Desautomatização

Há meses vinha percebendo que gastava cada vez mais tempo conversando consigo mesma. Fazia paradas ao longo do dia para organizar as ideias, traçar planos, buscar lembranças, pensar no futuro. E fazia desse jeito atrapalhado, passado e futuro indo e vindo sem que conseguisse, ou mesmo quisesse, achar um ponto em comum entre ambos. A primeira vez que teve consciência disso estava no banho, com a água quente caindo nos ombros e provocando um relaxamento a que não estava acostumada, já que vivia apreensiva, preocupada, sempre atrasada. Tentava afastar a culpa pela… Ler mais

Meu amigo Zé

Adoro histórias, principalmente aquelas regadas a doses de cachaça que rendem boa prosa e embriaguez. Nessa hora o contador de causos é sempre uma figura muito especial. O Zé é um desses caras. É daqueles amigos que a gente visita quando estamos a fim de birita e de alimentar os ouvidos. O Zé tem sempre histórias frescas pra contar. Algumas totalmente inventadas, outras da própria vida – muito bem vivida, por sinal. E se for inventada melhor ainda, porque o momento chega a ser hilário. O danado conta histórias como ninguém. Mora numa… Ler mais

Casualidade

Foi tudo uma questão de casualidade. Como acontece quando se está pronto para sair e ao beber um copo de suco de laranja derrubar tudo na roupa. Ou se atrasar para a reunião e esbaforido no elevador encontrar o presidente da empresa que o convida para um almoço. Ou ainda puxar uma conversa com um desconhecido na rua e isso mudar a vida. Imagine. Ernesto é um jovem calvo, com pernas longas e finas, que etiqueta suas coisas para manter a organização e não perder muito tempo nas funções diárias. Gosta de… Ler mais

O verão de Vivaldi

Uma composição, cinco versões Dança das estrelas Ele se matou no final. Mas, calma, não esqueça que todo mundo morre no final. E mesmo assim valeu a pena. Aos 4 anos, Thomas enxergava a beleza de tudo. Do carrinho de três rodas, devido a um acidente, o urso com um olho remendado, a ausência dos pais, o excesso dos avós e a mesma comida a cada dois dias. Pegava os sapatos do pai escondido e dançava pela sala uma música imaginária. Escorregava de meias pelo chão de madeira até cair, bater a… Ler mais

A menina, a bola e a possibilidade de ser um cachorro

Ganhei uma bola com muitas cores e bonita. Peguei a bola e dei uns chutes nela. Disseram que eu não posso chutar bola porque é coisa de menino. Então o que eu faço com a bola? Fico só olhando? Meninas ganham bolas só para ficar olhando? Meu pai prometeu me levar a um campo de futebol. Eu não quero ir. Eu quero chutar a bola e não quero ver os homens correndo no campo atrás da bola. Parece que meu pai é juiz de futebol. E se baterem no meu pai porque… Ler mais

Quase

Quase. Palavrinha safada, essa. Às vezes nos salva, por vezes nos derruba. Quase foi um encontro. Ficou esperando. Espera até hoje. Quase foi um gol. A bola bateu na trave. O time foi vice. Quase foi um desenho. Continuou rabisco. Foi parar no lixo. Quase foi pra final. Vacilou. Caiu fora. Quase foi pega com o outro. Não soube de nada. Continuam casados. Quase caiu. Perdeu o equilíbrio. Desistiu da travessia. Quase bateu o carro. Brecou rápido e as compras do supermercado que estavam no banco caíram. Quase se quebraram os ovos…. Ler mais

Lúcia e o Riviera

Pela primeira vez na vida tinha um espaço só para ela. Havia passado do quarto que dividia com a irmã para outro que dividia com o marido. Agora, chegando aos 53, tinha um lugar só seu, com suas coisas, sua bagunça. Mas para que tentar se enganar? Nunca ia deixar nada bagunçado, não suportava coisas fora do lugar, armários abertos, cama desarrumada, chinelos virados para baixo – quando era pequena ouviu dizer que, se deixasse, a mãe morreria, e nunca mais pode evitar pensar nisso ao ver um chinelo jogado. Uma enorme… Ler mais

Minha irmã: um conto em 3D

Cláudia, minha irmã, rompeu o noivado. Foi uma surpresa para todos na família. Um casal tão bonito, tão feitos um para o outro. Não quis conversar a respeito. Fechou-se no quarto por dias, esgotou o estoque de lenços de papel. Emagreceu, ficou pálida e adoeceu. No hospital sussurrou para mim que nunca mais amaria ninguém, que a vida tinha se acabado, agora era só esperar; ela viria logo. A sensação de impotência que venho sentindo é tremendamente insuportável, vou deprimir também. Meus olhos já secaram pela dor da minha irmã. As cores… Ler mais

Bentinho revisitado

Se conheceram na vila onde moravam. Ele tinha 10 anos, Helena tinha 9, mas sempre o alcançava pois fazia aniversário em setembro. Brincavam juntos na rua com outras crianças: pega-pega, esconde-esconde, gato mia, estátua. Vez ou outra montavam peças de teatro, das mais variadas, desde o nascimento de Jesus, papel sempre reservado ao Zé Bento por causa do jeito sério, até a Turma da Mônica, com coreografia ensaiada. Quando chegaram na adolescência ainda viviam juntos, e agora até estudavam na mesma escola, pela primeira vez na mesma sala. Faziam as tarefas logo… Ler mais

A peça

Depois de almoçar, Zeca Bastos resolveu ler sua correspondência na caixa de entrada. Estranhou o nome do remetente em uma mensagem e por precaução passou o antivírus. Nenhum problema encontrado. Leu cuidadosamente, linha por linha, pois se tratava de um convite irrecusável, sedutor, exclusivo para um seleto grupo de escolhidos. Bem característico dele, coçou os cabelos, agora já grisalhos, fez um muxoxo, franziu as sobrancelhas e concluiu que valia pena. Fazia tempo que não ia ao teatro, embora no convite não houvesse nenhuma informação sobre a direção, o elenco e o enredo,… Ler mais