital tomar no c… – Vou fazer de conta que não entendi. Envergonhada pela resposta polida, me pego pensando quão viva está ela dentro daquela… Ler mais

Valise parisiense

Todos os passageiros do metrô de Paris carregam uma valise. Operários, doutores, faxineiras, professores, estudantes, larápios e gatunos. O que tem dentro da valise do parisiense? Marmita, livros e, bien sûre, maquiagem. Roupa suja para lavar e roupa limpa para o operário passear depois do trabalho, comendo um crepe envolto em minipapel, que segura com as mãos não tão limpas, com manchas da poluição e da graxa das máquinas. Tem revistinha também, tem pedaço de baguete com uma fatia grande de camembert, tem embalagem pequena de vinho, tem os pensamentos de Sartre,… Ler mais

Receita para perder um amigo

Foi o tempo de entrar no carro do meu amigo e a melodia se instalou na minha cabeça. Tratava-se de um carro de porte médio, preto, sem mistérios, mas com teto solar que ajudava a balançar a cabeleira e a trança vermelha. O tal amigo era um cinquentão que fazia o gênero pavão misterioso, mas que naquele dia falava, falava, falava. Os assuntos variavam desde o caminho certo para chegarmos ao destino, até o caminho certo para repousarmos na felicidade. E a melodia ia e voltava. O automóvel avançava, os sinais de… Ler mais

Hóspedes

Primeiro a vassoura, que faz o pó subir, depois o pano umedecido com um produto cheiroso para recolher o que os pelos não conseguiram agarrar, e para finalizar o pano de pó. Detesto e adoro essa rotina. A casa é uma maldição eterna, mal acaba de ser limpa e já se entrega novamente a cabelos, células, migalhas, marcas de pé. Mas a casa também é uma benção, refúgio, porto seguro. Enquanto a casa vai ficando limpa e organizada, meu coração também se organiza. Eles devem chegar a qualquer momento e quero causar… Ler mais

A viagem do Carnaval

Acho incrível como o brasileiro, e muitos gringos, são tomados por uma felicidade extrema na época do Carnaval. Festas pré, durante e pós-carnaval são frequentadas por frenéticos fantasiados, normalmente embalados por vodka, cerveja, beijo na boca e afins. Antes era só Rio de Janeiro e Salvador. Agora São Paulo entrou com força total no circuito carnavalesco, e seus blocos de rua já são quase tão famosos como os cariocas. Já passei por carnavais no Rio e em Olinda. Do Rio nunca vou esquecer, a onda de sensualidade da Banda de Ipanema, quase um… Ler mais

Nunca tive medo de nada

Nunca tive medo de nada. Quer dizer, de quase nada. O único que tenho sempre resolvi na base da evitação. É inadmissível que um sujeito como eu, com um metro e noventa de altura e cento e cinco quilos de músculos, possa ter esse ponto fraco. Faço academia, pratico surf, corro maratona, sou macho pacas, mas o tal medo me dá medo. De hoje não escapo. Só faltam uns centímetros, um mísero espaço para vencer a barreira e me livrar dessa fantasia absurda, que me acompanha desde criança. Ouço o chamado para romper… Ler mais