A menina, a bola e a possibilidade de ser um cachorro

Ganhei uma bola com muitas cores e bonita. Peguei a bola e dei uns chutes nela. Disseram que eu não posso chutar bola porque é coisa de menino. Então o que eu faço com a bola? Fico só olhando? Meninas ganham bolas só para ficar olhando? Meu pai prometeu me levar a um campo de futebol. Eu não quero ir. Eu quero chutar a bola e não quero ver os homens correndo no campo atrás da bola. Parece que meu pai é juiz de futebol. E se baterem no meu pai porque ele apitou o jogo de um jeito que a torcida não gostou? Vai ser muito ruim ver meu pai apanhar da galera. Acho que eu vou chorar por causa disso. Vou chorar bastante de pena do meu pai e de vergonha porque ele apitou o jogo errado.

Não gosto de sentir vergonha. Queria não ligar para nada que os outros dizem. Minha avó me deixa brincar com qualquer tipo de brinquedo. Ela diz: criança tem que ser criança. Meio estranho esse jeito de falar. O que mais eu poderia ser? Pensando bem ia gostar de ser um cachorro. Todo mundo ia ficar fazendo cosquinha e eu só de boa de barriga para cima. E as pessoas falando comigo com aquela vozinha de quem fala com uma bebezinha. O que eu não sou mais. Estou bem adulta agora que a minha irmã se mudou para o quarto que era do meu irmão. Ele só volta no ano quem vem. Vou ficar com saudade, mas ter um quarto só meu é demais. Não quero nunca mais ter um quarto com alguém, porque é bom ficar sozinha e ter tempo para pensar, e ler, e usar a minha imaginação. Isso é o que eu mais gosto de fazer. Eu não ligo para esportes, nem para roupas, nem para maquiagem. Do meu celular eu até gosto. Mas como sou muito esquecida, tenho que ficar preocupada com ele o tempo todo. Minha mãe é a única que me entende. Ela diz que eu posso ser o que quiser, quando chegar a hora de eu querer ser alguma coisa. Meu pai também é legal. Eu dei sorte.

Acho que consigo entender a minha avó e esse jeito dela de deixar soltas as crianças. Nós precisamos de liberdade, e depois a gente vai vendo no que dá… he, he. O quarto só meu, a bola só minha e do jeito que eu quiser usá-la. Os meus pais são muito bons, sim, mas no fundo não se entendem bem quando devem decidir o que posso e quando posso fazer. Não vejo a hora de levar a bola na casa da vovó. Estou pensando, acho que ela é a pessoa ideal para realizar o meu próximo desejo: quero um hamster.

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