O crime do Houaiss

Um barulho no quarto ao lado me acordou de madrugada. Será que a crônica que tenho que entregar caiu da biblioteca e se estatelou no chão? Nada disso. Eram muitas as partes espalhadas, mas não eram letras. Eram cacos de um pequeno pote de cristal que escorregou da prateleira, empurrado pelo Houaiss.

Muito estranho isso, porque esses dois assuntos têm me perturbado ao longo do dia. A crônica inacabada – de certo estava sonhando com ela – e um dos tantos objetos que parecem se multiplicar pela casa a cada dia que passa. Só pode ser algum tipo de aviso das estranhas forças noturnas e do universo paralelo em que vivem os objetos quando não estamos olhando para eles. Será? “O nobre dicionário, fonte das palavras e seus significados, empurra da estante um pequeno pote de cristal inútil.” Parece chamada de página policial. Praticamente um duelo. Ou seria um assassinato? Sigo pensando nos motivos. Por que um dicionário teria assassinado um vaso de cristal inofensivo? Até entenderia se a vítima fosse o Google.

Não sou a favor de justiça com as próprias mãos, mas sempre me colocam no lugar do outro e, convenhamos, não gostaria de ser um Houaiss num mundo como o de hoje, onde basta um enter depois de uma ou duas palavras-chave digitadas num site de buscas e, como num passe de mágica, em um segundo aparecem na tela as descrições, em ordem de importância, com tantos megapixels quanto meu olhar necessita e deseja. Francamente, quem hoje procuraria o Houaiss na estante, folhearia suas páginas amareladas e, entre todas aquelas palavras escritas em letras minúsculas se contentaria em achar não mais do que três linhas com sinônimos e significados enxutos? Definitivamente nosso dicionário tem razões de sobra para estar chateado. Mas, descontar num pote de cristal?

Acendo a luz da cozinha chateada por acordar fora de hora e decido fazer um chá antes de arrumar a bagunça. Sento com a xícara entre as mãos e meus pensamentos me levam para o tempo gasto para se lapidar um cristal, o calor incandescente, as tantas etapas para se chegar a um formato que agrade ao artesão e o olhar impiedoso do pessoal do controle de qualidade, que pode levar uma peça com um defeitinho mínimo para o lixo em pedaços. Acabo achando parecido com escrever. Pelo menos para mim. Lá estou com a crônica inacabada se enfiando no meio dos meus pensamentos. Mas, pera aí, se tudo cabe nela, então já tenho o meu mote!

De volta à sala com uma vassoura, cato todos cacos, que me dão trabalho de tão miúdos. Vai que me corto pisando num desses vidrinhos se deixar a tarefa para mais tarde, estabanada do jeito que sou. Plaft! Ui, ai, ui! O Houaiss agora caiu no meu pé. Na calada da noite, este dicionário se transformou numa arma perigosa.

Pensando bem, o Houaiss acaba de selar seu próprio destino, terá sua última chance. Assim aproveito para usar um dos tantos objetos esquecidos pela casa. Vou tirá-lo da estante e deixá-lo por perto… seu novo destino será a escrivaninha ao lado do computador. E tirando o pó das páginas, deixo-o pronto para experimentar um duelo direto com seu inimigo real, o Google. E lhe darei três balas. Na terceira, se morrer, rua.

© Crônica coletiva

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