Adocicando a reunião

Segundo o Houaiss, adocicar é tornar levemente doce, atenuar, abrandar. Era exatamente disso que o grupo reunido no quinto andar do edifício Margarida precisava. A anfitriã, uma senhora grisalha muito discreta em seus quase 65 anos tentava fazer sua parte. Como todos na sua idade que acreditam que sua experiência de vida serve para distrair um público tenso, ela passou a narrar histórias vividas sabe-se lá quando e com desfechos pretensamente hilários. Tudo fazia sentido, desde que a névoa do embate pairando no ar se dissipasse.

Um grupo de solenes desconhecidos, depois de alguns poucos encontros, topa um projeto de escrita coletiva e o mantém há dois anos. Um sexteto contradizendo a lógica, um bando de gente doida mansa, às vezes um time voluptuoso, outras vezes preguiçoso. Mas a química era generosa, acolhendo combinações imprevistas, saídas tangenciais, instabilidades de humor, tudo vivido com açúcar e com afeto (opa, lugar comum não pode).

Comportavam-se como toda família, um caos, um não deixando o outro terminar de falar. Não por intolerância, mas por amor. E onde tem amor todo mundo tem voz. Até que decidir a pizza foi fácil. Mas logo voltaram à pergunta de todos os encontros: – Quanto estamos comprometidos com este projeto?

Já fazia mais de três horas que a discussão seguia animada, as vozes podiam ser ouvidas em todos os andares. No apartamento acima, um famoso cantor não conseguia entender sobre o que falavam. Pensou em dar uma chegadinha para ver se era uma festa.

Beto, como era conhecido, desceu as escadas e durante alguns segundos ficou segurando uma xícara vazia nas mãos, pensando que, na falta de uma ideia melhor, ia pedir um pouco de açúcar.

Lá dentro três garrafas de vinho haviam sido esvaziadas pelos seis escritores, que já discutiam um novo projeto, quando a campainha foi acionada com um toque longo.

Quem estava na cadeira mais próxima da porta foi abrir. A surpresa foi geral quando aquela figura, em seu modelito “deixo tudo solto” e segurando uma xícara azul, disse: – Beto. Ao seu serviço. – E estendeu a mão desocupada para alguém apertar.

Entrou sem cerimônia e sem nem reparar na cara de espanto da anfitriã com tamanha intimidade. Mas invadir a festa daquela vizinha que nunca sequer olhara para ele no sobe e desce do elevador foi sua mais pura vingança.

Então ela, atrevida e provocativa, providenciou um fundo musical, e ao som do Rei da Lambada a pizza desceu dançando.

© Crônica coletiva

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