O sonho do Natal branco

Todo final de ano temos a sensação de que o mundo vai acabar se não atravessarmos a chegada do 13º, compras no shopping, congestionamentos ou a rota de fuga preferida do turista adicto: o aeroporto. A sensação de que esse pacote de acontecimentos faz a diferença nos deixa mais plenos e reconfortados.

Eu escolhi a rota de fuga, e pela primeira vez pisei no novo terminal do maior aeroporto do país: Terminal 3 – Guarulhos. Arquitetura moderna e estonteante, mas nada de assentos. Então relaxo e resolvo dar uma caminhada para conhecer o local, já que escolheram por mim que sentar-se é coisa para ser feita lá no avião.

Passo por alguns cafés de bandeiras conhecidas, guichês e mais guichês de companhias aéreas internacionais, e de repente ao fundo vejo um assento vazio, entre dois viajantes, e escondido por muitas malas.

Finalmente acomodada, pego a minha água com gás e vou direto à questão: “tudo novo, muito bonito, mas mal dá para sentar e relaxar”.

Digo isso para a senhora do meu lado esquerdo, que me pergunta: “Você também está em trânsito?”. E emenda: “Eu estou morta. Venho de Rio Branco, já passei por Brasília, e agora aqui em São Paulo espero o avião para Nova York. Vou visitar minha filha, mas nunca fui no Natal! Dizem que a decoração da cidade é um sonho”.

Rapidamente tento calcular as horas de vôo e aeroporto que essa cidadã levou atravessando o país, e as horas que ainda irá levar. Desacreditando, confirmo: “Rio Branco, Acre?”. “Sim, isso mesmo”. E eu preocupada com assento até então. Meu Deus!

Nesse momento a viajante sentada do meu lado direito entra no papo. “Nooosaaaaa, é longe, hein! Eu também estou em trânsito. Sou de Londrina e vou passar o Natal em Roma. Já tem neve por lá…”

Sempre gostei do frio. Casacos, tocas, botas, cachecóis. O frio sempre me remete a boas memórias, uma justamente da Itália: Natal na cidade da nona, Montalcino. Meus primos e tios também estavam lá, naquela cidadezinha bucólica e gelada, para um verdadeiro banquete: peixes de todo tipo, crustáceos, bacalhau, ravioli, tortelli di zucca, risotti e peru recheado. Sopas fantásticas, para a vigília, e doces como zuppainglese, marzipã, torta de amêndoas, e mais castanhas, nozes. Tudo regado a licores, vinhos, espumante e champagne. Um presépio suntuoso, a árvore de Natal repleta de presentes que só pudemos abrir depois da ceia.

Até hoje na família a comilança se repete, mas já sem presépio, sem primos correndo em volta da mesa, sem o encanto da espera pelo Papai Noel.

É possível viver de lembranças, mas hoje tenho verdadeiro fascínio pelo novo, pelo inesperado. Tradição familiar é muito bom, mas a vida me chamou para este lado mais forte em mim que é a aventura. As pessoas sonham com um Natal de neve enfeitando as árvores, fazem disso um roteiro de férias, uma viagem inesquecível… compreendo bem esse jeito de ver as coisas. Mas hoje sou comprometida com outra missão.

De certa forma, assim como eu, minhas companheiras de espera neste aeroporto também se dispõem a viver uma aventura: deixar para trás sua terra natal em busca de alguma coisa que as complete, seja reencontrar um membro da família, ou experimentar um inverno rigoroso que pede luvas e cachecóis quentinhos. Eu não viajo por alguém, mas por uma causa, pela quebra do paradigma de que um ciclo se acaba a cada final do ano, e eu possa sempre recomeçar.

© Crônica coletiva

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