Desautomatização

Há meses vinha percebendo que gastava cada vez mais tempo conversando consigo mesma. Fazia paradas ao longo do dia para organizar as ideias, traçar planos, buscar lembranças, pensar no futuro. E fazia desse jeito atrapalhado, passado e futuro indo e vindo sem que conseguisse, ou mesmo quisesse, achar um ponto em comum entre ambos.

A primeira vez que teve consciência disso estava no banho, com a água quente caindo nos ombros e provocando um relaxamento a que não estava acostumada, já que vivia apreensiva, preocupada, sempre atrasada. Tentava afastar a culpa pela água desperdiçada, substância tão rara naqueles dias, e prolongava aquele tempo só seu.

Um dia, sentada à mesa, teve vontade de ficar ali parada, esquecida de que precisava voltar ao trabalho. Do nada lhe veio à cabeça a lembrança boa da torta de maçã da mãe… nada era mais como antes, para ela o mundo havia mudado rápido demais. Trabalhava em casa, não ia à rua para quase nada, sentia-se cobrada para fazer mais em menos tempo. Das muitas profissões que haviam desaparecido, a sua ainda tinha serventia, mas nunca era valorizada, pelo contrário, tinha apenas que agradecer o fato de ter clientes mais ou menos fiéis, fazendo o máximo para mantê-los.

Preocupada com seu viver tão solitário, havia adquirido um cachorro puig modelo Delta 3, mas a experiência com aquele robô que pedia carinho tinha sido um fiasco. Apesar de todos os esforços que imaginava terem sido empregados pelos programadores na construção de uma personalidade adorável para o bichinho, não acreditava em dar sua atenção e seu amor a uma máquina.

O final de semana se aproximava, e ignorando o trabalho atrasado decidiu ir ver com seus próprios olhos o que andava acontecendo de novo na capital. Descartou a ideia do transporte coletivo e preferiu alugar um carro, mesmo a um preço proibitivo. No site de reservas não quis escolher um modelo muito arrojado, voar não era seu estilo, preferia as estradas velhas e as quatro rodas bem assentadas no chão. Já se imaginava andando pelas ruas largas e cheias de gente.

Chegou sem problemas ao seu destino com a ajuda do mapa integrado ao volante, guardou o carro num edifício garagem e alcançou a rua. Uma sensação boa de pertencimento fez seu corpo vibrar, a cidade grande a fazia mais feliz. Andou sem um destino certo por muito tempo, até decidir-se por uma visita ao museu. Entrou sem saber o que esperar, na verdade nem quis ler a programação no totem interativo colocado bem à entrada, apenas registrou sua entrada pelo aplicativo no colar.

A mostra no primeiro andar tinha um nome instigante: Desautomatização. A ideia de conhecer uma obra que parecia querer discutir minimamente o excesso de tarefas, coisas e pensamentos automatizados já seria um alento. No centro da sala pouco iluminada duas pessoas dançavam com graça ao som de uma música muito suave. Os movimentos lentos e graciosos, muitas vezes sincronizados, a cativou. Observou por um bom tempo aquela dança, invejando a resistência dos bailarinos, e só então resolveu ler a apresentação projetada discretamente numa das paredes próximas à entrada.

“A dupla de bailarinos executam uma coreografia especialmente criada para a obra. O humano e o quase humano dançam em perfeita sincronia, um ensinando ao outro novas sequências, ambos professor e aluno. O ser robótico foi desenvolvido pelo artista plástico e engenheiro mecatrônico…”

Surpresa, não conseguiu prosseguir com a leitura. Seus olhos estavam agora no centro da sala. Como não havia percebido que um deles não era humano? Ficou ainda por vários minutos observando para confirmar que os movimentos da dupla permaneciam harmonizados e belos. Aos poucos a surpresa transformou-se em estranhamento, para terminar em verdadeira agonia ao pensar no realismo daquela figura, que poderia estar condenada a bailar eternamente.

Sentindo-se desafiada a transpor os seus próprios limites para participar dessa definição, aproximou-se dos bailarinos e também começou a dançar. Seus passos a princípio seguiram a sequência da dupla, mas a cada desacerto seu, natural em um exercício tão novo e espontâneo, a dupla assimilava o movimento e incorporava na coreografia.

Estava fascinada, e nem de perto conseguia distinguir as naturezas de um e de outro ser. Ousou tocá-los, num gesto impulsivo, e um pequeno triângulo se formou, ombro a ombro, braço a braço, dançando juntos; o tato com cada uma das figuras não era diferente. Os olhares se cruzaram, ambos calorosos e acolhedores. O fascínio a levou a um arrepio de medo. Quem era quem ali?

Lembrou-se de um artigo lido há alguns meses, um princípio da robótica tão importante quantos as três leis escritas por Asimov* e que recebia o poético nome de Vale da Estranheza**. Ele descreve o momento em que a representação extremamente realista de um humano deixava de ser surpreendente para alguém até tornar-se repugnante.

De fato a beleza e a estranheza se alternavam nela. Desejou profundamente que o mundo pudesse ter um mínimo de sabedoria para conviver com a Inteligência Artificial, pois estava se aproximando o momento de definir os limites do humano. Mas aquele instante passou a ser aterrador. Pensou que estava desatualizada.

Com aquele nível de perfeição, imaginou que para além da inteligência, também a consciência artificial era então uma realidade. E isso implicaria a existência de seres artificiais com memória afetiva tal qual a humana, com todo tipo de registro de sensações e com um passado inserido em suas programações. Tinha lido sobre um projeto assim, mas seu isolamento, o trabalho rotineiro e automatizado…

Saiu da pista de dança e correu para o banheiro, fixando o olhar na figura que vislumbrava no espelho. Um insight a atingiu feito raio. Seria tudo que sabia e lembrava apenas produto de uma formidável engenharia cibernética?  E se até o tédio tivesse sido previsto, na experiência de humanizar ao extremo a máquina? Havia ela alcançado o requinte da consciência artificial, suspeitando da própria natureza? Não poderia suportar a dúvida, e num átimo percebeu que também não suportaria a certeza. Hesitou, paralisou. Ficou a olhar para dentro de seus olhos, e lá permaneceu sem tempo para acabar. 

 

*Três Leis da Robótica: 1) um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; 2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e 3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

 **Princípio criado em 1970 pelo engenheiro de robôs Masahiro Mori.

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