Sonho de uma noite de verão

Foi perfeito, eu sei que foi perfeito. O anoitecer estava rosado, as duas estrelas apareceram juntas, uma leve brisa para aliviar o calor e a lua cheia despontando como um farol no céu. Férias sempre têm esse clima de que tudo pode, o novo é uma delícia e os imprevistos se tornam divertimento. É claro que quando se está na Grécia, no verão, com vista para o mar, tudo fica perfeito.

Fechei os olhos e procurei sentir tudo o que aquele momento poderia me trazer. E trouxe… as estrelas que guiaram Jasão e os Argonautas, a brisa que inflou as velas de Menelau rumo a Troia, a Lua que inspirou Ártemis e o mar de onde nasceu Afrodite. Grécia. Não dá para não sentir a energia em volta. Crise econômica? Um dia passa. O que não passa é essa energia que estruturou o Ocidente. A Grécia é atemporal, assim como são seus mitos eternos. Estar aqui é estar no centro da espiral, e ainda com um fim de tarde destes. É a terceira vez que venho aqui, e sempre é novo, fascinante. Sabe o que é se perder no labirinto e ter certeza que o Minotauro está à espreita? Sabe o que é percorrer as calçadas por onde Platão e companhia transbordaram ideias? E a culinária, então?

Dizem que o melhor lugar para se comer é na Itália, mas devo discordar. Azeite, azeitonas, pistache, berinjela, queijo feta de pelo menos uns vinte tipos diferentes são presentes dos deuses. Isso sem contar os vinhos. O berço da civilização sabe viver e venho para cá aprender. Aprendo com cada detalhe, desde as montanhas em Creta, que é conhecida por Zeus, até Santorini, a ilha vulcânica pronta para explodir a qualquer momento onde se cultivam as uvas no chão, em contato com o solo para absorver o sabor.

E que sabor… O vinho ajuda a revelar verdades e novas descobertas. Assim como este fim de tarde especial, que me inebria e traz o sagrado pela sabedoria milenar, pelas paixões mitológicas. Dizem que Eros voa em volta.

Estava em grupo com minhas amigas, papo solto, beira-mar, gente bonita e a música começou. Dois violões e Zorba invadiram o ar. Nem três segundos e os da terra já formavam a roda. Embalamos também numa dança cadenciada, coreografia envolvente, todos de braços estendidos entrelaçados, e a música orquestrando os passos.

De repente me tomaram sentimentos intensos, arrepiei de frio e mergulhei numa efervescência interior, numa viagem arrebatadora. Já não estava mais inteira ali, vozes ao longe me chamavam, e ingenuamente deixei-me ir ao encontro delas. Continuei dançando, mas um passo adiante me colocou no círculo mágico. E dancei um solo intuitivo, suave, leve, sentia meu eixo exatamente no seu lugar, e girava e girava. Se essa era uma dança dos arquétipos, então que viessem me encantar.

Senti a energia das deusas gregas me tomarem, invadirem minha alma e levitei, por míseros segundos, mas levitei. Até esbarrar com Niko, moreno alto com olhar amendoado. Ele não tirou os olhos de mim, e nem eu dele. Dançamos, bebemos, rimos e o chão, que já não estava mais sob meus pés, sumiu de vez. Entendi toda aquela mitologia que vem da observação da realidade, das pessoas e personas. Aguçando a vida.

Encontrei meu deus grego!

© Crônica coletiva

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