Meu amigo Zé

Adoro histórias, principalmente aquelas regadas a doses de cachaça que rendem boa prosa e embriaguez. Nessa hora o contador de causos é sempre uma figura muito especial. O Zé é um desses caras. É daqueles amigos que a gente visita quando estamos a fim de birita e de alimentar os ouvidos.

O Zé tem sempre histórias frescas pra contar. Algumas totalmente inventadas, outras da própria vida – muito bem vivida, por sinal. E se for inventada melhor ainda, porque o momento chega a ser hilário. O danado conta histórias como ninguém. Mora numa casa construída nos anos quarenta, cheia de estilo e simplicidade. Faz questão de dizer que ela não tem varanda, tem alpendre. É a cara dele. A sala tem duas lareiras, uma ao lado da outra, “única extravagância e um arroubo de decoração”, me confessou. Piso de madeira, móveis também, e uma delícia de estar. A cozinha é toda vermelha e imensa, com uma mesa de doze lugares e um grande bar com balcão. É famosa por propiciar encontros incríveis com tipos interessantes, como aqueles com a Tina, atriz de teatro já na curva da fama, casada com o Cuco, um artista que esculpe em madeira, espanhol, que faz um ravióli melhor que qualquer italiano. Moram no campo, têm um cachorro de três patas e uma árvore que canta, mas essa é outra história.

Por falar em animal, o Zé tem um papagaio que imita peru o ano todo, mas, na época de Natal, se disfarça e começa a relinchar. Jura que não foi ele que ensinou, mas contou que o bicho relincha tanto, tanto, que passou a aterrorizar as crianças do bairro. Os vizinhos aproveitaram a chance para dizer que agora o Papai Noel chega numa carruagem de éguas brancas, porque as renas se aposentaram. Cada um se defende como pode.

Como disse, a vida do Zé foi muito bem vivida. Durante treze anos morou num veleiro no mar e fez diversas travessias. Conheceu bem os sete mares e namorou Iemanjá. Bem, na verdade, essa parte do namoro não lembro bem como foi, mas lembro que está em alguma das histórias que o Zé me contou. Encontrou Netuno no mar Egeu e teve um namoro demorado com uma sereia durante o tempo que navegou pelo Caribe jamaicano. Essa história foi ano passado que ele me contou, quando tomávamos cerveja na marina de Ilhabela e a birita rolou solta até o pôr do sol. Gosto tanto de suas histórias… Sei também a da baleia que passou dias colada ao lado do veleiro. É, tem essa aí também… Contou que passou por mares revoltos, tempestades terríveis, com ondas de dez metros, e que esteve à deriva próximo a uma ilha do Mar Báltico cercada de tubarões famintos e governada por uma amazona. “Um espetáculo de moça! Um pitel”, disse. Mas quem usaria palavras tão démodé? O Zé usa. E confesso que eu também, sometimes.

Sim, o Zé é demodé. E também o seu sobretudo xadrez em tons de azul marinho e marrom que tem até cinto e capuz. Sente muito frio, ébrio ou sóbrio, é só fazer um ventinho e está ele lá com o seu sobretudo cafona. Basta um sereno pro homem se cobrir. E quando chove ainda usa galochas. Também coleciona guarda-chuvas, diz que nunca se sabe quando vai perder algum. Apesar do mau gosto, já foi menino rico, e bem rico, quando moço, mas os pais perderam tudo no plano Collor. “Trabalhar é chato” é o seu lema. “Os meus maiores prazeres são a vagabundagem e whisky on the rocks”, isso a qualquer hora e sem ordem de prioridade.

Estudou Filosofia, mas, trabalhar, o Zé não trabalha e nem nunca trabalhou. Aliás “filósofo não trabalha, filósofo filosofa”. Diz que só estudou para aprender sobre a tragédia dos Gregos e se entregar à vida com a paixão dos Deuses. Daí deve vir também, acho eu, essa mania de ver novela. O Zé não perde uma. Lê antes o final e mesmo assim chora quando acaba. Tudo que for enredo o atrai. Mas confessa sempre ser a sua vida muito mais interessante.

Sempre se declarou um herói de mil amores – a modelo, a bailarina, as irmãs gêmeas, as primas das irmãs, as suas primas, e talvez até as minhas. Como a filha do general que tinha uma espingarda, que foi pra Europa a trabalho e voltou antes da hora, fazendo o Zé parar no armário, pelado. Mas essa também é outra história.

Lembrando assim tanto do Zé, percebo que ele anda meio sumido de minha vida ultimamente, e eu, meio à toa, precisando de uma nova história, e birita of course.

Adoro histórias. Adoro o Zé!

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