Casualidade

Foi tudo uma questão de casualidade. Como acontece quando se está pronto para sair e ao beber um copo de suco de laranja derrubar tudo na roupa. Ou se atrasar para a reunião e esbaforido no elevador encontrar o presidente da empresa que o convida para um almoço. Ou ainda puxar uma conversa com um desconhecido na rua e isso mudar a vida. Imagine.

Ernesto é um jovem calvo, com pernas longas e finas, que etiqueta suas coisas para manter a organização e não perder muito tempo nas funções diárias. Gosta de usar samba-canção e tem uma para cada dia da semana e outras para ocasiões especiais. É empreendedor de tecnologia e descobriu essa paixão fazendo jogos quando tinha apenas 4 anos. O seu futuro era promissor. Nerd, estudioso, seu hobby sempre foi ler e desenvolver pequenos aparelhos que facilitassem o dia a dia. Ganhou seu primeiro prêmio na feira de ciências na 5ª série do colégio. Na 8ª foi chamado para ser um consultor de uma grande empresa de videogames – o sonho de toda criança na época. Se tornou o orgulho e a preocupação dos pais.

No final da tarde daquele verão seco em Florianópolis, no auge dos seus 17 anos, recebeu uma ligação:

– Alô, por favor, o Ernesto Caldas Bastos está?

– Ernesto Caldas Bastos sou eu. Falo com quem?

– Olá, boa tarde, meu nome é Ernesto Caldas Bastos.

– Poxa, um xará? Que coincidência.

– Não sou bem o seu xará, eu sou você em outra dimensão.

– Quê? É trote bobo, vou desligar.

– Não, não, não desliga. Eu também não acreditei quando me falaram isso, mas é verdade.

– Como assim?

– Vou explicar: existem muitas dimensões, todas convivendo muito próximas, em frequências vibratórias ligeiramente diferentes. Cada vez que uma pessoa, diante de uma situação qualquer, toma uma determinada decisão surge outra pessoa numa dimensão complementar que tomou a decisão oposta, e a vida segue de outro jeito.

– Como é que é? Isso é loucura. Como é que pode?

– É simples, lembra quando você teve que escolher qual plataforma adotaria para criar aquele jogo novo que te deu o emprego de consultor?

– Claro, mas, pera aí, como você sabe disso?

– Eu sou você também, lembra?

– Tá, mas e daí, o que tem a minha escolha a ver com essa história?

– No momento em que você escolheu aquele caminho, você foi desdobrado para outro Ernesto, que escolheu a outra plataforma, que não ganhou a vaga de consultor e foi por outro rumo. Hoje ele é vendedor de games numa loja do Shopping, em outra dimensão.

– Tô ficando um pouco tonto. Isso contraria tudo o que eu sei.

– E você acha que sabe tudo, né? Tem mais, sabe aquele cara gordão, que você encontrou no elevador da empresa que ia te contratar? Aquele com olhar de peixe morto, fala mole, boca aberta?

– Lembro.

– Pois é, ele puxou papo e você esnobou, só pensando na entrevista que ia começar.

– Sim, e daí?

– Então, existe um Ernesto por aí, em alguma dimensão, que papeou com o cara, afinou, ficaram sócios e hoje estão para vender a empresa de games que montaram para o Google por uma fortuna.

– Não é possível, como eu ia saber? E então são infinitos eus, ou nós, sei lá!

– Quase infinitos, porque a gente morre um dia e para de escolher.

– E como eu vou saber qual é a melhor escolha, como posso saber, para controlar meu futuro? E, pera aí, como é que você está falando comigo?

– É que os universos, em um dado momento, por acaso, se tocam, e aí é possível a comunicação. Foi assim que fiquei sabendo, me ligaram também, mas nem sei como essa ligação começou. De repente eu estava com você na linha.

– Que horror, então não se tem controle de nada?

– Você nunca sabe direito os outros caminhos. Mas podemos reconhecer as janelas de oportunidade.

– O que é isso?

– Toda situação na vida abre uma janela de escolhas, de oportunidades. E para cada opção há uma série de outras alternativas que os outros eus escolheram e seguiram adiante.

– Mas isso dá um número infinito de possibilidades!

– Dá mesmo! Por que você acha que o universo se expande? Pra caber tudo, todas as possibilidades.

– Tô me sentido meio perdido.

– Eu também me senti assim, mas depois você vê que é mesmo e relaxa. Cada caminho tem seu valor, e não há como prever ou controlar. Você vai ter que passar essas informações quando estiver na linha com outro Ernesto. É nosso trato, não pode quebrar a corrente.

– E onde isso vai dar?

– Poxa, cara, não sacou o valor dessa visão de mundo? Saber que cada momento carrega uma decisão, que cada instante concentra um destino é fantástico!

– Mas se eu não posso controlar, de que vale?

– Deus do céu, se eu pudesse atravessar a fronteira dos universos eu ia aí desenhar para você! É exatamente o não controle da vida que a faz bela e valer a pena. Quanto mais nosso rastro for helicoidal, mais sabedoria e usufruto da vida. Pobres dos que deixam um rastro retilíneo, que nunca arriscaram escolhas novas, nesses o espírito não cresceu, desperdiçaram a alma em garantias de segurança e se apequenaram. Você não vai trair a categoria, vai?

– Como assim?

– Saco! Só desenhando mesmo. A ligação vai cair, olha, cara, pensa no que conversamos, valoriza cada segundo, tudo está em tudo, o controle é uma ilusão e o mundo dá voltas sim.

– Acho que estou começando a entender… Alô, você ainda está aí?

– Alô, quem fala?

– Eu estava falando com o Ernesto Caldas Bastos…

– Pois não, sou eu, o que deseja?

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