Minha irmã: um conto em 3D

Cláudia, minha irmã, rompeu o noivado.

Foi uma surpresa para todos na família. Um casal tão bonito, tão feitos um para o outro. Não quis conversar a respeito. Fechou-se no quarto por dias, esgotou o estoque de lenços de papel. Emagreceu, ficou pálida e adoeceu. No hospital sussurrou para mim que nunca mais amaria ninguém, que a vida tinha se acabado, agora era só esperar; ela viria logo.

A sensação de impotência que venho sentindo é tremendamente insuportável, vou deprimir também. Meus olhos já secaram pela dor da minha irmã. As cores esvaeceram, os sabores diluíram e tudo ficou frio. Vontade de dormir, muito.

Não me parece justo o que está ocorrendo. Por que a gente reage assim com essa intensidade, fica vulnerável a ponto de cair enferma, desespera o futuro? Somos frágeis desde o nascimento, e a cada frustração encolhemos nosso ser a uma miniatura encistada e medrosa. Depressão é doença contagiosa.

 

… tão feitos um para o outro

– Posso ler pra você este conto?

Ela tinha vontade de dividir tudo com ele: um bom texto, uma receita, uma lembrança. Queriam tanto saber tudo um do outro que costumavam contar em detalhes as dezenas de pequenos acontecimentos do dia. Pensavam que a vida tinha planejado esse encontro feliz entre eles, um no caminho do outro de forma definitiva.

Ela falava muito e com todo mundo – no elevador, na festa, na loja de rosquinhas –, ia falando e sorrindo. E ele gostava de ver que os olhos dela sorriam quando falava. Ele achava estranho quando diziam que era bravo, mas no fundo gostava, porque assim não precisava se abrir com ninguém além daqueles poucos amigos que cultivava há anos. Mas com ela sempre fora diferente: quando se encontravam a conversa fluía, e ela nunca tinha achado que ele parecia bravo, para ela aquela cara séria era só uma certa falta de traquejo com a maioria das coisas consideradas normais no convívio social.

– Posso te dar um beijo?

Eles estavam dançando uma música lenta e ela não esperou a resposta, foi beijando. Ele ficou sem ação porque a mulher dele estava por ali, e porque, apesar de estarem todos meio altos na festa, não era uma coisa assim tão simples de explicar a uma esposa.

Um dia ela chegou no prédio e ele estava a sua espera. Ficou feliz de vê-lo ali e o convidou a subir. Ele queria aceitar o convite, mas não antes de falar o que tinha vindo falar. Estava se separando, e ela temeu que fosse consequência do beijo, mas já torcia para que esse fosse o desfecho, ainda mais porque há tempos tinha descoberto que a amizade havia se transformado em amor, tesão, paixão.

– Você acha que esse noivado vai dar certo?

Perguntava sempre, mas já não acreditava que ele quisesse de fato ficar com ela. Sentia tanta falta do amigo quanto do amante, ou até mais, a ponto de desejar com todas as forças que fosse possível dar um “undo” naquela parte da sua história.

Não se viam mais com tanta frequência. Ela ficava puta de esperar, enquanto ele não se preocupava mais em dizer onde estava.

– Você chegou a me amar?

Ao se despedirem ele não conseguia falar. Os olhos dela se encheram de lágrimas e mal enxergaram o momento em que ele virou a esquina e saiu para sempre de sua vida. Dali para frente apenas a tristeza e o vazio comandaram os seus dias.

 

A sensação de impotência

Fui educado para ser um homem forte, daqueles que não choram à toa e carregam nas costas o papel de provedor da família. Lugar comum de outras épocas. Mas de tanto em tanto me pego caindo em sentimentos confusos e constrangedores, que se chocam com esse papel. Basta alguma coisa não andar bem na vida de minhas filhas. Algo que as deixe vulneráveis ou correndo risco de vida. Lá vou eu novamente para aquele lugar onde as emoções delas se enrolam mais ainda em nossa cadeia de DNA, e me fragilizo.

