Valise parisiense

Todos os passageiros do metrô de Paris carregam uma valise. Operários, doutores, faxineiras, professores, estudantes, larápios e gatunos. O que tem dentro da valise do parisiense? Marmita, livros e, bien sûre, maquiagem. Roupa suja para lavar e roupa limpa para o operário passear depois do trabalho, comendo um crepe envolto em minipapel, que segura com as mãos não tão limpas, com manchas da poluição e da graxa das máquinas. Tem revistinha também, tem pedaço de baguete com uma fatia grande de camembert, tem embalagem pequena de vinho, tem os pensamentos de Sartre, os dizeres de Camus e as peças de Jean Genet no mesmo plástico em que guardam o croissant. Quem sabe levam também o discurso do General de Gaulle aos franceses, escrito em Londres durante a Segunda Guerra.

Também quero ter uma valise, de couro marrom igual àquela da Violette Le Duc, ou parecida com aquela já surrada pelo tempo de Simone de Beauvoir.

Levaria minhas memórias sempre comigo, registros recentes e antigos da minha passagem, fotos, cartões, agendinhas, uma para cada finalidade, telefones de médicos, amigas, lojas e restaurantes, um saquinho com meus santos comprimidos de cada dia, escovinha para cabelo e uma dobrável para os dentes, uma bisnaguinha de creme dental, dois absorventes e protetor solar. Um espaço garantido para a última edição de bolso de Mémoires d’une jeune fille rangée. E o estojinho básico de maquiagem, sempre ao alcance dos dedos – preciso morrer bela, qualquer hora é hora.

Talvez seja sensato deixar outra valise arrumada, no caso de a passagem ser repentina. O que será necessário levar comigo para o Juízo Final? Um saquinho de pistache e um Chablis branco bem gelado. Talvez um bom aperitivo deixe minha conversa com Ele mais leve. Minhas cartas de amor, o poema de Guillaume Apollinaire Le Pont Mirabeau, algumas fotografias de família e um CD do Vinícius. Seriam boas ilustrações de como me comportei sobre os assuntos do coração. Meus boletins escolares,  minha tese de mestrado, as declarações de imposto de renda, a escritura da minha casa, o carnê do carro, quitado, caso haja necessidade de comprovar que sempre honrei minhas dívidas e compromissos. Seria suficiente para ganhar os céus?

Talvez eu deixe preparada uma outra valise, au cas où.

© Crônica coletiva

 

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