A faca

Minha mãe era cheia de histórias. Meu pai também. Ambos povoaram minha mente com elementos míticos que se incrustaram no meu inconsciente e de vez em sempre estão presentes nas minhas reflexões. Uma historinha que ela contou quando eu era criança era sobre o afiador de facas.

Ao ouvir o inconfundível assobio, todas as notas de uma flautinha mágica de plástico, desfile de agudos, ela saiu para afiar suas facas de cozinha. Uma delas estava muito velha, com a lâmina toda denteada e sem corte. O moço propôs que trocasse a lâmina por uma novinha em folha. Não hesitou, e pouco depois voltou para sua cozinha com todas as facas afiadas, uma delas com uma lâmina zero bala. Mas aí percebeu que o cabo ficara destoante, uma lâmina novinha e um cabo velho, gasto, quase puído. Esperou, e no próximo assovio pediu que trocasse o cabo também.

E me perguntava em seguida: é a mesma faca?

Essa charada engraçadinha escondia para mim um mistério. Intuía que alguma coisa da faca do início tinha ficado com a faca do final. Algo que não conseguia definir em conceitos ou palavras naquela idade.

Hoje eu sei, por exemplo, que a cada oito anos todos os átomos do meu corpo (e do seu também) serão substituídos por outros átomos. Juro que não percebi, não deu nem para me despedir. Nunca me vi “outros”, mesmo já passados alguns múltiplos de oito, sempre permanente de mim, atravessando o matagal da vida com algumas escoriações e fraturas, mas ainda uma só pessoa, uma só identidade, mesmo que elástica, pelas várias fases da vida. No máximo a sensação de ter mudado um tanto, amadurecido, mas nunca “outro”.

E a faca? Resolvo encarar e seguir até onde minha capacidade de reflexão conseguiria chegar. Não demorou muito e arreguei de novo. Decidi pedir ajuda aos universitários. Apelo para Parmênides, mestre pré-socrático que defendia a ideia da permanência e da imutabilidade das coisas reais. E Heráclito, seu contemporâneo, porém seu lado especular, que afirmava que tudo é mutação, tudo é vir-a-ser. Fiquei na mesma, é ou não é a mesma faca?

Platão dizia que tudo nesse mundo real seria uma sombra do mundo ideal. Então a faca da minha mãe seria uma projeção concreta da faca ideal, do mundo das ideias. O mundo material estaria sujeito às mudanças, mas o mundo das ideias permaneceria eterno e imutável. Seria uma pista para minha intuição infantil?

Mas o mundo puro das ideias não resolveu minha angústia. A substancialidade da faca teria resistido às trocas das partes que sofrera? O que era mais substancial, a lâmina ou o cabo? Poderia haver o conceito de faca sem um destes elementos? Uma árvore troca as folhas constantemente e ninguém duvida que permaneça a mesma. Seu tronco também troca de células a cada ano, e ninguém se perturba com essa questão. Comecei a desconfiar que isso era muito mais um calo psíquico incitado pela minha santa mãezinha que propriamente um tema filosófico.

Ainda assim insisti, pulei uns séculos e consultei Voltaire, que disse que a dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza é absurda. Piorou. Tentei Kant, Hegel, Russel, Husserl e Heidegger, pirei e caí em mim. Só aumentou a confusão. Resolvi radicalizar: fui consultar minha mãe, a autora da história.

Ela me olhou, meio espantada, meio piedosa, e disse: “Sério mesmo? Você não tem mais nada para pensar, meu filho? Eu só armava daquelas para você parar quieto um pouco, pra sossegar enquanto pensava”.

Fiquei pasmo. Então era tudo manipulação? Pois manipulou mesmo, por décadas. Perdoei a velhinha, e percebi que poderia ter perdido os cabelos nessa empreitada.

… de repente, a luz. Nada como um solilóquio de vez em quando. Descobri a chave. Eu, procurando na Filosofia, na Lógica e na Metafísica, e a resposta bem ali na minha frente, na Arte. Sim, na Arte, mais precisamente na Arte Cênica. Lembrei-me de Eugène Ionesco, pai do teatro do absurdo ou insólito, em sua última frase da peça “A cantora careca”. Quando alguém pergunta, depois de praticamente duas horas de peça sem qualquer menção ao título: “– E a cantora careca?”, obtém como resposta: “– Dizem que já não canta mais.”

Assim, ao fim deste meu burlesco texto sobre a mutação dos seres, penso na solidão humana e na insignificância de sua existência e afirmo: “A faca? Penso que já não corta mais”.

© Crônica coletiva

3 comentários em “A faca

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: