Segunda-feira

Já são 12:07 e nem vi a minha manhã passar.

De um lado um copo d’água e do outro a lista, a interminável lista de coisas a serem feitas. Acho que esse é o dia mundial de começar algo, como um regime, exercícios, limpar o armário, marcar o dentista, retornar todas as ligações dos amigos… No meu caso, resolvi começar a colocar as pendências do ano em dia. Uma delas era beber mais água, por isso o copo d’água, apesar de só ter olhado para ele.

Quanto mais paro para pensar e escrever sobre o que tenho a fazer, de mais tarefas eu me lembro. Será que elaborar essa lista já conta como pelo menos um dever cumprido?

Quisera, mas estaria roubando de mim mesma. Quem sabe se eu colocar em ordem as prioridades. Isso mesmo… mas o que vem em primeiro lugar? Regime, sim, regime, claro. Pronto, decidi, estou de regime, é fácil, já fiquei mais de vinte vezes este ano. Estou de novo, agora é para sempre. Em segundo… limpar o armário. Não é bem limpar, mas organizar, redistribuir meus pertences. Ocasionalmente, muito ocasionalmente, algo se perde lá dentro. Penso que possa existir algum tipo de fenda mística que leva meus brincos para outra dimensão, é a única explicação para eu nunca achá-los quando preciso e voltar a vê-los depois da festa.

Em todas as listas já feitas nos últimos anos, e nesta em especial, incluo com alguma relutância as ligações para os amigos. Afinal, por que isso me deixa ansiosa? E por que eu criaria motivos para me sentir assim, se já há tanto a ser feito?

Olho para o telefone e ele me parece um objeto arcaico. Já estamos à frente desse tempo, não é? As novas ferramentas de comunicação oferecem outras opções: mensagens pelo celular, por e-mail, pelas redes. Não é melhor dar ao outro a liberdade de ler e responder quando e se quiser? Ou no fundo temo “aquela” ligação em particular, que vai me colocar em contato com alguém que ficou no passado, para quem não há o que ser dito, nenhuma intersecção possível.

Pensamentos longe… Resolvo o assunto daquela ligação em particular. Acabo de responder as mensagens dos amigos no celular. Sempre fui assim, de cultivar as amizades. Sempre ligo para os amigos, não só para parabenizar nos aniversários ou para confortar os que tiveram alguma perda. Hoje mesmo falei com a Cora, o Zé e a Fau. Bom ter amigos.

Coloco um tênis e vou correr no parque. Faço exercícios desde pequena. Natação, dança, corrida e agora também pilates, quatro vezes por semana. Não falto por nada. Volto para casa encharcada de endorfina. Praticante de yoga, não fumante, budista, vegana. Vou fazer meu suco verde, porque cuidar da saúde sempre foi prioritário. Tomo um banho rápido, por ser sustentável e também pelo pouco tempo que tenho pra escolher a roupa do dia. Ainda bem que sou organizada e achar as blusas todas separadas por cor, perfeitamente dobradas, facilita a vida. Uau, como é bom vestir 38. Sorrio.

O telefone toca e para. Num sobressalto acordo assustada, e no colo está a interminável lista a me perturbar. Agora são 12:09.

Como pode ter passado tanta coisa pela minha cabeça em tão pouco tempo? Bebo toda a água do copo. Levanto, vou até a cozinha e coloco mais água. No caminho de volta, algo na janela chama a minha atenção. Me aproximo e olho. Na verdade, não olho, começo a enxergar. Vejo a vida acontecendo, pipocando, como milho na panela… Pipoca! Isso me fez lembrar que estou com fome. E na lista de tarefas sempre começo pelo essencial, o viver e o comer, com a dieta de segunda-feira na cabeça. Afinal, já tentei vinte vezes este ano, não custa nada tentar a vigésima primeira. Viva os começos, neste caso, os recomeços, até que dê certo.

Só não encontro meus brincos!

© Crônica coletiva

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