O verão de Vivaldi

Uma composição, cinco versões

Dança das estrelas

Ele se matou no final. Mas, calma, não esqueça que todo mundo morre no final. E mesmo assim valeu a pena. Aos 4 anos, Thomas enxergava a beleza de tudo. Do carrinho de três rodas, devido a um acidente, o urso com um olho remendado, a ausência dos pais, o excesso dos avós e a mesma comida a cada dois dias. Pegava os sapatos do pai escondido e dançava pela sala uma música imaginária. Escorregava de meias pelo chão de madeira até cair, bater a cabeça e chorar de rir. Era feliz. Divertia-se com o que tinha, achava graça na repetição, nas pausas, nos espaços.

Cresceu. Ficou alto, magro, desengonçado e vivia cheio de roxos pelo corpo. Não se dava conta de que não cabia mais nos mesmos espaços de antes. Mas insistia. Aos 15 anos, entendeu que era diferente. Sentia demais! Tudo era muito intenso. Tudo era para sempre, até que deixava de ser. Foi o caso dos seus avós, Lúcia e Maurício. Se foram com o cometa, se transformaram em estrelas e sobrou o universo dessa nova ausência. Isso lhe roubou a graça de tudo. Começou a chorar seco, só ele sabia o que sentia. E era demais.

No dia da sua emancipação, quando resolveu fugir de casa, indo para a escada de incêndio do prédio até acabar o suco de caixinha e o saco de batatas fritas, a vida foi generosa. Arrastando os pés e limpando o corrimão com a manga do casaco, deu de cara com a menina mais linda do mundo. Pelo menos era assim que a via. Os olhos grandes, puxando um pouco para baixo, nariz afilado e 30 pintinhas nas bochechas, sorriso pequeno com dentes grandes e um espaço para o ar passar. Um filme passou por sua cabeça: os dois se casando na igreja do bairro, ele com os sapatos do pai, que não cabiam mais. Ela com o vestido de sua mãe. Eram tão felizes que as pessoas se perguntavam como conseguiam. Corte. Os filhos correndo de meia pela sala de casa. O casal dançando e dividindo um pacote de bolacha. Corte. Foram felizes para sempre.

Foi interrompido quando ouviu a voz da menina dizendo para a mãe:

– Eu, hein? Que menino esquisito. Fica com a boca aberta, mas não sai uma palavra.

Aos 30 anos, passava seus sábados lendo e escrevendo. Dizia que não era da sua geração, ninguém o entendia. Por isso, resolveu escrever a própria historia. Foi viver. Saiu por aí. Andou pelas ruas, comprou passagens só de ida, passou noites em claro, teve romances com desconhecidas e com algumas conhecidas, ficou doente. Achou que ia morrer, mas se enganou. Deixou de falar com os pais. Voltou a ver o belo em tudo. Se casou na igreja do bairro com a segunda menina mais linda do mundo. Comprou seus próprios sapatos e dançou até cair de rir. Bateu a cabeça. Desta vez foi fatal. Morreu. Ele sabia que isso ia acontecer. Virou estrela, na constelação ao lado dos avós.

Ele não fará falta e será lembrado. Coisas da vida.


Vivaldi no verão

Empurrou a porta da varanda e sentiu a explosão de calor lá fora. Devia ter chegado manso, como acordes suaves de violino, trazendo de volta os pequenos passarinhos. Mas não foi o que encontrou no quintal. O sol quente trazia a promessa de um dia colorido e pegajoso. Aos primeiros passos já pode sentir o chão de ladrilhos mornos sob seus pés nus.

Vivaldi passou correndo por entre suas pernas e rolou no gramado daquele jeito desengonçado e festivo que tem todo vira-lata – parecia saber que o verão tinha voltado. Depois foi correr atrás dos passarinhos. Assim como ela, não ligava para as outras estações, tinha pressa de viver.


Memórias fervidas

Hoje é mais um desses dias em que a cortina da sala nem se mexe. Nem as folhas do vaso de lírios ao lado da janela. Nem a copa da figueira do jardim do prédio. O calor do verão explodiu em partículas de fogo que resolveram se espalharam pelo ar dentro e fora da sala. Calor de usurpar o ar e o fôlego.

Dario recusou o convite para o almoço que recebeu de amigos com a velha desculpa dos trabalhos aos finais de semana. Ainda tinha muita vida por organizar com a saída do namorado, apesar de tudo previsto. Dia, data e hora marcada. Estava mimetizado com o tempo. Aquele ar parado dentro e fora. Era impossível não contaminar o seu humor nesse inferno. Mas o que o deixava assim tão paralisado, ele sabia, era a ausência de Pedro na casa.

Na cozinha só se ouvia o silêncio da louça. Na geladeira ainda restavam o iogurte e a torta de limão de Pedro. Os amigos íntimos não ligaram para saber como andavam as coisas. Medo bem íntimo esse. E o clima lá fora só ajudando. Os dias se revezavam entre o forno e uma fogueira de assar miolos de elefante. Serviu-se de água fresca e aumentou a temperatura do ar condicionado, tentando minimizar a pressão interna e externa. Os amigos não vão ligar? Na crise é assim, todos somem.

