Hóspedes

Primeiro a vassoura, que faz o pó subir, depois o pano umedecido com um produto cheiroso para recolher o que os pelos não conseguiram agarrar, e para finalizar o pano de pó. Detesto e adoro essa rotina. A casa é uma maldição eterna, mal acaba de ser limpa e já se entrega novamente a cabelos, células, migalhas, marcas de pé. Mas a casa também é uma benção, refúgio, porto seguro.

Enquanto a casa vai ficando limpa e organizada, meu coração também se organiza. Eles devem chegar a qualquer momento e quero causar boa impressão desde o primeiro olhar. Não recebo hóspedes há muito tempo. Era uma coisa que fazíamos juntos, olhar a casa com os olhos de quem chega, preparar o quarto com lençóis claros, um vaso de flores na mesinha de cabeceira, vários cabides iguais pendurados no armário vazio, esperando roupas e jeitos dos visitantes. Oferecer a casa para estranhos… Nós, que sempre tivemos tanto cuidado com ela, lugar de expor nossas memórias mais queridas, preenchida com muitas conversas e risadas, nossa intimidade.

Ouvi um carro parar à porta. Chegaram. Difícil não ficar ansiosa, conheço esse frio na barriga: vou gostar deles? Mais importante: vão gostar de mim?

Abrindo a porta, me adiantei: – Fizeram boa viagem?

Um  sorriso radiante me trouxe todo o conforto que precisava no coração. Mas, intrigada, pensei: “Por que cinco malas? Será que entendi errado, não vieram apenas passar o feriado? Devia fazer alguma brincadeira e conseguir logo mais informações?”.

– Entrem! Espero que se sintam em casa. Preparei um bolo de fubá com erva doce, fresquinho, e o café que já sei que adoram.

Sempre uso a tática de ir para a cozinha quando percebo meus olhos indo de um lado para o outro, tentando acompanhar meus pensamentos. E enquanto servia o café me surpreendi animada com os convidados: “Como será a vida de cada um deles?”.

Se ficassem tempo suficiente para usar tudo que trouxeram, faríamos jantares animados, conversaríamos amenidades, seriedades, curiosidades. Íamos rir de tudo, regados a vinho branco. Descobriríamos juntos novas receitas. Dividiríamos nossos gostos musicais, dançando animados no meio da sala num sábado qualquer…

Seria bom, preencheria esse vazio que você deixou. Haveria mais cabelos espalhados pelo chão, células, de novo marcas de pés. E novamente porta-retratos pela casa.

© Crônica coletiva

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: