Minha irmã: um conto em 3D

Cláudia, minha irmã, rompeu o noivado. Foi uma surpresa para todos na família. Um casal tão bonito, tão feitos um para o outro. Não quis conversar a respeito. Fechou-se no quarto por dias, esgotou o estoque de lenços de papel. Emagreceu, ficou pálida e adoeceu. No hospital sussurrou para mim que nunca mais amaria ninguém, que a vida tinha se acabado, agora era só esperar; ela viria logo. A sensação de impotência que venho sentindo é tremendamente insuportável, vou deprimir também. Meus olhos já secaram pela dor da minha irmã. As cores… Ler mais

Bentinho revisitado

Se conheceram na vila onde moravam. Ele tinha 10 anos, Helena tinha 9, mas sempre o alcançava pois fazia aniversário em setembro. Brincavam juntos na rua com outras crianças: pega-pega, esconde-esconde, gato mia, estátua. Vez ou outra montavam peças de teatro, das mais variadas, desde o nascimento de Jesus, papel sempre reservado ao Zé Bento por causa do jeito sério, até a Turma da Mônica, com coreografia ensaiada. Quando chegaram na adolescência ainda viviam juntos, e agora até estudavam na mesma escola, pela primeira vez na mesma sala. Faziam as tarefas logo… Ler mais

A peça

Depois de almoçar, Zeca Bastos resolveu ler sua correspondência na caixa de entrada. Estranhou o nome do remetente em uma mensagem e por precaução passou o antivírus. Nenhum problema encontrado. Leu cuidadosamente, linha por linha, pois se tratava de um convite irrecusável, sedutor, exclusivo para um seleto grupo de escolhidos. Bem característico dele, coçou os cabelos, agora já grisalhos, fez um muxoxo, franziu as sobrancelhas e concluiu que valia pena. Fazia tempo que não ia ao teatro, embora no convite não houvesse nenhuma informação sobre a direção, o elenco e o enredo,… Ler mais

Do outro lado da linha

Nem sei há quanto tempo o telefone está tocando. Levanto da poltrona cambaleando e procuro apoio. – Alô… – Oi, vó, o que tá acontecendo? – Ouço uma voz de criança do outro lado. A pergunta me pega de surpresa. O que estaria acontecendo? E onde? Sobre o que aquela menininha estaria falando, se eu não tenho nenhuma neta? Dou trela à conversa. – Olá, minha pequena, acordada até agora? – Estou preocupada com você. Não consigo dormir. Já contei todos os carneirinhos, como me ensinou. – Que linda, quanto carinho! –… Ler mais

Irmã para quê?

Inacreditável, foi a única palavra que consegui dizer quando ganhei um urso de pelúcia da minha irmã Juliana. Sei que muita gente ganha bichinhos bonitos, enfeitados, bem vestidos, até com cheiro. Fica feliz, coloca sobre a cama, na estante de livros. Mas eu tenho 64 anos, e com certeza vivi plenamente a infância. Confesso que jamais pensei em retornar ao meu tempo de bonecas de pano, corda de pular ou minijogo de chá sobre a mesinha de fórmica. E olha que nem passei pelo desafinado piano com oito teclas. Trabalhei as possibilidades enquanto… Ler mais

Pulp fiction paulistana

As luzes foram acesas, mas Ana Beatriz ainda se sentia dentro do filme. Produção francesa é assim mesmo, nos deixa no meio do caminho: ficar sentada e pensar a respeito, ou correr para olhar o mundo e ver se tudo ainda permanece no mesmo lugar. Enquanto pensava, ia arrumando todas as tranqueiras que havia espalhado nas poltronas vazias ao lado da sua. Saquinho de pipoca, livro da Hilda Hilst, copo de Coca-Cola, programação do Belas Artes, a garrafinha prateada com seu uísque preferido. Esperou os créditos passarem na tentativa de ler alguma… Ler mais

Conversa educada

No carro a caminho de casa, em meio a um trânsito infernal, decido ligar para minha mãe e avisar que estou chegando. Quero tirar proveito de tanta tecnologia ao meu dispor e digo: – Olá, Siri, ligar para Laura. Nenhuma resposta. Refaço o pedido caprichando na entonação sem sucesso. Mais uma vez, e mais uma. Nada. Emputecida, porque a essa altura já estou na garagem do prédio, mando minha assistente digital tomar no c… – Vou fazer de conta que não entendi. Envergonhada pela resposta polida, me pego pensando quão viva está ela dentro daquela… Ler mais

Valise parisiense

Todos os passageiros do metrô de Paris carregam uma valise. Operários, doutores, faxineiras, professores, estudantes, larápios e gatunos. O que tem dentro da valise do parisiense? Marmita, livros e, bien sûre, maquiagem. Roupa suja para lavar e roupa limpa para o operário passear depois do trabalho, comendo um crepe envolto em minipapel, que segura com as mãos não tão limpas, com manchas da poluição e da graxa das máquinas. Tem revistinha também, tem pedaço de baguete com uma fatia grande de camembert, tem embalagem pequena de vinho, tem os pensamentos de Sartre,… Ler mais

Receita para perder um amigo

Foi o tempo de entrar no carro do meu amigo e a melodia se instalou na minha cabeça. Tratava-se de um carro de porte médio, preto, sem mistérios, mas com teto solar que ajudava a balançar a cabeleira e a trança vermelha. O tal amigo era um cinquentão que fazia o gênero pavão misterioso, mas que naquele dia falava, falava, falava. Os assuntos variavam desde o caminho certo para chegarmos ao destino, até o caminho certo para repousarmos na felicidade. E a melodia ia e voltava. O automóvel avançava, os sinais de… Ler mais

Hóspedes

Primeiro a vassoura, que faz o pó subir, depois o pano umedecido com um produto cheiroso para recolher o que os pelos não conseguiram agarrar, e para finalizar o pano de pó. Detesto e adoro essa rotina. A casa é uma maldição eterna, mal acaba de ser limpa e já se entrega novamente a cabelos, células, migalhas, marcas de pé. Mas a casa também é uma benção, refúgio, porto seguro. Enquanto a casa vai ficando limpa e organizada, meu coração também se organiza. Eles devem chegar a qualquer momento e quero causar… Ler mais