Seus pensamentos e a panela de água do macarrão do almoço em sintonia com o dia. As memórias iam e vinham aquecidas, misturando-se à água no fogo: os dias na casa de praia com Pedro e os cachorros, o coador lavado e colocado na pia para ser usado, as carícias na cama antes de dormirem de conchinha, o sal na água, saber que já não o tinha, o pano de prato que Pedro havia bordado, o azeite na água, e as noites que se tornarão imensas com a sua saída. As memórias caiam como facas na alma. Os dois pegadores, a água fervendo, o sol quente lá fora, a louça branca comprada em Pedreira ao montarem juntos o apartamento, o espaguete de grano duro retirado do pacote e jogado em pequena quantidade na panela, a toalha de mesa que haviam comprado numa barraca indiana em Londres, e o molho no micro-ondas avisando que já estava aquecido. O macarrão está pronto.

A mesa para um só está à espera. Decidiu esquecer a toalha, devolvê-la para o fundo da gaveta, e comer no sofá. Preferia que todas essas memórias tivessem evaporado junto com a água na panela. Desaparecessem pelo fundo de alumínio com a imagem de Pedro saindo de casa. Mas o calor do ambiente insistia em lhe trazer a lembrança também do calor dos lábios de Pedro. E essas imagens lhe diziam que o amor vale a pena, e as próprias penas também. Mesmo que tenha sido a última dor que ele lhe causou. As gotas de suor escorriam pela testa como lágrimas.

Toca o telefone. Era Pedro, para lhe dizer que passaria na quarta para pegar a cadeira da avó, que deixara no quarto. O prato de macarrão esfriava no braço do sofá. Dario aproveitou para perguntar se estava bem, e conseguindo suportar o calor. Ele respondeu que estava na piscina de um amigo, aproveitando o dia de sol para se bronzear um pouco.

Outro, ele já é de outro, pensou Dario. E se lembrou da panela fervendo com a água para o macarrão, e de como as memórias são capazes de se evaporar num suspiro para uns, e se impregnar feito Superbonder para outros.

Um amor que partiu valendo a pena. Evaporando com a toalha de Londres, o pano de prato bordado e a louça das bodas, e deixando tão somente uma única relíquia, junto com o calor do sol sufocante de verão que lhe doura a pele em novos braços.


Richardson em uma estação

Esquina Rebouças com Avenida Brasil. Calor, trinta e cinco graus. Richardson, ou Rixa, serpenteia pelos carros parados no sinal para distribuir papéis que estampam o lançamento de um imóvel nas redondezas. Veste camisa e gravata. O nó aperta. O calor aumenta. Um vento forte levanta poeira. Os automóveis buzinam. Tem o vendedor de água, concorrente nas abordagens. Tem raio e trovão também. Os carros avançam e param. Rixa corre para distribuir o máximo possível de propaganda e assim atingir a meta do dia. Esbarra no equilibrista comedor de fogo.

– Bom dia, cavalheiro, posso lhe oferecer um convite? Esteja conosco… O sinal abre, e os carros aceleram e buzinam.

Treze horas. Afrouxa a gravata. Dobra as mangas da camisa. Parada necessária. Corre até a guarita de um segurança onde guarda a marmita. Feijão, arroz e torresmo, e a preguiça chegando. Uma esticadinha embaixo de uma árvore torta com sombra. Pelo menos dez minutos. E o sono chega e os carros passam. Em volta da árvore estudantes trocam ideias em voz alta. O vento bate forte e deixa o ar morrinhento. Quanta preguiça! Que calor! Rixa dorme profundamente. Afrouxa mais um pouco a gravata. O vento vem mais forte. Raios e trovões. Tem o cachorro que late sem parar. Rixa dorme. O vento quente e trovões. O cachorro late mais ainda. A turma de estudantes permanece em alto vozerio. Uma mulher para e olha para o Rixa dormindo. O vento bate quente melando a face. O gari passa com seu carrinho de mão assobiando uma música. Alto falante de um carro reverbera outro tipo de música. E o cachorro late e Rixa acorda. Sai em disparada para esconder os panfletos da chuva, que engrossa a cada pingo. Corre do raio, corre do trovão, corre da chuva e do vento. Rixa cobre a cabeça com os papéis molhados e senta na sarjeta.


Ninfas de verão

Sabia que ia sonhar. Já era de praxe, toda noite adormecia relaxadamente e se via em um tapete voador.

Sobrevoava paisagens medievais, lagos, florestas, planava por campos amarelos e pousava no jardim de um palácio. O sol sempre a pino, máxima luminosidade, o dourado refletido lhe doíam os olhos.

Da relva e do bosque saiam ninfas em louca carreira, como em um pega-pega, em ziguezague, esvoaçantes, dançando ao som do vento e do assobio das ramas.

Uma roda se formava e giravam, e cada uma rodopiava graciosamente, em ritmos crescentes e decrescentes, e o círculo se ampliava e retraia, em um carrossel alucinante, vivo, pulsante.

Uma ninfa se destacava do grupo e vinha ao centro, avolumava-se, volteava, deixando transparecer seus cabelos loiros.

Aí tudo se dissolvia no ar, e pairava um silêncio de depois. Era por pouco tempo, e o balé recomeçava e surgiam novamente das flores e das copas, e a coreografia se repetia.

Pareciam brincar de verão.

©unoutro

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