Ideologia

E agora o quê? Que sombra ideológica é essa em que nos metemos? Choro com o grito de Cazuza: As ilusões estão todas perdidas…

Tomei partido da possibilidade de mudança nas ruas das Diretas Já. Jovem, me embriaguei demais. Mergulhei no sonho coletivo. Acreditei em promessas de heróis de cara pintada que proclamavam caçar bandidos. Me deixei levar alucinada pelo mundo imaginário das histórias em quadrinhos.

Fazer o que agora?

Assistir de pé aos meus heróis se suicidarem pela vaidade. Assistir a minha ideologia ser enterrada na vala comum do cemitério da propina. Nem em mais uma década seremos capazes de solidificar essa faxina. Até o novo grito das ruas de julho de 2013 também foi maquiavelizado. As forças da Praça dos Três Poderes são ardilosas e resistentes. Bloqueiam, filtram e ajustam sempre tudo. O lava-a-jato da corrupção tem mangueira fina, curta e alvo previsto.

É assim hoje. E depois como será?

Não tenho resposta. Resta para mim o tempo. Tempo implacável, que não me permite simplesmente recomeçar. Chego a pensar em me dopar até que tudo isso passe. Usar drogas tarja preta para dar um alívio na minha consciência, que não me deixa em paz. Fico o tempo todo me perguntando: “E agora, de que lado você está? Decida!”. O grito urge dentro de mim, mas não saio do lugar. Queria mudar o mundo, mas o mundo muda quem não sabe o que quer mudar.

Por sorte nasci mulher, estou acostumada a lidar com a luta, o “não”, o possível dentro do impossível. E a isso me agarro nas horas em que me perco. Leio, ouço e dialogo, procurando resgatar a ponderação e confiando na experiência adquirida para concluir: nem tudo é (foi) ficção, nem tudo é (foi) realidade.

Nem todos são só mocinhos, nem todos são só bandidos. O tempo pede urgência, a emboscada pede calma. O que mesmo eu queria mudar? Outra época, outro fôlego, outro ideal. Olho e já não enxergo os sonhos perdidos nos caminhos que escolhi, que deixei que escolhessem por mim. Preciso achar nas prateleiras da minha alma um livro em branco, sem ao menos um “era uma vez” e com um “foram muitas vezes”.

O ciclo, a rotina, a repetição, e o nada muda. Esqueço posicionamentos, manifestos, bravatas, manifestações, insinuações, teorias, guerras e debates.

E agora o quê?

Fica o dito pelo não dito. Mudo de compositor, e aproveito e mudo o ritmo, o colorido tonal, e solto a voz nas estradas. Não, não paro mais por nenhuma ideologia.

© Crônica coletiva


Este texto foi inspirado na canção “Ideologia”, escrita por Cazuza em 1988. Ele faz parte de um conjunto de 12 crônicas escritas coletivamente, sendo seis a partir de canções de Cazuza e seis a partir de canções de Caetano Veloso. Vamos publicá-las ao longo dos próximos meses.

4 comentários em “Ideologia

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