Lúcia e o Riviera

Pela primeira vez na vida tinha um espaço só para ela. Havia passado do quarto que dividia com a irmã para outro que dividia com o marido. Agora, chegando aos 53, tinha um lugar só seu, com suas coisas, sua bagunça. Mas para que tentar se enganar? Nunca ia deixar nada bagunçado, não suportava coisas fora do lugar, armários abertos, cama desarrumada, chinelos virados para baixo – quando era pequena ouviu dizer que, se deixasse, a mãe morreria, e nunca mais pode evitar pensar nisso ao ver um chinelo jogado. Uma enorme lista de pequenas coisas que a perturbavam a ponto de não conseguir relaxar nunca. Como desculpa, dizia para si mesma que ser tão metódica havia lhe sido útil para reestruturar a vida depois de tudo que passara.

Terminou de guardar as roupas no armário e organizou os livros trazidos para ter a sensação de que estava num lugar realmente seu, e arrumou sobre a cômoda o porta-retratos com a foto dos pais no dia do casamento deles. Ouviu Mariana chamá-la.

– Estou indo – respondeu já no corredor em direção à sala, onde a patroa a esperava.

– Poderia me preparar alguma coisa quente? Este apartamento é gelado… e depois de velha parece que estou sempre com frio – disse com a voz firme, que não revelava sua idade.

– Apartamento é assim mesmo, parece que a temperatura está sempre acima ou abaixo do que a gente gostaria. Vou colocar água para ferver e trago uma manta para colocar nos pés. Vai se sentir bem melhor.

Mariana relutara para contratar uma cuidadora, se sentia bem e forte, no controle de sua vida. Sempre foi de resolver tudo sozinha, mais ainda depois de enviuvar, mas os limites a obrigaram a revisar sua vontade. Intuiu que seria melhor ter alguém para trocar ideias e seguir em frente sem perder o contato com o mundo. Nos últimos anos, depois que havia feito 70, tinha parado de se cobrar essa necessidade de acompanhar tão de perto os acontecimentos.

– Quer alguma coisa para comer também? – quis saber Lúcia, já preparando a bandeja na cozinha.

– Não, só quero que se sente aqui comigo e me conte mais sobre a sua história e o que te levou a aceitar o emprego. Afinal, você podia ter outro tipo de vida, basta dar uma olhada no seu currículo.

Sem muita vontade de falar do passado, Lúcia se limitou a comentar sobre a carreira.

– Acho que trabalhar numa biblioteca não é mais tão interessante como eu costumava achar… Agora tudo ficou muito chato, as pessoas leem menos, ou só têm vontade de ler no celular.

– Eu sei como é, tudo digital. Nosso bem e nosso mal…

Lúcia conhecia o trabalho de Mariana e sua carreira como fotógrafa, famosa na década de 80 no cenário da moda, e compreendia que também ela não gostasse de viver de suas memórias. Um conhecido em comum as tinha colocado em contato. A árvore genealógica de Mariana terminava com ela, não havia mais ninguém da família, mas ainda contava com alguns poucos amigos que se faziam presentes de quando em vez.

As duas sentaram-se no sofá que ficava próximo à grande janela da sala. Do oitavo andar do Edifício Anchieta via-se uma paisagem que fazia a cidade parecer mais bonita, com seus prédios altos, a torre retransmissora de aço bem à frente, as pistas repletas de carros, e mais ao longe as campas do Cemitério do Araçá.

Lúcia tinha uma enorme paciência com Mariana e seu temperamento difícil. Ela, por sua vez, retribuía sem demonstrações óbvias, às vezes algum dinheiro extra ou um bilhete com algum pedido, que assinava sempre com a palavra “Carinho”.

– Hoje à noite vamos descer e tomar uma cerveja no Riviera – decidiu Mariana, sem perguntar nem esperar por algum comentário.

Há tempos Lúcia planejava rever o lugar que ficava no térreo do mesmo edifício. Só temia encontrar com o garçom Juvenal, eternizado no fanzine do bar famoso. Tolice, não depois de tanto tempo. Essa, aliás, tinha sido uma das razões que a levou a aceitar o trabalho. Não exatamente o Riviera, mas tudo que ele a fazia lembrar, um tempo em que havia uma vida a ser vivida, sem nada definitivo ou que pudesse ameaçar a sua tão desejada liberdade. Uma liberdade que acabou por trair com os caminhos que seguiu em sua vida. Mas isso já não a afetava mais, não correria antigos riscos.

