Receita para perder um amigo

Foi o tempo de entrar no carro do meu amigo e a melodia se instalou na minha cabeça. Tratava-se de um carro de porte médio, preto, sem mistérios, mas com teto solar que ajudava a balançar a cabeleira e a trança vermelha. O tal amigo era um cinquentão que fazia o gênero pavão misterioso, mas que naquele dia falava, falava, falava. Os assuntos variavam desde o caminho certo para chegarmos ao destino, até o caminho certo para repousarmos na felicidade. E a melodia ia e voltava. O automóvel avançava, os sinais de trânsito se alternavam, e na minha cabeça a frase melódica. Então está tudo certo, eu pensava, é tudo uma questão de ritmo.

Ele nem percebeu, mas cantarolei uma letra a partir de seu discurso interminável. Uma palavra e eu lembrava um verso, e ia deixando vir uma torrente musical, sem censura nem bloqueios, só mantendo a atenção nas palavras que ele nem sabia que me inspiravam.

Na chegada ele me disse: “Então, o que você achou da minha ideia?”

Sabia que ele ia se assustar, por isso eu fiz. Comecei a cantar os versos que haviam brotado do som de suas palavras. Elevando as sobrancelhas até quase a raiz de seu ralo cabelo, seus olhos começaram a lacrimejar. No momento não sabia se o motivo era a abertura exagerada dos olhos ou a emoção. Mas, confiante, continuei.

E não havia limites para mim. Ia de MPB a Axé, passando pelos clássicos sertanejos, samba, até funk. Tudo era inspiração, o ritmo era consequência. Lembrava a palavra, vinha o refrão. Felicidade: “Sou feliz, por isso estou aqui, também quero viajar nesse balão”… Tristeza: “Vai minha tristeza e diz pra ela que sem ela não pode ser”… Amor: “Amor, meu grande amor, não chegue na hora marcada”… Solidão: “Solidão, palavra que dói no fundo”… Tranquilo: “Tá tranquilo, tá favorável, um brinde pros recalcados”…

E foi ao som de MC Bin Laden que percebi que tinha ido longe demais.

Furioso com a minha (segundo ele) desconsideração com sua pessoa, disse que já não era de hoje que vinha desconfiando do meu desequilíbrio. Sem gastar muito tempo pensando naquela reação explosiva, cantei bem alto: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta!”.

© Crônica coletiva

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