Pulp fiction paulistana

As luzes foram acesas, mas Ana Beatriz ainda se sentia dentro do filme. Produção francesa é assim mesmo, nos deixa no meio do caminho: ficar sentada e pensar a respeito, ou correr para olhar o mundo e ver se tudo ainda permanece no mesmo lugar. Enquanto pensava, ia arrumando todas as tranqueiras que havia espalhado nas poltronas vazias ao lado da sua. Saquinho de pipoca, livro da Hilda Hilst, copo de Coca-Cola, programação do Belas Artes, a garrafinha prateada com seu uísque preferido. Esperou os créditos passarem na tentativa de ler alguma coisa surpreendente e ficou impregnada com a música que soava ainda forte no espaço. Levantou-se. Olhou para os lados. Frequência reduzida naquela quarta-feira seca de inverno. Estava aposentada, era uma pessoa livre, podia se dar ao luxo de uma sessão de cinema às duas, sem contar que pagava meia entrada. Privilégio para poucos.

Na saída, a dúvida de sempre. Tomar um café ou ir embora para não pegar o metrô lotado? Passou os olhos rapidamente nas pessoas sentadas no bistrô e viu alguns jovens ruidosos, um outsider desamparado folheando um livro, e nada mais. Optou por ir antes ao banheiro.

Enquanto lavava as mãos, sentiu a presença de uma outra pessoa. Não havia visto ninguém até então. Não a viu entrar. Fez um gesto para sair, enxugando-se na própria calça, quando percebeu o choro dolorido da desconhecida. Ana era tímida, não gostava de falar com estranhos, mas sentiu aquele apelo da civilidade e, um pouco encabulada, arriscou a pergunta:

– Posso fazer alguma coisa por você?

Não era a primeira vez que caia nessa tentação samaritana de se envolver. Se o elevador falasse… E dessa vez não ia mesmo conseguir se conter. Choro contagia, desperta sua dor também.

Repetiu a pergunta, agora em um tom de voz mais suave e baixo. Havia se aproximado o suficiente para perceber que um lenço encobria meia face da desconhecida. Ela se virou para Ana, e uma onda enregelante a paralisou. Nunca vira olhos tão vermelhos assim.

Na hora lembrou-se do filme “Convenção das Bruxas” e das pupilas vermelhas faiscantes. E não era só isso. O olhar sanguinolento da outra parecia dizer: “que te interessa?”.

Uma onda a percorreu da espinha à barriga, e continuou até atingir a bexiga. Mas já tinha começado o diálogo, então procurou controlar suas reações. Fez menção de afastar-se, tentando não demonstrar muito o medo crescente que sentia. Ao desculpar-se e virar o corpo para ir embora (precisava achar outro banheiro, urgente), sentiu em seu braço unhas longas e firmes, e ouviu a voz rouca da mulher:

– Espere.

Esperar o que, pensou Ana? Imediatamente lhe veio o lugar comum “esperar pelo pior”. Mas o que seria pior do que estar ali naquele banheiro com uma figura assustadora a impedir sua passagem para um outro espaço redentor? E procurou reagir ao medo do que aquela estranha tinha a dizer. Torceu para que o choro terminasse e a rouquidão da voz se dissipasse. Estava errada.

– Esta cidade não é muito acolhedora, mas você me surpreendeu com sua pergunta. Ninguém se importa, não é mesmo? A aparência, a idade, o vigor é tudo o que valorizam. Mas você me entende…

Ana estava disposta a concordar com ela. Mais do que disposta até, concordaria com tudo que a mulher dissesse, desde que pudesse abrir a porta. Mas o fato é que estava certo o que dizia, a cidade não era mesmo hospitaleira com todos, e por isso fazia questão de usar o maior número de vezes o transporte público gratuito, sentar-se no banco reservado no metrô, ir a todos os lugares em que a idade lhe permitia entrar sem pagar. Considerava o mínimo de retorno que merecia depois de contribuir anos para o crescimento daquela metrópole, agora desgovernada. Arriscou um comentário, mas foi interrompida.

– O meu choro não é de dor, não se preocupe. Só estou com muita raiva, e quando chego nesse ponto não consigo segurar as lágrimas. Se evito demais, meus olhos vão ficando vermelhos até o ponto de quase me cegar, e então preciso dar um tempo, recuperar a calma, de preferência longe dos outros.

– Mas o que a deixou com tanta raiva, afinal? – quis saber Ana, sem pensar que a cada pergunta uma resposta viria, prolongando aquele encontro.

Ouve a exótica criatura declamar, as palavras rompendo o lenço que cobria sua boca:

“A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.”*

Ana virou-se para abrir a bolsa sobre a pia e retirar de lá seu exemplar de Hilda Hilst, cujas palavras reconhecera de imediato, para mostrar à desconhecida de olhos vermelhos que sabia de sua angústia: “A vida é crua”, ela concordava. Mas quando levantou os olhos a outra já não estava mais à porta.

© Crônica coletiva


Trecho do poema “Alcoólicas” (http://www.releituras.com/hildahilst_alcoolicas.asp).

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