Gostava de sair pelo portão principal do edifício e em instantes encontrar a fachada restaurada do Cine Belas Artes, que agora tinha uma nova cor e um novo nome, mas que a fazia relembrar filmes e amigos que marcaram sua juventude. Dispensava sempre o pequeno túnel que atravessava a Avenida Consolação pelo subterrâneo – medos infantis. Logo lhe vinha à mente a figura de Luiz Noronha, grande companheiro de noitadas. Quantas histórias haviam acumulado. Como aquela do dia em que assistiam a um filme de Fellini – que esticava pela memória e não se lembrava qual era –, e um gato pulou no colo de um espectador. Um susto geral e gritos na plateia. Ela e Luiz, altos de tanto beber antes do cinema, entraram na gritaria até serem todos expulsos do prédio. Pena estar sozinha para recordar tudo isso, o Luiz partira cedo, deixando seu sorriso nas nuvens e uma melancolia que durara meses.

Mas algo lhe dizia que já era hora de ter parte da sua antiga vida de volta, mesmo que fosse uma pessoa totalmente diferente do que fora. Os drinks no Riviera lhe haviam rendido momentos inesquecíveis, e morar ali tão perto do passado a fazia reviver esses momentos. Se, por um lado, isso a atemorizava, por outro, a libertava. Chegava até a sentir calafrios quando lançava seu olhar para o antigo castelinho onde ficava a boate Nostromondo, no quarteirão à frente.

E lá se foram as duas ao Riviera naquela noite. O pai de Mariana já o frequentava em seus tempos de boêmia. Tinha sido arquiteto, influenciou sua inclinação pela estética, e amigo do grande Altafini, outro habitué em seus dias de glória no Palmeiras. Ela também havia sido figura assídua bem por uns dez anos, até finalmente se casar.

Sentaram-se à mesa próxima ao balcão, onde Mariana encostou sua bengala. Olhou o ambiente todo com os olhos do passado, como se nada da nova decoração pudesse impedi-la de revivê-lo. Como sempre se antecipou ao garçom:

– Dois Rabos de Galo, querido, por favor.

– Mas, Mariana, vai pedir essa bebida forte, não quer ficar na cerveja, como combinamos?

Assustada com a ousadia da patroa, Lúcia nem se dera conta de que havia subido o tom da voz, chamando a atenção de um grupo que ria e comemorava na mesa ao lado. Eles a encararam, atentos ao escutá-la repreender a senhora.

– Em homenagem aos bons tempos, e à sua digníssima amiga, faço questão de pagar o Rabo de Galo – disse o cara grisalho e bonitão, rondando os 60, sentado entre amigos e muitos copos vazios.

Lúcia o olhou por um instante e reconheceu, confirmando a suspeita ao perceber que no guardanapo que ele havia derrubado no chão estava o desenho de uma famosa personagem, que ela conhecia dos velhos tempos. “Meu Deus, será que o Luiz está me enviando mensagens do além?” – pensou, revivendo em segundos um passado que 30 anos haviam apagado.

Mariana, totalmente à vontade naquele ambiente, a trouxe de volta:

– Ah, Lúcia! Você não sabe de mim a metade! Por que acha que ainda moro aqui neste prédio? E por acaso reconheceu os artistas ao nosso lado, querida?

De olhos baixos, Lúcia disfarçava um sorriso, sem conseguir olhar em direção a Mariana e revelar algo mais sobre sua vida em outros tempos. Também evitava os olhos do vizinho de mesa. Ia do desenho no guardanapo que permanecia no chão para outros, amassados e espalhados entre os copos dos amigos, todos renomados ilustradores. Em vários deles, a figura feminina que vivia debruçada no balcão do Riviera, mergulhada em sua vida cruel e etílica.

Lúcia estava apavorada com a ideia de ser reconhecida. Só ela sabia que aquele desenho era como um espelho. Trinta e tantos anos haviam se passado, uma vida de ordem e regras, e agora estava ali, acompanhante de uma senhora de bengala que lhe abria as portas para o resgate de antigas memórias e, quem sabe, um novo começo, quando finalmente um equilíbrio se estabeleceria.

Chegou o Rabo de Galo, interrompendo seus pensamentos. E um brinde secreto selou aquele seu momento: “Que seja o que vier… Tim-tim, Rê Bordosa!”.

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