Não foram fáceis as horas de espera no parto da Claudinha. Complicado demais. Nem sei como a mãe aguentou as vinte horas, a pressão oscilando, o hospital, a ausência do médico de confiança, que estava viajando. Nem tínhamos dinheiro na época para um atendimento privado. A Cláudia veio prematura, um quilo e pouco, e com algumas complicações respiratórias. Fiquei ao lado dela os quinze dias em que permaneceu no berçário, enquanto Letícia, a mãe, se recuperava das complicações do parto. Nunca entendi essa parte do “manual” de médicos e familiares, que trocam todo tipo de confidência com as mães, mas são incapazes de colocar os pais a par. Como se tivéssemos coração biônico e armadura na pele. Nunca me senti tão frágil. A sensação de impotência era tão grande naquele momento que ainda arrepio revivendo esses dias. A angústia de errar com aquela bebezinha tão frágil foi forte demais para mim. Pensei que iria enfartar. Passaram-se dias, meses, e Claudia virou a rainha da casa. Todos os leites experimentamos para conseguir que ela engordasse já que o leite da mãe secara. Enfim, creio que não há na vida motivo que me desestruture mais do que ver as minhas filhas sofrerem. E na fragilidade delas percebo a minha.

Hoje a vontade era passar o carro por cima desse canalha do noivo se o encontrasse na rua. Eu já pressentia alguma coisa estranha naquele rapaz… tentei alertá-la. Mas agora ela já não me escuta como antigamente. Minha filhinha, minha menina, eu vou cuidar de você. Respira!

 

Meus olhos já secaram pela dor da minha irmã

Brincavam de casinha no quintal da chácara. Estavam lá todas as panelinhas, o fogãozinho e a mesa miniatura em rosa com suas cadeiras de pernas finas. Ao lado, criaram uma escolinha com latas vazias de óleo de carro, que pediam ao seu Chico, lá do posto de combustível da esquina, onde começava o estradão. Cada latinha, um aluno. Cláudia e Julia se divertiam, imitando a mãe no fogão e a professora na escolinha. Em volta, o cão Tarzan brincava, as galinhas e o galo ciscavam, os coelhos saltitavam de um buraco a outro. Havia ainda um leitãozinho de nome Nestor, que Cláudia chamava de filho. Afeiçoara-se a ele desde quando chegou por aquelas bandas trazido pelo Tio Inácio. Ela preparava a comida dele, queria dar banho, pensou até em pedir para a mãe fazer uma roupinha bem bonita para levá-lo à missa do povoado aos domingos. Às vezes, pegava um banquinho e sentava ao lado do Nestor para contar a história dos três porquinhos. Fazia isso para deixar o leitão preparado para um futuro maligno. As duas meninas nasceram em épocas diferentes, mas sempre viveram entrelaçadas, na alegria e na tristeza. Um dia, sempre há um dia, chegou a Páscoa e o pai resolveu que era hora de comer um leitão assado. Cláudia chorou muito, ficou doente, foi internada. No quintal, sozinha, Julia disfarçava sua tristeza ao simular uma papinha no fogão. Olhava para o chiqueiro vazio e soluçava até mais não aguentar. Sentia a mesma coisa agora, já passados uns quinze anos, quando Cláudia mais uma vez ficou enferma ao romper o noivado.

Como uma criatura reduzida a uma miniatura encistada e triste, Júlia repete para si a todo instante: “Minha respiração ficou ofegante, meus cabelos tornaram-se neve em segundos, minhas mãos não transmitem mais luz, minhas pernas perderam a velocidade no caminhar e meus olhos já secaram pela dor minha irmã”.

 

Depressão é doença contagiosa

Nunca sei se estou deprimido ou só triste. Às vezes parece que carrego uma bolsa no ombro esquerdo cheio de melancolia, frustrações e xingamentos entalados. Pesa tanto que até arrasto o pé. Meu corpo estranha quando solto uma risada desavisada. Parece uma agressão sem fim para o meu sistema, que volta a relaxar quando fecho a cara, paro de comer e dou corda aos meus pensamentos mais sombrios. Sempre ouço das pessoas próximas que vou sair dessa, que é preciso força de vontade, pensar positivo… mal sabem eles que quanto mais usam a simpatia mais antipático fico. Nem tento disfarçar.

Depressão não é uma escolha. Pode surgir de uma causa, como no caso da minha filha Cláudia, tadinha. Ninguém imaginava. Pelo visto, nem ela. Não tocamos no assunto. Só seguro na mão dela, aperto os olhos em sinal de compreensão.

Depressão é doença contagiosa, como no meu caso. Peguei há anos, em uma sexta-feira chuvosa, quando Zeca, meu melhor amigo, de quatro patas, me deu sua última abanada de rabo, pulou o portão e saiu por aí para ser feliz. O mosquito frustração me mordeu. Nunca me recuperei.

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